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Sacre Investimentos
InvestMercadosBDR
21/08/2026
5 min

Plano da Estrela para dívida de R$ 109 milhões mira adultos nostálgicos e Shopee

Fabricante de brinquedos quer explorar o mercado kidult e fortalecer vendas digitais em plataformas como Shopee, Amazon e Mercado Livre e para recuperar caixa

Plano da Estrela para dívida de R$ 109 milhões mira adultos nostálgicos e Shopee

A Estrela, uma das marcas mais tradicionais da indústria brasileira de brinquedos, apresentou à Justiça seu plano derecuperação judicial para reestruturar um passivo de R$ 109,1 milhões. O documento foi protocolado em 14 de agosto na 1ª Vara Cível da Comarca de Três Pontas, em Minas Gerais, onde tramita o processo. A companhia havia informado ao mercado em maio que recorreria ao mecanismo para reorganizar sua estrutura financeira diante de um cenário de pressão sobre o negócio.

Entre os fatores apontados pela empresa estão a transformação dos hábitos de consumo infantil, com maior concorrência de plataformas digitais e jogos on-line, além do ambiente de juros elevados, maior restrição de crédito, avanço de produtos importados de baixo custo, pirataria e contrabando.

A recuperação judicial permite que a companhia continue operando enquanto negocia uma nova estrutura de pagamento com seus credores. O plano apresentado pela Estrela ainda precisa ser analisado e aprovado em assembleia.

Apesar do processo, a fabricante informou que pretende manter normalmente suas atividades industriais, comerciais e administrativas, assim como o atendimento a clientes, parceiros e fornecedores. O pedido envolve oito empresas do grupo econômico, incluindo a Manufatura de Brinquedos Estrela, além de Estrela Distribuidora, Brinquemolde Licenciamento, Editora Estrela Cultural, Starcom Ltda., Starcom do Nordeste, JM Comércio e Indústria de Plásticos e Catu Comércio de Cosméticos.

O plano prevê uma série de medidas para recuperar a geração de caixa da companhia. Entre as estratégias está a redução de custos fixos, a revisão da rentabilidade de produtos e clientes e a ampliação da presença digital em grandes marketplaces, como Mercado Livre, Amazon e Shopee.

A companhia também pretende fortalecer o canal B2B, com uma plataforma de comércio eletrônico voltada para pequenos e médios lojistas.

Outra aposta está nomercado de kidults, formado por adultos que consomem produtos ligados à nostalgia. A estratégia prevê explorar o acervo histórico da marca com relançamentos de brinquedos clássicos, como Falcon, Genius, Pogobol, Autorama e a boneca Susi.

A Estrela também pretende ampliar receitas por meio do licenciamento de marcas, permitindo que empresas de outros segmentos utilizem personagens e produtos tradicionais da companhia em troca de royalties.

Na operação industrial, o plano prevê a manutenção das duas fábricas localizadas em Três Pontas, em Minas Gerais, e Itapira, em São Paulo, com busca por financiamentos para modernização junto a instituições como BDMG e BNDES.

A companhia ainda pretende reduzir a dependência de capital de giro nas importações por meio de parcerias com trading companies e utilizar a capacidade ociosa das fábricas no primeiro semestre para produzir brindes e produtos para terceiros, reduzindo a sazonalidade do negócio concentrado em datas como Dia das Crianças e Natal.

Outras frentes incluem a expansão da Estrela Cultural, com livros infantojuvenis e participação em editais públicos, e o crescimento da Estrela Beauty, linha de cosméticos infantis que será ampliada por meio do modelo store in store, com espaços dentro de lojas de terceiros.

Como será a reestruturação da dívida

O plano apresentado pela Estrela prevê diferentes condições de pagamento conforme a categoria dos credores. O passivo sujeito à recuperação judicial soma R$ 109,3 milhões.

Os credores trabalhistas terão prioridade e deverão receber integralmente em até um ano, respeitando o limite de 150 salários-mínimos por credor. O valor que ultrapassar esse teto seguirá as condições aplicadas aos credores quirografários.

Para os credores com garantia real, apesar de não haver créditos registrados atualmente nessa categoria, o plano estabelece que, caso algum seja incluído posteriormente por decisão judicial, haverá deságio de 90%, com carência de 22 meses e pagamento ao longo de até 15 anos.

Já os credores quirografários e empresas de pequeno porte (ME/EPP) terão uma proposta de pagamento com deságio de 90% sobre o valor dos créditos. O início dos pagamentos ocorrerá após uma carência de 22 meses da homologação do plano, com parcelas mensais no período inicial de supervisão judicial e parcelas anuais posteriormente.

Os valores serão atualizados por uma taxa equivalente a 10% do CDI, acrescida de juros simples de 1% ao ano a partir da homologação do plano.

O documento também prevê um mecanismo para estimular a retomada das relações comerciais. Os chamados Credores Colaboradores, como bancos que concederem novas linhas de crédito e fornecedores que retomarem o fornecimento, poderão ter condições diferenciadas de pagamento.

No caso dos fornecedores, a amortização da dívida antiga poderá ocorrer com percentuais aplicados sobre novos pedidos realizados pela companhia. Dependendo do prazo concedido, a parcela destinada à quitação da dívida varia de 1,5% a 5% do valor das novas compras.

A projeção financeira apresentada pela Estrela considera um processo gradual de recuperação ao longo de 15 anos. A receita bruta estimada parte de R$ 183,9 milhões no primeiro ano e chega a R$ 278,3 milhões no 15º ano. Ao longo do período, o faturamento acumulado projetado é de R$ 3,42 bilhões.

O grupo estima um resultado operacional acumulado de R$ 332,9 milhões no período. Segundo o plano, o pagamento dos credores sujeitos à recuperação judicial, projetado em R$ 15,8 milhões, representa menos de 5% do resultado operacional esperado.

A companhia prevê que o caixa permaneça positivo durante toda a execução do plano, começando com saldo de R$ 9,1 milhões no primeiro ano e chegando a R$ 22,1 milhões no 15º ano.

O documento também prevê a possibilidade de uma Oferta Pública de Aquisição (OPA) para fechamento de capital da holding, como forma de reduzir despesas administrativas e regulatórias.

AutorLetícia Furlan
FonteExame
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