Petróleo e juros: por que a estagflação voltou a preocupar o mercado

A nova escalada dos ataques no Oriente Médio recolocou no radar dos investidores o risco de estagflação, que é a combinação de inflação, crescimento econômico fraco e alto desemprego. A expectativa de que o cessar-fogo no Irã iria melhorar o cenário da economia global perdeu força com a retomada do conflito.
O petróleo Brent, que havia recuado para cerca de US$ 70 no início de julho com o otimismo sobre um acordo entre os Estados Unidos e Teerã, voltou a marca dos US$ 100 após rebeldes houthis do Iêmen afirmarem ter atacado dois petroleiros sauditas no Mar Vermelho.
O episódio ampliou as preocupações com o transporte marítimo, que já enfrentava restrições no Estreito de Ormuz. O Brent acumula valorização próxima de 40% em julho e caminha para o maior avanço mensal desde março, de acordo com a Reuters.
Por volta das 9 horas (horário de Brasília), o Brent caía 2,77%, a US$ 97,90, e o West Texas Intermediate (WTI), referência de preços nos EUA, recuava 2,46%, a US$ 89,94.
Alta da energia reforça temor com a inflação
A inflação estadunidense de junho já havia surpreendido positivamente na semana passada, mas o alívio durou pouco, porque a disparada dos preços da energia voltou a pressionar os rendimentos dos títulos públicos dos EUA, Japão e Alemanha, que alcançaram os maiores níveis em vários anos.
O chefe de soluções quantitativas de câmbio para investidores do Citi, Kristjan Kasikov, indicou à Reuters que o mercado costuma demorar a incorporar totalmente os efeitos das oscilações nos preços de commodities. "Os participantes do mercado esperam que essa alta das commodities seja temporária, mas vale a pena acompanhá-la."
Outro fator de preocupação é o impacto sobre os alimentos. A Kpler mostrou que cerca de um terço dos fertilizantes comercializados no mundo passa por Ormuz, o que pode manter os preços elevados por mais tempo, sobretudo em economias emergentes.
E as novas tarifas anunciadas pelos EUA sobre produtos de dezenas de parceiros comerciais, incluindo União Europeia, China e Brasil, adicionam outro fator de pressão sobre os preços.
Para a chefe de macroeconomia global do Amundi Investment Institute, Alessia Berardi o risco de estagflação já vinha crescendo desde março e foi intensificado pelo agravamento do conflito. "O risco de estagflação tem estado muito presente em todas as economias desde março, de diferentes maneiras."
Mercado volta a apostar em juros mais altos
Com a inflação voltando ao centro das preocupações, investidores ouvidos pela agência estadunidense passaram a reforçar as apostas de que os principais bancos centrais precisarão manter uma política monetária mais restritiva.
Na Zona do Euro, o mercado espera mais duas altas de 0,25 ponto percentual pelo Banco Central Europeu (BCE) até o fim do ano. Embora a instituição tenha mantido os juros inalterados na quinta-feira, 23, voltou a indicar que um novo aperto permanece no horizonte.
A percepção também mudou nos EUA. Depois de reduzir as apostas em novas altas após o dado de inflação de junho, o mercado voltou a precificar cerca de duas elevações dos juros até janeiro. A inflação por lá permanece acima da meta de 2% do Federal Reserve (Fed) há cinco anos.
"A autoridade monetária europeia tem demonstrado maior disposição para elevar juros diante de uma inflação impulsionada pelo petróleo do que o Federal Reserve", acrescentou o chefe global de pesquisa de renda fixa do Morgan Stanley, Andrew Sheets, em dados divulgados pela Reuters.
Para o especialista, a Europa enfrenta, ainda, um duplo impacto com a energia mais cara e as condições financeiras mais restritivas. E, no mesmo dia em que o Brent voltou a se aproximar de US$ 100, o euro caiu ao menor nível em três semanas, abaixo de US$ 1,14.
Ásia lidera vulnerabilidade ao choque do petróleo
A Ásia está entre as regiões mais expostas por depender fortemente do petróleo do Golfo Pérsico. Países do sul e do sudeste asiático enfrentam dificuldades para absorver o aumento dos custos de energia, enquanto o Japão sofre com a desvalorização do iene, que elevou o custo das importações.
Os EUA também sentem os efeitos da alta da commodity. O preço médio da gasolina voltou a superar US$ 4 por galão no verão, ao passo que os gastos com combustível das maiores companhias aéreas do país aumentaram quase US$ 8 bilhões na base anual.
A alta dos rendimentos dos Treasuries também elevou os juros das hipotecas no país comandado por Donald Trump. Na última semana, a taxa da principal linha de financiamento imobiliário do país atingiu o maior nível desde agosto do ano passado, de acordo com informações da Reuters.
