Por que a ApexBrasil abriu sua 1ª base na África em um país que cresce 9% ao ano
A ApexBrasil, agência de promoção de exportações, terá base em Adis Abeba, sede da União Africana, para ampliar negócios brasileiros no continente e disputar espaço com a constante presença chinesa

De Adis Abeba, Etiópia* — A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) escolheu a capital da Etiópia para abrir seu primeiro escritório no continente africano, em uma estratégia para ampliar a presença de empresas brasileiras em uma região onde a disputa comercial com outras potências, especialmente a China, ganhou escala nos últimos anos.
A decisão encerra uma missão empresarial organizada pela agência, que passou por cinco países africanos: Angola, África do Sul, Zâmbia, Moçambique e Etiópia. A viagem reuniu empresas como Embraer, Embrapa, Fiocruz, Eurofarma, Vibra Foods, Perdigão, Instituto Nacional do Plásticoe companhias dos setores de cosméticos, alimentos e tecnologia.
Até agora, a ApexBrasil atuava no continente por meio de estruturas de atendimento responsáveis por acompanhar determinadas regiões e mercados. A abertura da unidade na Etiópia representa a criação do primeiro escritório físico da agência na África.
Durante a cerimônia de inauguração, o embaixador do Brasil na Etiópia, Jandyr Ferreira dos Santos, afirmou que a criação do escritório representa uma mudança de estratégia na relação comercial entre os dois países.
“Missões empresariais são importantes. Visitas de alto nível são essenciais, mas uma presença permanente cria algo diferente: continuidade. Ela permite que relações sejam construídas dia após dia, que oportunidades sejam acompanhadas do início ao fim e que ideias sejam transformadas em projetos, investimentos e empregos”, disse.
Segundo representantes da ApexBrasil ouvidos pela reportagem durante a missão, a escolha de Adis Abeba, capital etíope, está relacionada à posição política e estratégica do país. A cidade abriga a sede da União Africana, organismo que reúne 55 países do continente e concentra parte das articulações diplomáticas e econômicas regionais.
Exportação brasileira: representantes da ApexBrasil e do governo da Etiópia participam do lançamento do escritório
A escolha também amplia a atuação brasileira para uma área diferente dos mercados visitados na missão empresarial. Enquanto países como África do Sul, Zâmbia e Moçambique ficam na África Austral, a Etiópia está no Chifre da África, região localizada no leste do continente.
Durante a viagem, empresários brasileiros disseram à Exame que o Brasil tem uma vantagem de imagem no continente, principalmente pela experiência em agricultura e pela cooperação histórica em áreas como saúde e formação técnica. Ao mesmo tempo, apontaram desafios de competitividade diante de países que já avançaram na região.
Por que a Etiópia entrou no radar da ApexBrasil
A Etiópia foi escolhida também pelo desempenho econômico recente. Dados do Fundo Monetário Internacional mostram que o país cresceu 6,4% em 2022, 7,2% em 2023, 8,1% em 2024 e 9,2% em 2025. A expectativa para 2026 é de um novo crescimento de 9,2%.
Com mais de 120 milhões de habitantes, o país é um dos maiores mercados consumidores da África e tem setores estratégicos como agricultura, energia, manufatura e mineração. Apesar do avanço econômico recente, o país convive com uma alta inflação de 11% por ano, que já foi de 30%, e tem 70% da população vivendo em situação de pobreza.
“O continente possui cerca de 60% das terras agrícolas disponíveis, e o Brasil é um dos maiores produtores de alimentos do mundo, tornando-nos uma resposta natural para a segurança alimentar global”, disse o presidente da ApexBrasil, Laudemir Miller.
Além do tamanho econômico, a escolha envolve uma dimensão política. O país entrou recentemente no Brics, bloco que reúne países emergentes do Sul Global.
“Governos podem estabelecer estruturas e acordos podem aproximar nossos países. Mas, se queremos construir uma parceria econômica verdadeiramente madura, os empreendedores também precisam se aproximar", disse o embaixador brasileiro na Etiópia.
Outro elemento considerado é o peso histórico da Etiópia. O país é frequentemente citado como uma exceção no processo colonial africano por ter preservado sua independência diante das potências europeias, embora tenha sido ocupado pela Itália entre 1936 e 1941.
A disputa por espaço com a China
A abertura do escritório ocorre em um momento de forte presença chinesa na África. Durante a viagem, a reportagem da Exame observou essa influência principalmente na Zâmbia e em Moçambique, com empreendimentos ligados à infraestrutura, serviços, turismo e saúde.
Na Zâmbia, projetos com participação chinesa incluem estruturas hospitalares e empreendimentos comerciais. Em Moçambique, empresários brasileiros relataram a presença de companhias chinesas em diferentes setores da economia local.
Representantes do Itamaraty que participaram da missão, incluindo integrantes das embaixadas brasileiras nos países visitados, também destacaram a dimensão da presença chinesa no continente.
Na Etiópia, um dos símbolos dessa influência está em Adis Abeba: a sede da União Africana foi construída pela China e entregue como uma doação ao organismo continental.
Empresários brasileiros ouvidos pela reportagem avaliaram que a China possui vantagem competitiva em diversos mercados africanos pela escala de suas empresas, capacidade de financiamento e presença em grandes projetos de infraestrutura.
Apesar da concorrência, representantes brasileiros apontam que o Brasil possui uma relação histórica positiva com muitos países africanos pela proximidade cultural, em alguns casos.
*O jornalista viajou a convite da ApexBrasil.
