Petróleo sobe de forma contida mesmo com nova escalada de conflitos no Oriente Médio

Em cinco meses de confronto direto entre Estados Unidos e Irã, o mercado global de petróleo tem surpreendido analistas e investidores. Nesta segunda-feira, 21, os contratos futuros subiam quase 2%, mas seguem ainda distantes dos US$ 100 por barril.
Por volta das 9h30 (horário de Brasília), o Brent avançava 1,84%, a US$ 90,84 o barril, impulsionado por novos ataques entre Washington e Teerã, bem como por ameaças de rebeldes Houthis, do Iêmen, de impor um bloqueio naval à Arábia Saudita.
No início do conflito, parte do mercado chegou a prever o barril entre US$ 150 e US$ 200, ao passo que, de lá para cá, alguns fatores mantiveram os valores abaixo das projeções mais pessimistas.
Quando EUA e Israel entraram em guerra com o Irã, no fim de fevereiro, o temor era de uma interrupção do fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz, rota estratégica de escoamento da commodity. O Brent até chegou ao pico de US$ 126 por barril, porém abaixo do recorde histórico de US$ 147 registrado em 2008.
Entre o início do conflito e meados de junho, o preço médio ficou em US$ 101 e voltou para perto dos níveis pré-guerra, em torno de US$ 70, no começo de julho, com o estabelecimento de um cessar-fogo temporário entre as potências. Agora, os conflitos voltam a escalar, a volatilidade segue alta, mas o preço ainda está contido.
China reduz demanda; EUA ampliam oferta
Um dos principais fatores que segura o preço vem da China, maior importadora de petróleo do mundo. Até junho, o país reduziu as compras de óleo bruto ao menor nível em quase uma década.
A queda foi impulsionada pela rápida adoção de táxis elétricos, que diminuiu o consumo de combustíveis, e pela desaceleração do setor petroquímico, reduzindo a necessidade de matéria-prima.
Ao mesmo tempo, os EUA ampliaram a produção para um recorde de 13,93 milhões de barris por dia em abril.
O governo também liberou petróleo da Reserva Estratégica em uma ação coordenada pela Agência Internacional de Energia (IEA, em inglês), ajudando a compensar eventuais interrupções na oferta global.
Mercado se adapta aos riscos geopolíticos
A logística também passou por ajustes para reduzir a dependência do Estreito de Ormuz. A Arábia Saudita ampliou os embarques pelo porto de Yanbu, no Mar Vermelho, compensando parte da redução no fluxo pelo Golfo. E, embora o trânsito pelo Estreito tenha melhorado, voltou a cair.
Outro fator citado por especialistas ouvidos pela agência é a chamada "fadiga das manchetes". O chefe de estratégia de commodities do Saxo Bank, Ole Hansen, vê que a sucessão de notícias sobre o conflito reduziu a reação dos investidores aos novos episódios de hostilidades.
Além disso, muitos participantes do mercado evitam grandes apostas na alta do petróleo, conforme a agência, diante do risco de reversões rápidas provocadas por declarações políticas, como as sinalizações do presidente Donald Trump sobre possíveis acordos de paz, seguidas por ameaças.
Escalada recente reacende preocupações
Só que, nas últimas 24 horas, porém, o conflito voltou a aumentar a percepção de risco. Os EUA bombardearam alvos no sul do Irã após Trump prometer uma resposta à morte de soldados americanos. Em retaliação, Teerã lançou ataques contra instalações ligadas aos EUA no Bahrein, Kuwait e Jordânia.
No Estreito de Ormuz, uma embarcação informou ter sido atingida por um projétil não identificado, obrigando a tripulação a abandonar o navio. Paralelamente, os Houthis ameaçaram impor um bloqueio naval à Arábia Saudita.
Analista da KCM Trade, Tim Waterer pontuou que "as ameaças de um bloqueio naval à Arábia Saudita pelos houthis são significativas porque aumentam o risco de interrupção das operações de outro importante exportador de petróleo", em fala à Reuters.
Diplomacia tenta evitar nova disparada
Uma autoridade iraniana ouvida pela Reuters disse que Teerã recebeu uma proposta de mediadores para uma trégua de dez dias com o objetivo de preservar o acordo firmado em 17 de junho para encerrar a guerra.
Ainda assim, analistas da SEB Research avaliam que o risco de um conflito prolongado permanece elevado, mantendo a oferta global sob pressão e aumentando a possibilidade de novos picos de preços.
O analista do UBS, Giovanni Staunovo, acrescentou que "a redução das exportações através do Estreito de Ormuz e as preocupações com uma possível interrupção no fornecimento de petróleo que passa pelo Mar Vermelho estão dando um suporte moderado aos preços do petróleo."
No mercado físico, ainda há oferta suficiente para entregas imediatas. Mas, conforme o trader Adi Imsirovic, essa situação pode mudar rapidamente e o cenário "pode não durar."
*com agências internacionais
