Populações de animais silvestres encolheram 73% em cinco décadas, diz WWF
Às vésperas da COP17, relatório anual aponta déficit anual de US$ 942 bilhões no financiamento da biodiversidade e elenca a destruição de habitats e as mudanças climáticas como principais ameaças

A menos de duas semanas da COP17 da biodiversidade, na Armênia, um novo balanço mostra a dimensão da perda de natureza no planeta: a população de animais silvestres caiu 73% entre 1970 e 2022, segundo o relatório anual do WWF, divulgado nesta quinta-feira, 8.
O documento se baseia no Índice Planeta Vivo, produzido Sociedade Zoológica de Londres, que reúne 35.803 séries de dados sobre populações de 5.790 espécies de vertebrados. A variação global é semelhante à da edição anterior, mas a nova análise incorpora mais populações e cobre um período maior.
A maior queda média foi registrada nos ambientes de água doce (85%), seguida pelos terrestres (69%) e pelos marinhos (56%).
"A biodiversidade continua a se degradar em ritmo alarmante", afirma Kirsten Schuijt, diretora-geral do WWF Internacional. "Ainda assim, em meio a quedas acentuadas, há motivos para ter esperança."
A perda e a degradação de habitats são as ameaças mais frequentemente relatadas para as populações monitoradas. Em seguida vêm a exploração excessiva, as mudanças climáticas, a poluição, as espécies invasoras e as doenças.
Segundo o relatório, essas pressões estão ligadas principalmente aos sistemas de produção de alimentos, energia e finanças.
O sistema alimentar é a principal causa da destruição de habitats, o energético impulsiona as mudanças climáticas e o financeiro direciona recursos para atividades prejudiciais à natureza.
Já no sistema financeiro, a transformação ainda está em estágio inicial. Há um déficit anual de US$ 942 bilhões no financiamento da biodiversidade, e, para mudar o quadro, seria preciso parar de direcionar recursos para atividades nocivas e incorporar natureza e clima nas análises de risco.
No Brasil, desmatamento e calor extremo pressionam a fauna
No Brasil, dados da plataforma Salve, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, indicam que mais de 80% das espécies de vertebrados ameaçadas de extinção são afetadas por ameaças associadas ao desmatamento. Queimadas, secas extremas e altas temperaturas agravam o quadro.
Nos recifes de coral do Nordeste, especialmente em pontos de monitoramento de longo prazo em Pernambuco e Alagoas, a cobertura de coral recuou 66% entre 2019 e 2024, associada às ondas de calor marinhas de 2019 a 2020 e 2024.
Neste último evento extremo, os recifes da região sofreram o estresse térmico mais intenso entre todas as áreas monitoradas no país.
"A perda de biodiversidade não acontece de forma isolada", diz Helga Correa, especialista em Conservação do WWF-Brasil. Segundo a pesquisadora, as espécies perdem alimento, abrigo e condições para se reproduzir quando a floresta é desmatada, o fogo avança ou uma seca extrema altera rios e ecossistemas.
Metade das populações está estável ou crescendo
Apesar do cenário, metade das populações analisadas está estável ou em crescimento. O relatório destaca a recuperação de tartarugas-verdes, atuns-azuis, tigres e elefantes no sul da África como resultado de ações de conservação.
No Brasil, a população de onças na Mata Atlântica, na região de Iguaçu, passou de 11 indivíduos em 2019 para 42 em 2025, alta de 280%, graças a esforços.
O mico-leão-dourado, espécie com a qual o WWF começou a atuar nacionalmente, saiu da categoria de "criticamente ameaçado para ameaçado". Por outro lado, os pesquisadores alertam que ações isoladas não bastam para reverter as perdas.
Em 2025, todos os biomas brasileiros tiveram redução na taxa de desmatamento, que, no conjunto, ficou 20% abaixo da do ano anterior, a menor desde 2019.
Para o WWF, o resultado reflete compromissos do governo, dos mercados e do setor produtivo e mostra que mudanças são possíveis quando as ações ganham escala.
"O Brasil tem condições de reverter perdas, mas isso exige medidas de conservação contínuas e em escala", afirma Helga Correa, que defende o reconhecimento do papel dos povos indígenas e comunidades tradicionais e locais.
Pontos de inflexão positivos
O relatório propõe o conceito de "ponto de inflexão positivo": o momento em que uma mudança num sistema complexo passa a se reforçar sozinha, ficando mais rápida, mais barata e mais difícil de reverter.
Segundo o documento, o setor de energia já cruzou esse limiar, já que a energia solar é a fonte mais barata para nova geração elétrica na maioria dos países, embora a transição ainda seja desigual.
Na agricultura e na produção de alimentos há sinais iniciais, como o programa Brasil Sem Desperdício, coalizão coordenada pelo WWF-Brasil em parceria com a WRAP, que desde janeiro de 2026 reúne empresas para medir e reduzir perdas ao longo da cadeia.
As conferências da ONU sobre biodiversidade e clima previstas para os próximos dois meses são vistas como "oportunidade" para acelerar o Marco Global da Biodiversidade de Kunming-Montreal e o Acordo de Paris, que vista limitar o aquecimento do planeta a 1.5ºC em relação aos níveis pré-industriais.
Para cumprir as metas de 2030, serão necessários mais investimentos, implementação mais rápida e liderança política.
"A possibilidade de construir um futuro diferente está diminuindo, mas a janela continua aberta", afirma Daudi Sumba, diretor de conservação do WWF Internacional. "Temos conhecimento, ferramentas e caminhos", concluiu o especialista.
