Petróleo bate US$ 100 pela 1ª vez em mais de um mês com tensão entre EUA e Irã

O petróleo disparava nesta quinta-feira, 23, e o Brent ultrapassou a marca de US$ 100 por barril pela primeira vez em mais de um mês, em meio à escalada das tensões entre Irã e Estados Unidos. O mercado reage ao aumento dos riscos de interrupções no transporte da commodity no Oriente Médio, após novos ataques a petroleiros, ameaças de retaliação entre Washington e Teerã e declarações de autoridades iranianas de que o conflito pode afetar o abastecimento global.
Por volta das 10h30 (horário de Brasília), o contrato futuro do Brent para setembro avançava cerca de 6%, negociado acima de US$ 99,75 por barril, enquanto o West Texas Intermediate (WTI) também registrava forte alta de quase 5%, superando US$ 91.
Em meio ao forte avanço dos preços da commodity, Mohammad Mokhber, membro do Conselho de Discernimento do Irã, afirmou que o petróleo a US$ 100 é consequência de interrupções nas rotas de transporte, e não da produção.
"O fogo que os Estados Unidos estão acendendo nos campos de petróleo e gás da região terá chamas que se espalharão por todo o mundo. As forças armadas, de forma absoluta, com iniciativa e inteligência, definirão o campo e o nível do jogo um degrau acima do inimigo", afirmou em publicação no X, antigo Twitter.
O avanço dos preços reflete uma combinação de fatores que preocupa o mercado de energia, como o como o rompimento do cessar-fogo entre Washington e Teerã, ameaças cruzadas de retaliação e, agora, um novo foco de instabilidade fora do Estreito de Ormuz, por onde passa um quinto da commodity a nível global.
O gatilho mais recente veio do ataque ao petroleiro na Arábia Saudita. A autoria foi reivindicada pelos houthis do Iêmen, que dizem estar conduzindo um bloqueio naval contra o país e tratam o ataque como retaliação a supostas violações desse bloqueio, de acordo com a imprensa internacional.
Dois estreitos e o temor do mercado
O que antes era uma crise concentrada em Ormuz agora se espalha para outro corredor estratégico. Levantamento do Goldman Sachs, divulgado pela Reuters, mostra que o canal saudita Bab el-Mandeb movimenta em média 9 milhões de barris de petróleo por dia. O comércio por lá segue parcialmente ativo.
Em Ormuz, a Guarda Revolucionária do Irã relatou que um petroleiro pegou fogo após uma explosão ao seguir uma rota minada no trecho sul do estreito, próximo à costa de Omã, e que duas outras embarcações teriam desistido da travessia.
Teerã afirma manter controle total sobre a via e alega que nenhum navio pode circular sem autorização iraniana prévia, uma condição que o HSBC aponta como o cerne do impasse, de acordo com a CNBC.
"A questão central permanece sem solução: se a passagem é administrada e por quem", avaliou junto ao canal o analista sênior de petróleo e gás do banco, Kim Fustier, destacando que o aumento do tráfego pelo corredor administrado pelos EUA em Omã não interessava a Teerã.
Novas ameaças elevam a tensão
Trump prometeu atacar infraestrutura iraniana a cada disparo contra embarcações em Ormuz. "Daqui em diante, sempre que a República Islâmica do Irã disparar contra um navio no Estreito de Ormuz (...), os EUA bombardearão e destruirão UMA PONTE OU USINA DE ENERGIA", em rede social.
O Pentágono já soma doze noites seguidas de ataques ao território iraniano. Do outro lado, uma fonte militar não identificada disse à agência estatal Tasnim que qualquer ataque a pontes ou usinas seria respondido com ataques a infraestrutura na região, divulgou a CNBC.
Já o secretário de Estado Marco Rubio disse que o Irã não está tratando com seriedade um possível acordo, ainda que reafirme o compromisso de Washington com a via diplomática.
Já o ex-embaixador americano na Arábia Saudita, Joseph Westphal, pontuou que não há uma estratégia real. Ele detalhou que o Departamento de Guerra pede mais recursos ao Congresso sem apresentar um plano claro, o que tem gerado resistência devido aos custos.
Reflexo nos preços é claro
Para a corretora global Pepperstone, ouvida pela Reuters, o mercado já embute na precificação uma probabilidade relevante de interrupção em um segundo ponto de estrangulamento logístico, além de Ormuz.
O Goldman Sachs vai além e projeta que boa parte dos ganhos recentes deve se sustentar ao longo de julho e agosto, apoiada pela queda dos estoques globais, pela retração da produção no Oriente Médio, pela demanda sazonal de verão e pela desaceleração nas liberações de reservas estratégicas de petróleo pelos governos.
No acumulado do mês, o Brent caminha para uma alta de 35,3%, a terceira maior variação mensal em dez anos, enquanto o WTI avança cerca de 30%, também a terceira maior alta do período, detalhou a agência.
