Plano Safra 2026/27 foca investimento, mas agro precisa de custeio, dizem analistas

O Plano Safra 2026/27, anunciado pelo governo federal nesta terça-feira, 30, ampliou os recursos para R$ 525,1 bilhões, R$ 9 bilhões acima da temporada anterior, e reduziu em até 1,5 ponto percentual os juros de parte das linhas de crédito.
Mas para analistas ouvidos pela EXAME, as mudanças não resolvem o principal desafio do produtor rural: o acesso ao crédito para custear a produção. Embora o reforço nas linhas de investimento seja positivo, o momento do setor exige prioridade para o capital de giro.
"Entendemos a lógica do governo de deslocar um pedaço mais forte dos recursos para investimento, que é algo mais de longo prazo. Só que o custeio é o grande volume, é a maior necessidade de todo mundo, e essas linhas tiveram redução", diz André Glezer, cofundador e CEO da Agrolend, fintech do agro.
Do total anunciado, R$ 384,9 bilhões serão destinados ao custeio e à comercialização da produção, enquanto R$ 140,2 bilhões irão para investimentos, como armazenagem, irrigação, inovação tecnológica e renovação de máquinas e equipamentos.
Segundo Glezer, a decisão ocorre justamente quando o custo para formar a safra continua elevado. A margem para o produtor deve ser a pior dos últimos 20 anos na temporada atual.
Projeções da Cogo Consultoria apontam que as margens vêm recuando desde a safra 2021/22 e devem atingir 3,9% natemporada 2026/27, o menor patamar dos últimos 20 anos. Em 2020, esse percentual era de 55,6%.
"O produtor precisa de mais dinheiro porque o custeio por hectare ficou mais caro. Agora a gente vê um Plano Safra reduzindo as linhas de custeio. Com certeza vamos ter um ano de pressão para plantar a safra", afirma Glezer.
Além da composição dos recursos, o CEO da Agrolend avalia que o crescimento do Plano Safra ficou aquém da demanda do setor.
Segundo ele, o programa cresceu apenas 1,7% em relação ao ciclo anterior, percentual considerado insuficiente para acompanhar a inflação e até mesmo a expansão da área plantada de soja.
"O Plano Safra continua sendo um pilar importante para o agronegócio inteiro, mas a necessidade de novas fontes de financiamento é mais importante do que nunca", diz.
Essa mudança já aparece na composição do programa. Dos R$ 525,1 bilhões anunciados para a agricultura empresarial, R$ 194 bilhões virão de operações por meio de Cédulas de Produto Rural (CPRs), lastreadas em recursos das Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs) e da poupança rural.
Ao mesmo tempo, os recursos com juros equalizados pelo Tesouro Nacional somam R$ 97 bilhões, abaixo dos R$ 113,7 bilhões anunciados no início da safra anterior.
Para José Carlos Vaz, ex-executivo do Banco do Brasil Agro, o Plano Safra mantém problemas estruturais observados nos últimos anos. Apesar das críticas, ele considera positiva a maior utilização das CPRs como fonte de financiamento.
"É até bom usar mais recursos das LCAs para CPR, pois livra o produtor da maldição da equalização dos juros pelo Tesouro e da burocracia do Banco Central. Porém, o governo deveria limitar o spread praticado."
Para Vaz, o programa também erra ao concentrar recursos em uma demanda considerada mais fraca. "Reserva recursos para uma demanda fraca, que é investimento, quando o setor precisa de capital de giro a custos moderados e de longo prazo", diz.
Taxa de juros
O governo também reduziu os juros de algumas linhas de crédito. As taxas para médios e grandes produtores variam entre 8% e 12,5% ao ano, dependendo da modalidade.
Na avaliação de Glezer, da Agrolend, o corte beneficia principalmente os produtores de menor porte, mas não altera estruturalmente o custo do crédito.
"A redução ajuda os produtores menores, que têm menos acesso a linhas sofisticadas. Mas ainda não veio um Plano Safra com taxas mais competitivas. Para isso acontecer, é preciso uma melhora estrutural da taxa de juros do país", afirma.
Com a Selic elevada, o custo do crédito aumenta, inclusive nas modalidades subsidiadas, já que a taxa básica influencia o custo de captação das instituições financeiras e eleva o gasto do governo para equalizar os financiamentos.
Segundo estudo do Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getulio Vargas (FGV Agro), embora os recursos anunciados nos últimos três Planos Safra tenham crescido 24% em termos reais, as contratações de crédito rural seguiram o caminho oposto.
Entre as safras 2023/24 e 2025/26, o valor efetivamente contratado caiu 31,7%, indicando um descompasso entre os recursos disponibilizados pelo governo e o acesso dos produtores ao financiamento.
"Redução de taxas de juros do crédito rural é uma medida eleitoreira, pois o subsídio é capturado pelo setor financeiro e pelos fabricantes de máquinas, equipamentos e fornecedores de insumos. Seria muito melhor direcionar esse subsídio para um fundo garantidor, reduzir o spread e o IOF", diz Vaz.
