Por que a China suspendeu as exportações de gás hélio?

A China anunciou a suspensão temporária das exportações do gás hélio, em uma medida que prioriza sua estratégia de proteger cadeias produtivas consideradas estratégicas diante da crescente competição tecnológica global.
A restrição entrou em vigor imediatamente após ser divulgada pelo Ministério do Comércio e pela Administração Geral das Alfândegas nessa sexta-feira, 10, e não tem previsão de duração nem indicação de mercados isentos.
A decisão ocorre em um momento de forte pressão sobre a oferta internacional deste gás, considerado essencial para a fabricação de semicondutores, equipamentos médicos, fibras ópticas e uma miríade de outros componentes da indústria de alta tecnologia, setor no qual a China buscainvestir e tornar globalmente competitivo.
Segundo analistas consultados pelo South China Morning Post (SCMP), jornal de Hong Kong, a prioridade do governo chinês é assegurar o fornecimento de chips à indústria nacional, cuja produção cresce impulsionada pela expansão da inteligência artificial.
Embora a China ainda dependa fortemente das importações de hélio, a suspensão das exportações reduz ainda mais a oferta disponível no mercado internacional e pode pressionar os preços do insumo nos próximos meses.
Segundo o SCMP, a suspensão das vendas ao exterior representa principalmente uma tentativa de impedir que a escassez internacional comprometa o funcionamento da indústria doméstica.
Escassez de hélio
O mercado mundial de hélio enfrenta dificuldades desde o conflito entre os Estados Unidos e Israel contra o Irã. A guerra levou ao fechamento temporário de uma importante instalação de produção no Catar e afetou o tráfego marítimo no Estreito de Hormuz, rota estratégica para o comércio internacional de gás natural e seus derivados.
Como o hélio é obtido principalmente como subproduto da liquefação do gás natural, interrupções nessa cadeia afetam diretamente sua disponibilidade global. Além disso, o transporte do produto exige contêineres criogênicos especiais e uma logística complexa, o que faz com que os impactos de uma interrupção sejam sentidos semanas depois.
A China é particularmente vulnerável a esse cenário. Mais de 80% do hélio consumido pelo país é importado, segundo dados do setor. Em 2025, as compras externas cresceram cerca de 22%, ultrapassando 4.900 toneladas, acompanhando a expansão da indústria chinesa de semicondutores.
Neste ano, porém, a situação mudou. Entre janeiro e maio, as importações caíram mais de 10% em relação ao mesmo período do ano anterior, refletindo as dificuldades de abastecimento decorrentes da crise no Oriente Médio. Ao mesmo tempo, as exportações chinesas continuaram a aumentar. Nos cinco primeiros meses de 2026, os embarques cresceram cerca de 32%, impulsionados pela valorização internacional do produto. Coreia do Sul, Taiwan, Alemanha, Estados Unidos e Japão estão entre os principais destinos do hélio exportado pela China.
Hélio, IA e geopolítica
Ademais,o avanço da inteligência artificial ampliou significativamente a importância do hélio para a economia global. O gás é fundamental em diversas etapas da fabricação de semicondutores, especialmente em processos que exigem controle rigoroso de temperatura e alta precisão.
Com empresas de tecnologia acelerando a construção de data centers e ampliando a produção de servidores para aplicações de IA, a demanda por chips avançados disparou. Como consequência, aumentou também o consumo de hélio. O SCMP avalia ainda que a decisão chinesa faz parte de uma estratégia mais ampla de segurança industrial. Ao preservar seus estoques, Pequim busca garantir que fabricantes nacionais mantenham seus planos de expansão, mesmo em um cenário de escassez internacional.
A medida também ocorre em um momento de crescente competição entre as grandes economias pelo acesso a matérias-primas críticas para setores de alta tecnologia. Nos últimos anos, países passaram a impor restrições comerciais envolvendo minerais estratégicos, terras raras e outros insumos essenciais para a produção de baterias, semicondutores e equipamentos eletrônicos.
A suspensão das exportações chinesas ocorre em um mercado que já opera com oferta concentrada. Estados Unidos e Catar respondem juntos por aproximadamente três quartos da produção mundial de hélio, tornando o setor particularmente vulnerável a crises geopolíticas e problemas logísticos.
Além disso, a Rússia também restringiu parte de suas exportações neste ano, reduzindo ainda mais a disponibilidade do gás no mercado internacional. Especialistas acreditam que a decisão de Pequim pode acelerar a disputa pelos volumes remanescentes e provocar uma nova rodada de alta nos preços, especialmente se persistirem as dificuldades de produção e transporte no Oriente Médio.
