Plano Safra: juros e esforço fiscal são positivos, mas gastos, promessas e redução generalizada decepcionam, avalia Cogo Inteligência

O Plano Safra 2026/2027 trouxe avanços pontuais, como a redução das taxas de juros e o maior esforço fiscal do governo para subsidiar o crédito rural, mas ainda está longe de representar uma mudança estrutural para o financiamento do agronegócio brasileiro.
Essa é a avaliação da Cogo Inteligência em Agronegócio, que classificou o programa como uma melhora apenas marginal em relação ao ciclo anterior.
Anunciado pelo governo federal nesta terça-feira (30), o Plano Safra destinou R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial, um crescimento nominal de apenas 1,7% em comparação ao ciclo 2025/2026.
Segundo a consultoria, o aumento dos recursos não acompanha a inflação, a alta dos custos de produção e a expansão do próprio setor agropecuário, o que limita o impacto da política de crédito rural.
Entre os principais pontos positivos, a Cogo destaca a redução das taxas de juros em praticamente todas as linhas de financiamento, com cortes entre 0,5 e 1,5 ponto percentual, tornando mais viáveis as operações de custeio e investimento.
Outro destaque foi o aumento de 41% na subvenção do Tesouro para a equalização dos juros, que passou de R$ 3,94 bilhões para R$ 5,56 bilhões, o maior esforço orçamentário do atual governo nessa modalidade.
A consultoria também cita o fortalecimento do Pronamp, que manteve o limite de financiamento em R$ 3,5 milhões, reduziu os juros para 9% ao ano e ampliou as finalidades financiáveis, reforçando a prioridade aos médios produtores.
Além disso, a manutenção das menores taxas para programas ligados à agricultura de baixo carbono e a criação de novas fontes de financiamento, como o Move Agricultura (R$ 10 bilhões) e o EcoInvest Brasil (R$ 28,5 bilhões), foram consideradas medidas positivas por ampliarem as alternativas além do crédito rural tradicional.
Os pontos negativos do novo Plano Safra
Por outro lado, a análise faz uma série de críticas ao plano. Um dos principais pontos é que, apesar do aumento expressivo dos recursos destinados à equalização dos juros, o volume de crédito efetivamente equalizado caiu 14,8%, passando de R$ 113,8 bilhões para R$ 97 bilhões. Para a Cogo, isso evidencia a crescente dificuldade fiscal de manter o atual modelo de crédito subsidiado.
A consultoria também afirma que a promessa do governo de ampliar o acesso a linhas de crédito com juros de um dígito não foi cumprida. Programas considerados estratégicos, como Moderfrota, Proirriga, Inovagro, Prodecoop e o custeio empresarial, continuam operando com taxas entre 11,5% e 12,5% ao ano.
Outro ponto de preocupação é a redução dos recursos destinados às linhas tradicionais de investimento. De acordo com o levantamento, nove das dez principais linhas sofreram cortes orçamentários, com destaque para o Moderfrota, cujo orçamento caiu 54%, além do Proirriga e do Inovagro, ambos com redução de 38%.
Na avaliação da consultoria, o crescimento de 38% anunciado pelo governo para os recursos de investimento é explicado quase integralmente pelos novos programas, enquanto as linhas tradicionais perderam espaço.
A Cogo também critica a redução de 38% nos recursos do Proirriga, classificando a medida como contraditória diante do aumento da frequência de secas e das perspectivas climáticas para o ciclo 2026/2027. Além disso, aponta que o Plano Safra deixou de enfrentar o déficit de armazenagem do país, ao reduzir em 28% os recursos destinados ao Programa para Construção e Ampliação de Armazéns (PCA).
Para a consultoria, o Plano Safra 2026/2027 confirma uma transição estrutural no financiamento do agronegócio brasileiro, com a perda gradual de espaço do crédito rural subsidiado e uma dependência cada vez maior de instrumentos privados de mercado, como Cédulas de Produto Rural (CPRs), Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs) e Fiagros.
