'Pior crise financeira da história': Casas Bahia detalha plano para evitar colapso
Petição de recuperação judicial revela medidas urgentes para preservar caixa, contratos e fornecedores após a “pior crise financeira” da história do grupo

O Grupo Casas Bahia entrou com pedido de recuperação judicial na Justiça de São Paulo buscando proteção para reorganizar uma dívida sujeita ao processo de R$ 17,3 bilhões e evitar uma deterioração ainda maior de sua operação.
A petição inicial, protocolada no domingo, 16, e obtida pela EXAME, detalha que a companhia considera enfrentar a “pior crise financeira desde a sua fundação” e pede uma série de medidas urgentes para preservar o funcionamento das lojas, garantir o abastecimento de produtos e suspender cobranças durante o processo de negociação com credores.
O pedido foi apresentado pelo Grupo Casas Bahia S.A. e outras nove empresas do conglomerado, incluindo Cnova Comércio Eletrônico, Indústria de Móveis Bartira, Casas Bahia Tecnologia, além das companhias de logística ASAP Log e CNTLOG.
O valor da causa corresponde ao total dos créditos sujeitos à recuperação judicial: R$ 17,322 bilhões. A companhia afirma que o objetivo é permitir uma reestruturação organizada das dívidas, preservar mais de 20 mil empregos diretos e manter a continuidade de uma operação que atende mais de 105 milhões de consumidores, segundo os documentos.
O que levou a Casas Bahia à recuperação judicial
Segundo a petição, a crise financeira foi resultado de uma combinação de fatores internos e externos. A empresa aponta como um dos principais impactos o ciclo prolongado de juros elevados no Brasil. A taxa Selic, segundo o documento, saiu de 2% em 2021 para 15% em 2025, pressionando a renda das famílias e reduzindo o consumo de bens duráveis, principal mercado da companhia.
A pandemia de Covid-19 também aparece como um dos fatores que pressionaram a operação. Segundo a Casas Bahia, o fechamento temporário de lojas físicas e a aceleração da estratégia digital elevaram custos e exigiram investimentos relevantes.
Outro ponto citado foi o próprio modelo de negócio do varejo de eletroeletrônicos e móveis, que depende de capital de giro elevado para financiar estoques e operações de crediário.
A companhia já havia realizado uma recuperação extrajudicial em 2024, utilizada para alongar aproximadamente R$ 4,1 bilhões em dívidas financeiras. Segundo a empresa, porém, a continuidade do cenário econômico adverso impediu uma recuperação completa.
No primeiro semestre de 2026, o Grupo Casas Bahia registrou prejuízo líquido de R$ 11,181 bilhões e encerrou junho com patrimônio líquido negativo de R$ 8,270 bilhões.
Casas Bahia pede suspensão de cobranças por 180 dias
Entre os principais pedidos feitos à Justiça está a concessão do chamado stay period, mecanismo previsto na Lei de Recuperação Judicial que suspende ações de cobrança e execuções contra a empresa por 180 dias.
A companhia também pediu que credores sejam impedidos de antecipar o vencimento de contratos apenas pelo fato de a recuperação judicial ter sido solicitada.
Segundo a petição, a medida é necessária porque contratos financeiros e comerciais que somam mais de R$ 10 bilhões poderiam ser afetados por cláusulas de vencimento antecipado.
A empresa também solicitou a manutenção de contratos considerados essenciais para a operação, como:
- fornecimento de energia e água;
- sistemas de tecnologia;
- serviços de segurança;
- benefícios de funcionários;
- contratos de aluguel das lojas.
Outro pedido envolve a liberação de aproximadamente R$ 750 milhões em depósitos recursais trabalhistas para reforçar o caixa operacional.
Empresa quer garantir estoque e fornecedores
A recuperação judicial também busca evitar uma interrupção na cadeia de abastecimento. A Casas Bahia pediu que fornecedores mantenham a entrega de mercadorias já compradas e em trânsito, além da proteção dos estoques contra medidas de execução de garantias.
A preocupação está ligada ao modelo operacional do varejo, em que disponibilidade de produtos é essencial para manter vendas nas lojas físicas e canais digitais.
A companhia possui atualmente mais de 700 lojas físicas em 21 estados e no Distrito Federal, além das marcas Casas Bahia, Ponto Frio, Extra.com e Bartira.
A Indústria de Móveis Bartira, uma das empresas incluídas no pedido, é apontada pela companhia como a maior fábrica de móveis da América Latina e representa cerca de 35% das vendas de móveis do grupo.
Próximos passos
A recuperação judicial ainda depende da análise da Justiça. Caso seja aceita, a companhia deverá apresentar um plano de recuperação aos credores dentro dos prazos previstos na legislação.
O processo envolve a negociação com bancos, fornecedores e demais credores para definir como as dívidas serão reestruturadas.
A Casas Bahia afirma que a medida busca preservar a operação e criar condições para uma retomada sustentável, sem interromper o atendimento aos consumidores.
