Por que a Apple processou adona do ChatGPT? Entenda disputa pelo 'novo iPhone'

A Apple (AAPL) processou a OpenAI, dona do ChatGPT, na sexta-feira, 10, por roubo de segredos comerciais. Segundo a fabricante do iPhone, a empresa de inteligência artificial (IA) se apropriou de informações confidenciais para desenvolver seu tão comentado aparelho de IA — um dispositivo que ainda não foi lançado, mas que competiria diretamente com os produtos da Apple.
Em documento protocolado na Justiça Federal do Norte da Califórnia, a Apple afirma que, "como consequência natural, o incipiente negócio de hardware da OpenAI repousa agora sobre bases extremamente precárias".
1. Do que a Apple acusa a OpenAI?
A ação alega que a OpenAI é responsável pelo crime de roubo de segredos comerciais e quebra de contrato.
No centro do processo estão ex-funcionários da Apple que migraram para a OpenAI, e a acusação afirma que o esquema partiu da própria liderança da empresa de IA.
O principal nome citado é Tang Tan, atual chefe de hardware da OpenAI, que passou 24 anos na Apple, onde chefiou o design de produtos do iPhone e do Apple Watch.
Segundo o processo, ele teria usado codinomes internos da Apple para arrancar informações de candidatos a emprego que ainda trabalhavam na fabricante, chegando a pedir que levassem "peças reais" — como baterias e placas — para sessões de "mostrar e contar" nas entrevistas.
A Apple também acusa Tan de ter repassado à OpenAI detalhes de reuniões com fornecedores estratégicos.
2. O engenheiro, o laptop e a mensagem reveladora
O segundo nome no centro do caso é Chang Liu, ex-engenheiro que teria deixado a Apple, em janeiro de 2026, sem devolver o laptop corporativo.
Com o aparelho, segundo a ação, ele acessou a rede da empresa e baixou dezenas de arquivos confidenciais sobre produtos não lançados, mesmo já trabalhando na OpenAI.
A Apple sustenta que Liu chegou a comemorar a falha de segurança.
Em uma mensagem citada no processo, enviada a um ex-colega que ainda estava na empresa, ele teria escrito que descobriu, "rindo", que ainda conseguia acessar o armazenamento de arquivos da fabricante.
3. A carta de fevereiro que ficou sem resposta
A Apple afirma que tentou resolver o caso antes de ir à Justiça.
Segundo a ação, a empresa enviou uma carta à OpenAI em fevereiro, ainda no início de sua investigação, para expor as preocupações — mas nunca recebeu resposta.
O silêncio, na versão da Apple, ajudou a motivar o processo.
O caso também tem outra camada de tensão. Em maio, antes da Apple processar, a própria OpenAI já estudava acionar a fabricante, alegando que o iPhone não havia integrado nem promovido seus produtos como o combinado.
Ou seja, as duas empresas já se preparavam para brigar antes do processo vir a público.
4. O que é, afinal, o aparelho no centro da disputa
O objeto do conflito é o dispositivo secreto que a OpenAI desenvolve com Jony Ive, o lendário ex-designer da Apple responsável pelo iPhone, iPod e iPad.
A empresa comprou a startup de hardware de Ive, a io Products, por US$ 6,4 bilhões, em 2025 — e é ela, não Ive pessoalmente, que figura como ré no processo.
Embora a OpenAI mantenha sigilo, relatos da imprensa especializada descrevem o aparelho como algo que pode redefinir a forma de usar a tecnologia.
Segundo a mídia americana,seria do tamanho de um bolso, sem tela e ciente do ambiente ao redor, captando informações por câmeras e microfones.
A ideia é criar um "terceiro dispositivo central", que ficaria ao lado do computador e do celular — uma aposta de que, com a IA, as pessoas usarão cada vez menos telas e aplicativos. É justamente por mirar esse futuro que ele ameaça o coração do negócio da Apple.
5. Por que a briga vai além das duas empresas
O processo marca a virada de uma parceria celebrada em 2024,quando o ChatGPT foi integrado ao iPhone, e sinaliza um racha maior no setor.
A Apple, que já decidiu basear a nova versão da Siri nos modelos Gemini, do Google — e não na tecnologia da OpenAI —, mostra que o alinhamento entre as duas acabou.
Para a OpenAI, o momento é delicado: o caso representa um risco à sua imagem às vésperas de uma abertura de capital muito aguardada, que pode ser uma das maiores da história.
A empresa nega as acusações e afirma não ter "interesse nos segredos comerciais de outras empresas".
