Por dentro do Time Out Market de R$ 35 milhões que abrirá na Paulista; veja fotos
Primeiro da América Latina, mercado gastronômico terá 17 operações, espaços para eventos e parceria milionária com a Nomad; EXAME visitou as obras

RESUMO +
O mercado gastronômico britânico Time Out Market prevê abrir sua primeira unidade do Brasil e da América Latina no Conjunto Nacional, em São Paulo, no primeiro semestre de 2027. O projeto de R$ 35 milhões terá 17 operações em 3,2 mil metros quadrados. A fintech Nomad prevê mais de R$ 100 milhões em aportes ao longo de dez anos.
Quem sobe a rampa do Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, em São Paulo, já consegue enxergar parte do espaço que, a partir de 2027, deverá abrigar o primeiro Time Out Market do Brasil e da América Latina. Por enquanto, no lugar de restaurantes e mesas ocupadas, há estruturas aparentes, tubulações no teto e operários trabalhando na transformação do primeiro andar do edifício.
É nesse cenário que está sendo construído um novo mercado gastronômico de R$ 35 milhões, com 17 operações e mais de 3,2 mil metros quadrados, que pretende reunir alguns dos principais nomes da gastronomia paulistana em um mesmo endereço.
A inauguração está prevista para o primeiro semestre de 2027, ainda sem data exata definida. Além do investimento inicial, o projeto conta com uma parceria com a fintech Nomad, que prevê mais de R$ 100 milhões em aportes ao longo de 10 anos.
A EXAME visitou as obras do empreendimento e acompanhou, ao lado de Benjamin Ramalho, CEO do Time Out Market Brasil, os detalhes de como será o espaço. Entre cozinhas ainda em construção e instalações técnicas, o empresário mostrou onde ficarão os restaurantes, os bares, o café, as áreas de eventos e os ambientes dedicados a experiências gastronômicas.
O projeto é uma aposta em transformar parte de um dos edifícios mais conhecidos de São Paulo em um destino de gastronomia, cultura e entretenimento.
"Quando eu cheguei lá com o Conjunto Nacional, eu brinco que quem ganhou a franquia não fui eu. Foi o Conjunto Nacional", diz Ramalho.
Benjamin Ramalho, CEO do Time Out Market Brasil: empresário transformou sua relação com o Conjunto Nacional no ponto de partida para trazer a marca ao país. (Leandro Fonseca /Exame)
Como será o Time Out Market da Avenida Paulista
A proposta é criar um mercado gastronômico inspirado no modelo que tornou o Time Out Market de Lisboa conhecido internacionalmente, mas adaptado à arquitetura e aos hábitos de São Paulo.
A experiência começará antes mesmo de o visitante entrar no mercado. Quem subir a tradicional rampa do Conjunto Nacional poderá visualizar o interior do empreendimento, integrado ao corredor de circulação do edifício por um terraço.
Na primeira área, o pé-direito de 5,20 metros permitirá uma configuração semelhante à de Lisboa, com mesas coletivas e um ambiente de convivência. A ideia é que diferentes pessoas possam escolher suas refeições entre os restaurantes e compartilhá-las no mesmo espaço.
Em outra parte do mercado, onde o teto é mais baixo, haverá mesas para quatro, seis e oito pessoas, com uma experiência mais próxima à de um restaurante convencional.
O visitante poderá comprar diretamente nos boxes ou fazer pedidos por QR code, sem precisar sair da mesa.
Cozinhas no centro: projeto inverte o modelo tradicional da rede e coloca parte dos restaurantes em ilhas cercadas por mesas. (Time Out Market Brasil/Divulgação)
Uma das principais diferenças em relação às unidades internacionais estará na disposição das cozinhas.
Normalmente, os Time Out Markets concentram os restaurantes nas laterais, deixando as mesas no centro. Em São Paulo, parte dessa lógica será invertida: as cozinhas ficarão em ilhas centrais, enquanto as mesas serão distribuídas ao redor, próximas às janelas.
A mudança permitirá aproveitar a iluminação natural do Conjunto Nacional e a conexão visual com o entorno.
Os projetos apresentados pela empresa mostram ambientes com concreto aparente, tubulações metálicas expostas, balcões de atendimento, mobiliário de madeira e mesas distribuídas entre os restaurantes.
A intenção é preservar características da arquitetura original do edifício, em vez de criar um ambiente completamente desconectado de sua história.
Arquitetura preservada: obras adaptam o edifício modernista para receber cozinhas, bares e áreas de convivência. (Leandro Fonseca /Exame)
Quais restaurantes estarão no Time Out Market
A gastronomia será a principal atração do empreendimento. O mercado terá 17 operações, com uma combinação de chefs reconhecidos, restaurantes tradicionais, novos talentos e espaços temporários.
A curadoria seguirá o conceito da marca britânica de reunir o melhor da cidade sob o mesmo teto.
Isso significa que o Time Out Market São Paulo não será dedicado exclusivamente à alta gastronomia. A proposta também contempla pratos populares e receitas associadas à identidade paulistana.
Entre as categorias previstas estão pizza, hambúrgueres, massas, comida japonesa e árabe, além de preparações tradicionais como pastel, coxinha, sanduíche de pernil e outros clássicos da cidade.
A seleção deverá equilibrar chefs premiados, novos profissionais e estabelecimentos conhecidos do público. "É uma plataforma global com DNA local", diz Ramalho.
A distribuição também reservará espaço para experiências que mudam ao longo do ano. Um dos boxes será dedicado a chefs convidados e poderá receber profissionais de outras cidades brasileiras ou do exterior por temporadas.
A ideia é manter o mercado em constante renovação, especialmente para o público que trabalha na Avenida Paulista e poderá frequentar o empreendimento várias vezes por semana.
Segundo Ramalho, a expectativa é que cerca de 60% do público durante a semana seja formado por profissionais da região, principalmente nos horários de almoço e happy hour.
Gastronomia paulistana: espaço reunirá 17 operações entre chefs renomados, restaurantes tradicionais e novos talentos. (Time Out Market Brasil/Divulgação)
Onde ficarão o café, os bares e os espaços de eventos
O Time Out Market não será apenas uma praça de alimentação com restaurantes independentes.
Uma das áreas próximas ao corredor do Conjunto Nacional receberá um café, com acesso ao terraço integrado ao edifício.
A localização permitirá que o estabelecimento funcione mesmo quando o restante do mercado estiver fechado. A proposta é atender o público que chega à Paulista pela manhã, oferecendo café da manhã e brunch antes da abertura das demais operações.
Ramalho trabalha com a possibilidade de o café receber clientes a partir das 8 horas, enquanto o mercado principal se prepara para iniciar suas atividades.
Outra parte do empreendimento terá ambientes reservados para encontros, aniversários, eventos corporativos e experiências gastronômicas.
Esses espaços poderão receber degustações de vinhos, menus especiais e reuniões privadas. Também está prevista uma área de bar com proposta mais reservada.
O projeto contará ainda com uma cozinha-estúdio, destinada a aulas, workshops, demonstrações culinárias e produção de conteúdo.
Os chefs participantes poderão utilizar o ambiente para compartilhar técnicas e receitas com o público.
Ao lado dessa estrutura, haverá um espaço multiuso, que poderá funcionar de maneira independente do mercado gastronômico.
A intenção é receber lançamentos de produtos, festivais, palestras, premiações e eventos associados ao calendário cultural de São Paulo.
Programações relacionadas à São Paulo Fashion Week, à SP-Arte e à DW! Semana de Design estão entre as possibilidades mencionadas pelo empresário.
Muito além dos restaurantes: empreendimento terá cozinha-estúdio, salas de degustação e espaço multiuso para eventos culturais. (Leandro Fonseca /Exame)
Como o Time Out Market vai se conectar à Avenida Paulista
A localização no Conjunto Nacional não foi escolhida apenas pelo movimento de consumidores.
O empreendimento ficará na esquina da Avenida Paulista com a Rua Augusta, em uma região que concentra escritórios, museus, centros culturais, hotéis, comércio e atrações turísticas.
O plano de Ramalho é aproveitar essa circulação para transformar o Time Out Market em um ponto de partida para conhecer a cidade.
Uma das áreas será dedicada a informações turísticas, com orientações sobre exposições, passeios, atrações culturais e outros destinos paulistanos.
O empresário afirma que está desenhando uma parceria com órgãos municipais de turismo para desenvolver esse serviço. Entre as possibilidades estão passeios guiados pela Paulista e experiências que conectem o mercado a espaços como o MASP, o Parque Trianon e o Parque Mário Covas.
Ramalho também estuda iniciativas como a venda de cestas de piquenique, que poderiam ser retiradas no empreendimento e consumidas em parques próximos.
A proposta é que o visitante não encontre apenas um lugar para comer, mas também informações e atividades que o incentivem a circular por São Paulo.
Por que o Conjunto Nacional foi escolhido
Inaugurado em 1958, o Conjunto Nacional é um dos marcos da arquitetura modernista de São Paulo. O edifício reúne lojas, escritórios, apartamentos e espaços de entretenimento, em uma combinação de usos que ajuda a explicar seu movimento diário.
A relação de Benjamin Ramalho com o prédio começou em 2021, quando ele ainda comandava a CASACOR. Na época, a mostra de arquitetura e decoração precisava encontrar um novo endereço, depois de sucessivos atrasos nas obras da Cidade Matarazzo.
Ao caminhar pela Avenida Paulista, Ramalho percebeu que uma extensa área do primeiro andar do Conjunto Nacional estava fechada havia mais de uma década.
Ele procurou os proprietários e negociou a ocupação de parte do espaço pela CASACOR.
O projeto acabou abrindo caminho para outras iniciativas. Atualmente, o empresário afirma ter aproximadamente 10 mil metros quadrados sob sua gestão no edifício, distribuídos entre diferentes negócios.
Uma dessas operações é o Jardim Nacional, espaço de eventos inaugurado em fevereiro de 2026, que recuperou parte da antiga vocação gastronômica e de entretenimento do prédio.
O Conjunto Nacional já abrigou operações do grupo Fasano, incluindo um restaurante e um salão de eventos no pavimento superior.
Para Ramalho, o Time Out Market representa uma continuidade dessa história, agora em um formato de mercado gastronômico internacional.
A localização também foi determinante para convencer os executivos da Time Out a autorizar a estreia da marca na América Latina. A empresa britânica já considerava São Paulo um mercado estratégico, mas procurava um endereço capaz de representar a marca na região.
O Conjunto Nacional acabou preenchendo esse requisito.
Investimento milionário: mercado gastronômico custará R$ 35 milhões para ser implantado e tem inauguração prevista para 2027. (Time Out Market Brasil/Divulgação)
Como estão as obras do Time Out Market
As obras começaram em junho de 2026 e envolvem a adaptação de um edifício tombado para receber uma operação gastronômica de grande porte.
O principal desafio não está na construção de uma nova estrutura, mas na instalação de toda a infraestrutura necessária para o funcionamento simultâneo das cozinhas.
Sistemas de exaustão, ar-condicionado, instalações elétricas e equipamentos precisam ser incorporados ao pavimento sem comprometer as características arquitetônicas que devem ser preservadas.
Durante a visita da EXAME, parte dessas instalações já começava a ocupar o teto, enquanto outros ambientes ainda estavam em fase de preparação.
O trabalho também inclui a recuperação de elementos originais do edifício que foram escondidos por intervenções de antigos ocupantes.
Outra dificuldade é executar as obras enquanto o Conjunto Nacional continua funcionando normalmente.
Como o prédio reúne comércio, escritórios e residências, há restrições de horário para atividades que produzem ruído. Por isso, a equipe concentrou no início do cronograma as demolições, a retirada de revestimentos e os serviços mais barulhentos.
A etapa seguinte será dedicada principalmente à montagem das cozinhas e dos sistemas internos. Apesar da complexidade, Ramalho mantém a previsão de inauguração no primeiro semestre de 2027.
Time Out na Paulista: ingleses desejavam que flagship em São Paulo estivesse na Avenida Paulista (Leandro Fonseca /Exame)
Como funciona a parceria de R$ 100 milhões com a Nomad
A implantação do Time Out Market São Paulo exigirá aproximadamente R$ 35 milhões.
Esse valor corresponde ao investimento inicial necessário para preparar o empreendimento, incluindo a infraestrutura que será utilizada pelos restaurantes.
O modelo de negócio é diferente do praticado em muitas praças de alimentação de shopping centers.
Em vez de entregar um espaço vazio para que cada restaurante realize toda a sua implantação, o operador do Time Out Market assume parte relevante da estrutura das cozinhas.
Isso permite substituir operações e receber chefs temporários sem precisar reconstruir os ambientes a cada mudança.
Para ajudar a financiar o projeto e desenvolver experiências ao longo dos anos, o empreendimento fechou uma parceria com a fintech Nomad.
O contrato tem duração de dez anos e prevê mais de R$ 100 milhões em investimentos ao longo desse período, e não um aporte único na inauguração.
O formato recebeu o nome de Experience Rights, uma evolução do modelo tradicional de naming rights.
Enquanto os naming rights normalmente envolvem a associação do nome de uma empresa a um estádio, arena ou empreendimento, os Experience Rights dão à marca parceira participação na criação de experiências e benefícios para os frequentadores.
No caso da Nomad, a parceria inclui um espaço gastronômico próprio e rotativo dentro do mercado.
A proposta é receber chefs e marcas internacionais que ainda não tenham presença no Brasil, com temporadas de aproximadamente três a quatro meses.
O ambiente também poderá receber profissionais de outras regiões brasileiras, além de promover jantares, colaborações gastronômicas e eventos especiais.
Clientes da fintech terão acesso a benefícios e a uma área reservada no empreendimento.
"Desde o começo a gente não queria só um naming rights", diz Thaís Souza Nicolau, CMO da Nomad. "A ideia é que o público participe das experiências que a gente está oferecendo e que sejam experiências muito únicas."
A parceria também prevê conexões com unidades internacionais do Time Out Market, como as de Lisboa e Nova York.
Para Ramalho, o acordo ajuda a enfrentar um dos desafios de implantar um mercado gastronômico desse porte: o volume de recursos necessário antes que a operação comece a gerar receita.
Quantas pessoas o Time Out Market deve atrair
O Conjunto Nacional já recebe, segundo Ramalho, entre 25 mil e 30 mil visitantes por dia. O movimento cresceu nos últimos anos, acompanhando a retomada da ocupação comercial da Avenida Paulista e a chegada de novos estabelecimentos ao edifício.
O empresário afirma que, no período posterior à pandemia, o fluxo diário chegou a ficar entre 5 mil e 7 mil pessoas. Com a abertura do Time Out Market, a expectativa é aumentar a circulação do prédio em pelo menos 20% a 25%.
Considerando uma base de 30 mil visitantes, isso representaria um acréscimo potencial de 6 mil a 7,5 mil pessoas por dia, caso a projeção se confirme.
A nova operação também deverá gerar empregos diretos nas áreas de atendimento, bares, limpeza, segurança, estoque e administração.
Além disso, os restaurantes participantes precisarão contratar equipes para suas unidades dentro do mercado.
O impacto esperado vai além do próprio empreendimento. Ramalho acredita que o mercado gastronômico poderá beneficiar os demais negócios do Conjunto Nacional, incluindo lojas, escritórios e espaços de eventos.
A possibilidade de realizar uma conferência no edifício e oferecer aos participantes diferentes opções de restaurantes no mesmo endereço, por exemplo, já começa a entrar no planejamento de eventos corporativos.
Quando abre o Time Out Market e quais serão os próximos endereços
A inauguração do Time Out Market São Paulo está prevista para o primeiro semestre de 2027, mas ainda não há uma data oficial anunciada.
A unidade da Avenida Paulista será a primeira operação brasileira e latino-americana da marca.
A história da Time Out começou em Londres, em 1968, como uma publicação dedicada à cultura, ao entretenimento e à vida urbana. Décadas depois, a empresa levou sua curadoria para o mundo físico, inaugurando seu primeiro mercado gastronômico em Lisboa.
O conceito se expandiu para outras cidades, como Nova York, Boston, Chicago, Montreal, Dubai e Cidade do Cabo.
No Brasil, Ramalho detém a licença para desenvolver a marca na América Latina e já estuda novas unidades.
A segunda operação também deverá ficar em São Paulo, desta vez na região central da capital.
Depois disso, o empresário pretende avançar para outros mercados, incluindo o Rio de Janeiro e Buenos Aires, na Argentina, onde já existem conversas iniciais.
Por enquanto, a prioridade é concluir as obras da Paulista e colocar em funcionamento o projeto que deverá marcar a estreia da marca britânica na região.
