Por que a dívida dos EUA chegou a US$ 40 trilhões? Economista aponta um culpado
Paul Krugman diz que cortes de impostos, e não gastos públicos, estão por trás da deterioração das contas americanas

A dívida pública dos Estados Unidos voltou ao centro do debate econômico após ultrapassar a marca de US$ 40 trilhões em algumas métricas. Apesar do número preocupante, para o economista Paul Krugman, parte do alarme em torno dele é exagerada e pode distorcer o diagnóstico das contas públicas.
Em artigo publicado em seu Substack, Krugman afirma que a dívida federal, medida de forma adequada, estaria mais próxima de US$ 32 trilhões. Ele também considera inadequada a comparação direta entre o estoque da dívida e o Produto Interno Bruto (PIB), pois se trata de grandezas de naturezas diferentes.
Apesar das ressalvas, o economista reconhece que o endividamento americano atingiu um nível elevado e merece atenção.
Segundo o economista, o problema não configura uma crise fiscal iminente, mas representa uma situação preocupante que exigirá decisões de política econômica no futuro.
Na avaliação do especialista, a origem do quadro atual não se deve, principalmente, ao aumento dos gastos públicos nem ao envelhecimento da população: em vez disso, Krugman atribui papel central às sucessivas reduções de impostos aprovadas por presidentes republicanos nas últimas décadas.
Em um gráfico apresentado no artigo, Krugman projeta a dívida pública em até 187,55% do PIB americano até 2040 — no mesmo período, estima que a cifra seria de apenas 47,85% sem as medidas de Trump e Bush.
O economista destaca especialmente os governos dos dois republicanos — ambos servindo dois mandatos — como fontes importantes do problema. Segundo ele, os cortes promovidos durante suas administrações consecutivas reduziram significativamente a arrecadação federal e contribuíram para a expansão da dívida pública.
Mudança gradual
Dívida trilionária é resultado de anos de mudanças graduais e cortes de gastos, afirma economista (Money Still Life/Getty Images)
Krugman lembra que os Estados Unidos chegaram ao fim dos anos 1990 em uma situação fiscal muito diferente da atual. Durante o governo de Bill Clinton, o país registrou superávits orçamentários e a relação entre a dívida e o PIB chegou a cair significativamente.
As projeções feitas no início dos anos 2000 também indicavam que o endividamento americano poderia permanecer sob controle. Para Krugman, o cenário começou a mudar após os cortes de impostos aprovados durante o governo Bush, em 2001 e 2003, que interromperam a trajetória de melhora das contas públicas.
O envelhecimento da população também contribuiu para o aumento das despesas federais, principalmente por meio de programas como o Social Security e o Medicare. No entanto, Krugman ressalta que esse fenômeno já era conhecido pelos analistas quando as projeções fiscais mais otimistas foram elaboradas.
Além disso, os gastos extraordinários durante a crise financeira de 2008 e a pandemia de Covid-19 elevaram temporariamente as despesas públicas. Na avaliação do economista, entretanto, esses episódios não explicam sozinhos a trajetória estrutural da dívida americana.
A questão central, segundo Krugman, está na diferença entre receitas e despesas ao longo do tempo: enquanto a arrecadação federal permaneceu relativamente estável em torno de 17,5% do PIB desde a década de 1960, os gastos apresentaram tendência de crescimento.
O economista também argumenta que os cortes tributários beneficiaram de forma desproporcional os americanos de renda mais alta. Ao mesmo tempo em que reduziram a arrecadação, essas medidas teriam ampliado a desigualdade de renda nos Estados Unidos.
Entre os principais cortes citados por Krugman estão as duas reduções de impostos promovidas por Bush, o Tax Cuts and Jobs Act de 2017, aprovado durante o primeiro mandato de Trump, e o pacote tributário de 2025 conhecido como “One Big Beautiful Bill”.
Com base nas estimativas dos economistas Bobby Kogan e Jared Bernstein, Krugman afirma ainda que esses quatro grandes cortes reduziram a arrecadação em cerca de 3% do PIB. O impacto se acumula ao longo dos anos e, com o aumento dos juros, contribui ainda mais para a expansão dos déficits e da dívida.
Para Krugman, uma eventual estratégia democrata para enfrentar o problema poderia incluir a reversão dos cortes de impostos.
O economista, porém, ressalta que a medida não seria simples, pois parte dos benefícios tributários também alcançou famílias de renda média, tornando politicamente difícil desfazer todo o pacote.
O diagnóstico apresentado por Paul Krugman é, portanto, direto: a atual dívida americana não seria, essencialmente, consequência de gastos públicos descontrolados, mas do enfraquecimento das receitas, provocado por sucessivos cortes de impostos.
