Popularidade de Milei é a menor em 2 anos, entenda as razões

O presidente da Argentina, Javier Milei, enfrenta o que pode ser o período mais desafiador de seu mandato até o momento. Com suas menores taxas de aprovação em dois anos, beirando os 36%, e escândalos em seu gabinete, o presidente perde força em uma de suas bandeiras de campanha, a luta contra a corrupção.
A queda ocorre em meio ao avanço do programa de reformas econômicas que continua implementando medidas de austeridade e desregulamentação e aprovando legislações agressivas, como a recente revisão da lei das geleiras, que permite mineração em áreas ecologicamente sensíveis, transferindo a autoridade sobre essas áreas do Instituto Nacional de Glaciologia aos governos locais.
Ao mesmo tempo, o governo enfrenta desafios persistentes, como uma inflação mensal ao redor de 2% e o desgaste provocado por escândalos de corrupção, entre os quais o principal éo caso de Manuel Adorni, ex-chefe de gabinete de Milei, que renunciou ao cargo em meio a acusações de desvio de dinheiro.
Terceira via?
Nesse contexto, os debates eleitorais sobre a sucessão em 2027 tomaram conta dos círculos políticos e financeiros na Argentina. A discussão principal é: entre a abordagem de choque de Milei e o velho peronismo — filosofia política que domina a Argentina desde a década de 1940, que ganhou força particularmente no mandato de Cristina Kirchner — será que não existe outra opção?
Uma ideia popular é a reforma do peronismo. Em essência, trata-se de uma filosofia política nacionalista construída sobre três pilares: justiça social, independência econômica e soberania política.
Centra-se no protecionismo das indústrias nacionais e na baixa interferência estrangeira na política, valores desafiados por Milei em sua abordagem libertária, na qual abriu as portas do país para empresas de fora e replicou valores do movimento MAGA, de Donald Trump.
Ainda assim, o peronismo enfrenta um intenso debate interno sobre qual estratégia deve adotar para voltar ao poder. Lideranças do partido e analistas avaliam se a oposição deve prometer reverter a agenda de austeridade implementada pelo presidente Javier Milei ou preservar alguns de seus principais pilares — como a disciplina fiscal, a redução do tamanho do Estado e o compromisso com o pagamento da dívida pública —, adaptando-os à tradição peronista.
Pouca expectativa
Eleitores argentinos não botam confiança em nenhum dos candidatos para 2027 ((Foto: Ernesto Ryan/Getty Images))
A definição dessa estratégia é considerada decisiva para revitalizar um movimento político que se reinventou diversas vezes ao longo das últimas oito décadas, aponta a Bloomberg, e oferecer uma alternativa a uma população que convive há anos com estagnação econômica, inflação elevada e sucessivas crises.
Além do impacto doméstico, uma eventual derrota de Milei, considerado um dos principais expoentes da nova direita alinhada ao movimento MAGA, do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, também teria repercussões geopolíticas ao desafiar o avanço conservador na América Latina, apura a plataforma.
O principal nome cotado para liderar a oposição é o governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, que acumula dois mandatos à frente do distrito mais populoso da Argentina e também serviu como Ministro da Economia de 2013 a 2015, sob a presidência de Kirchner. Devido ao seu tempo à frente das decisões econômicas do país, período em que a Argentina falhou em pagar suas dívidas, Kicillof se tornou sinônimo de políticas econômicas intervencionistas que Milei se elegeu para desmantelar.
Mesmo assim, nenhum lado parece cativar eleitores. De acordo com um levantamento da empresa de estatísticas local TresPuntoZero, 30% dos argentinos dizem que não votariam em nenhum dos candidatos: em 2025, a cifra era de 11%.
Axel Kicillof não é o único dirigente peronista que busca redefinir os rumos do movimento. Outro grupo de lideranças, crítico à gestão do último governo peronista, reuniu-se para apresentar uma plataforma voltada às eleições de 2027. A proposta defende a manutenção da estabilidade macroeconômica, a sustentabilidade da dívida pública e o fortalecimento da produção nacional como eixos centrais de um novo projeto político.
Nos bastidores, o principal articulador desse movimento é o ex-ministro da Economia Sergio Massa, que comandou a pasta durante o período em que a inflação argentina ultrapassou os três dígitos.
Segundo interlocutores próximos, Massa mantém contato frequente com governadores, parlamentares e prefeitos enquanto trabalha na formulação de uma nova identidade para o peronismo. Apesar disso, ele ainda não confirmou se pretende disputar as eleições de 2027 e tampouco vinculou publicamente sua atuação ao grupo que lançou a plataforma. Até as eleições, as projeções são que o cenário da oposição se torne cada vez mais disputado.
