Por que a IA pode ser a maior ameaça ao negócio que fez do Google um gigante
Alphabet tem o pior dia da história na bolsa e perde US$ 500 bilhões em valor de mercado após balanço

- Ações da Alphabet caíram 13% nesta quinta-feira, 29, a maior queda desde a estreia do Google na bolsa, em 2004
- A empresa perdeu cerca de US$ 500 bilhões em valor de mercado em um único pregão
- A receita de busca ficou abaixo do esperado pelo segundo trimestre seguido, e o Google admitiu que o AI Mode rende menos com anúncios
- UBS, Mizuho e D.A. Davidson veem o medo de canibalização da busca pela IA de volta ao centro do debate
- • Para o professor Leandro Guissoni, da FGV, a Alphabet corre o risco de cair no Dilema do Inovador
As ações da Alphabet, dona do Google, despencaram 13% nesta quinta-feira, 29, e tiveram o pior dia desde que a empresa abriu capital, em 2004. A queda apagou cerca de US$ 500 bilhões em valor de mercado e superou o recorde de baixa anterior, de 11,63%, registrado em março de 2020, no início da pandemia.
O tombo veio depois do balanço do terceiro trimestre, divulgado na noite de quarta-feira, 28. A Alphabet reportou fluxo de caixa livre negativo de US$ 9,07 bilhões, mais de três vezes o rombo de US$ 2,7 bilhões projetado pelos analistas, e manteve a previsão de investimentos para 2026 entre US$ 195 bilhões e US$ 205 bilhões.
A maior fonte de receita da empresa também decepcionou. A publicidade em buscas cresceu 12% no trimestre, para US$ 63,35 bilhões, mas ficou abaixo das estimativas pela segunda vez seguida. O ritmo vem desacelerando ao longo do ano, depois de altas de 19% no primeiro trimestre e de 17% no segundo. No balanço do primeiro trimestre, as ações haviam disparado 6% com o lucro acima do consenso.
O Google admite que o AI Mode rende menos
Philipp Schindler, diretor de negócios da Alphabet, atribuiu parte do resultado da busca à monetização mais baixa do AI Mode, o modo de pesquisa conversacional do Google, que responde às perguntas diretamente. Segundo ele, a empresa está ampliando os anúncios dentro do AI Mode e dos AI Overviews, os resumos gerados por IA no topo da página de resultados, inclusive em mercados internacionais.
A companhia apontou o câmbio como o fator que mais pesou na desaceleração da busca. Ao mesmo tempo, o Google informou que o número de buscas cresceu no ritmo mais forte em cinco anos. É essa distância entre o uso e a receita que preocupa o mercado.
Analistas do UBS escreveram em nota a clientes que os resultados trazem os temores de canibalização da busca "de volta ao centro das atenções". Jordan Klein, estrategista da mesa de operações de tecnologia e mídia do Mizuho, estendeu a preocupação ao YouTube. "Isso eleva o medo de que a IA e os agentes tirem participação da busca e do YouTube e prejudiquem a narrativa de monetização de IA do Google", escreveu em nota após o balanço.
Gil Luria, analista da D.A. Davidson, afirmou à CNBC que os investidores tendem interpretar a frustração em busca, YouTube e assinaturas como um sinal de que "a IA finalmente chegou para o Google". Acrescenta que não é bom tirar conclusões precipitadas com base em um único trimestre, mas diz que será preciso reavaliar o que o comércio feito por agentes de IA significa para a empresa.
O Dilema do Inovador chega ao Google
Para Leandro Guissoni, professor associado da FGV e autor do livro Quem quebra, inova, os fatores conjunturais citados pelo Google pesam no resultado, mas o problema é mais profundo. Ele vê a Alphabet diante do Dilema do Inovador, conceito criado por Clayton Christensen, da Universidade Harvard.
"A empresa que um dia desafiou gigantes como Yahoo e Microsoft, transformando a maneira como buscamos informações na internet, agora enfrenta o mesmo dilema de seus antigos concorrentes", diz. "Empresas líderes muitas vezes não perdem espaço porque deixam de inovar, mas porque continuam aperfeiçoando justamente o modelo de negócios que as tornou bem-sucedidas."
Ben Barringer, chefe global de pesquisa em tecnologia da gestora britânica Quilter Cheviot, usa o mesmo conceito. Segundo ele, o Google não sabe se protege o negócio principal ou se junta à disrupção. Por isso, perdeu terreno com o Gemini e está atrás dos concorrentes em agentes de IA. Barringer também criticou a teleconferência de resultados, que considerou mal conduzida.
Mais buscas, menos receita
Guissoni explica que a mudança está na jornada do consumidor. Antes, a pessoa pesquisava palavras-chave, abria diferentes sites, comparava produtos e tomava uma decisão. Agora, pode pedir que a IA faça boa parte desse trabalho, seja para escolher um hotel, comparar seguros ou decidir qual carro comprar.
"A jornada do consumidor está deixando de ser apenas navegar, pesquisar e clicar para se tornar conversar, delegar e executar", afirma. O professor cita startups de agentes de IA que já planejam viagens, compram produtos e cancelam assinaturas em nome dos usuários.
Isso atinge diretamente o modelo que sustentou o Google por mais de duas décadas, baseado em serviços gratuitos para o consumidor e em anúncios vendidos a partir da atenção dele. "Quando uma inteligência artificial realiza várias etapas da jornada em uma única interação, parte dessas oportunidades desaparece ou precisa ser monetizada de outra maneira", diz Guissoni. "O Google pode continuar atraindo mais usuários e realizando mais buscas, mas capturando proporcionalmente menos valor em cada uma delas."
Na avaliação dele, essa mudança de comportamento importa mais para o futuro da empresa do que os fatores que explicam um trimestre específico.
O trunfo pode estar no YouTube
O Google enfrenta ao mesmo tempo a canibalização interna, com o AI Mode, e a concorrência de chatbots como o ChatGPT, da OpenAI, e o Claude, da Anthropic. Guissoni, porém, vê outro risco estratégico. A empresa pode se concentrar tanto em defender a busca que deixe de explorar o potencial de outros negócios, em especial o YouTube.
Segundo o professor, o YouTube já concentra mais de 14% do tempo total de TV nos Estados Unidos, contra cerca de 8% da Netflix, sem precisar financiar cada vídeo, já que o conteúdo vem de milhões de criadores. Ainda assim, faturou pouco mais de US$ 40 bilhões em anúncios em 2025, enquanto a Amazon somou cerca de US$ 68,6 bilhões, impulsionada pela proximidade com o momento da compra.
Para Guissoni, o YouTube Shopping pode transformar essa audiência em vendas, com criadores recomendando produtos e recebendo comissão, e a compra concluída em varejistas parceiros como Mercado Livre e Shopee. "A genialidade desse modelo está na orquestração", diz. "O YouTube não precisa fabricar produtos, administrar estoques, assumir a logística ou construir um marketplace tradicional." Ele alerta que Amazon, TikTok e Mercado Livre disputam o mesmo espaço entre conteúdo, publicidade e comércio eletrônico.
"O Google precisa continuar quebrando partes do modelo que o tornou dominante, sem perder aquilo que realmente construiu: sua capacidade de compreender as pessoas, conquistar sua atenção e transformá-la em valor econômico", afirma.
Nem todos veem uma virada
Scott Devitt, analista da Rosenblatt Securities, acredita que a liderança do Google em buscas pode acabar sendo uma vantagem. "Não acho que seja uma mudança radical", disse à CNBC. Para ele, se a monetização é um problema para a Alphabet, também é para qualquer agente de IA voltado ao consumidor, e deve ser resolvido. Quando isso acontecer, afirma, a empresa estará em posição invejável com seus 4 bilhões de usuários de busca que se tornam usuários de IA.
A Microsoft, que também divulgou resultados na quarta-feira, teve um pregão praticamente estável. A empresa investiu US$ 45,2 bilhões no trimestre, 30% a mais que um ano antes, mas abaixo dos US$ 50,67 bilhões projetados, e manteve o fluxo de caixa livre positivo, em US$ 18,63 bilhões. "A Microsoft está construindo sua arquitetura de forma comedida e, por isso, traz menos surpresas", disse Barringer.
*com agências internacionais
