Pizzaria itinerante no RJ vira rede com cinco unidades e faturamento de R$ 40 milhões
Fundada por Sei Shiroma, a Ferro e Farinha nasceu nas ruas do Rio, ganhou endereço fixo em 2014 e hoje produz 200 mil pizzas por ano

A infância de Sei Shiroma foi dividida entre o restaurante japonês dos pais e a trattoria italiana vizinha, em Nova York, onde nasceu e cresceu. Anos depois, quando passou a morar no Brasil, ele criou uma pizzaria itinerante que, em 2014, ganhou seu primeiro endereço fixo e deu início à expansão da Ferro e Farinha, que faturou R$ 40 milhões em 2025.
O negócio hoje soma cinco unidades na cidade do Rio de Janeiro. A mais recente delas foi inaugurada no Shopping Leblon e, além de pizzas, serve massas, saladas e carnes.“Por enquanto, no Rio, nosso foco é melhorar a operação. Com os restaurantes consolidados e mais de 200 funcionários, manter a consistência e repetir o melhor dia que a gente já teve já é um trabalho imenso”, diz Sei Shiroma.
No longo prazo, o chef já vislumbra a abertura de uma unidade na Europa, ainda sem endereço e data de inauguração.
Uma operação sem endereço fixo
Filho de mãe chinesa e pai japonês, Shiroma se formou em Literatura Inglesa pela University of Tampa e trabalhou no ramo publicitário. Mas quando chegou ao Brasil, em 2012, ele decidiu apostar na gastronomia.
“O início do projeto nasceu de uma ideia de fazer pizzas do único jeito que tinha disponível para mim naquela época. Com pouco dinheiro, zero domínio da língua e zero existência legal no país”, diz.
Em 2013, ele improvisou um forno de ferro — que daria nome ao negócio — e começou a fazer pizzas pelas ruas do Rio de Janeiro. A divulgação era feita com cautela pelo Facebook: a cada dia, ele escolhia um novo endereço e avisava os clientes pela rede social apenas duas horas antes de chegar.
“Eu não tinha nem licença. Então, a qualquer hora, alguém podia vir, um fiscal, para fechar a operação toda”, afirma.

O que inicialmente era um empecilho burocrático acabou se transformando em um diferencial. Para descobrir onde a pizzaria estaria naquele dia, era preciso acompanhar as redes sociais e estar entre os poucos que sabiam o próximo destino. A dinâmica ajudou a criar uma sensação de exclusividade em torno da Ferro e Farinha.
Um ano depois, abriu o primeiro ponto físico, no Catete.
“Quando eu passei a divulgar que estava em um endereço fixo, no Catete, ficou mais fácil. Foi como juros compostos: as pessoas foram chegando, trazendo outras, e, pouco tempo depois, começaram a sair as matérias na imprensa”, lembra.
O burburinho da pizzaria itinerante e, até então, quase secreta, foi um impulso para o negócio crescer e atrair até mesmo artistas famosos. O espaço era simples e pequeno, mesmo assim, criava fila na porta.
Da primeira loja à escala
A segunda unidade chegou em 2019, no Leblon. A expansão também aumentou a complexidade da gestão. Quando passou a ter mais de uma operação, Shiroma precisou dividir o tempo entre a cozinha e tarefas administrativas e financeiras.
Nas inaugurações seguintes, ele estabeleceu uma sociedade, o que ajudou a dividir as responsabilidades da empresa. Assim, ele pode se dedicar a parte criatiza da pizzaria e desenvolvimento de novos sabores.
“Eu tinha recebido várias propostas de ser sócio de alguns grandes operadores do Rio. Mas o que eu gostei nessa sociedade foi que começou com uma relação pessoal, e não como uma proposta de negócio. Eram duas pessoas conversando sobre vida, família e interesses. Foi isso que me fez aceitar”, diz.
A expansão da Ferro e Farinha levou a marca a cinco endereços no Rio de Janeiro (Divulgação)
Hoje, são cinco unidades no Rio de Janeiro, nos bairros Ipanema, Botafogo, Barra da Tijuca, Leblon (Rua Dias Ferreira) e Shopping Leblon. A operação consome 7 toneladas de farinha por mês e vende cerca de 200 mil pizzas por ano, todas assadas em forno a lenha — elemento central dos estabelecimentos.
Inaugurada em 2025, a unidade do Shopping Leblon é a única que abre pela manhã e oferece um cardápio mais amplo, com massas, saladas e carnes, além das pizzas.
Até então, ele usava como referência os pequenos restaurantes japoneses, que trabalham com poucos pratos e se especializam profundamente neles. Essa última unidade, porém, seguiu uma lógica diferente, já que o shopping oferece maior fluxo e possibilidade de retorno dos clientes ao longo da semana.
“A ideia é criar uma Ferro e Farinha que pudesse ser aquela trattoria da esquina em que o cliente pode experimentar diversas coisas ao longo do mês”, diz.
Por lá, ele serve massas, carnes e, claro, as redondas. Todos os pratos passam pela lenha durante o preparo. A princípio, a ideia é manter essa operação diversificada apenas nessa unidade.
O Rio entra no mapa da pizza
Por muitos anos, a pizza carioca ficou à sombra da tradição paulista. A rivalidade é antiga e é mais uma das disputas com a capital paulista. A Ferro e Farinha, no entanto, conquistou um feito inédito: foi a primeira pizzaria do estado a entrar para o ranking internacional 50 Top Pizza.
“Eu cheguei no Rio numa época em que pizza era uma coisa considerada quase uma piada nacionalmente. É uma honra imensa para mim representar o Rio e colocar o nome do Rio de Janeiro como a primeira pizza carioca entre as melhores 50 pizzas do mundo”, afirma Shiroma.
Em 2025, a pizzaria alcançou a 31ª posição no ranking global. O reconhecimento internacional contribuiu para ampliar a visibilidade da marca e impulsionar o fluxo de clientes, especialmente de turistas estrangeiros que chegam ao Rio em busca de experiências gastronômicas.
Novos negócios, novos formatos
A expansão de Shiroma, porém, não se limita à Ferro e Farinha. A experiência com a gastronomia japonesa também ganhou espaço entre seus negócios com o Suibi, restaurante japonês inaugurado em 2023, no Leblon, que leva o mesmo nome do restaurante que era comandado por seus pais em Nova York.
Este ano, o restaurante vai ganhar mais uma unidade, desta vez, em Botafogo. A ideia, segundo Shiroma, é criar uma experiência que vá além da gastronomia. Com dois andares, um deles será exclusivo para o karaokê, o que, segundo o chef, tem gerado expectativa entre quem já sabe da novidade.
Sei Shiroma na infância, no restaurante japonês comandado por seus pais, em Nova York (Arquivo pessoal)
Para reforçar a atmosfera japonesa, o restaurante terá até uma regra de entrada. “Para entrar, você tem que tirar o sapato. Aí está lá, cheio de tapete”, diz.
Para a Ferro e Farinha, novos endereços também não estão descartados. O empresário conta que a equipe já observa possíveis pontos na Europa durante as viagens, mas não estabelece prazo para uma eventual abertura.“Eu não penso nessa expansão para a Europa como uma expansão. Representa, para mim, uma continuação de legado.”
Enquanto avalia os próximos passos dos negócios, Shiroma também se prepara para um novo projeto: lançar seu primeiro livro sobre a Ferro e Farinha.
Mais do que abrir novas unidades, Shiroma diz que o desafio é manter a consistência da operação e cultivar uma relação de longo prazo com os clientes. Depois de mais de uma década de atividade, ele já vê uma nova geração chegando às mesas da Ferro e Farinha: pessoas que frequentavam o restaurante com os pais quando crianças e agora voltam por conta própria.
