Por que a posse de Andy Burnham abre novo capítulo na política do Reino Unido

A ascensão de Andy Burnham ao cargo de primeiro-ministro do Reino Unido marca uma nova fase para o Partido Trabalhista após uma década de intensa instabilidade política, segundo uma análise do Council on Foreign Relations (CFR).
Burnham tornou-se, nesta segunda-feira, 20, o sétimo premiê britânico em dez anos, sucedendo Keir Starmer, que permaneceu apenas dois anos no cargo. Sua chegada ao governo representa uma mudança no foco da legenda, que deixa a política centralizada em Westminster para priorizar investimentos regionais, a descentralização administrativa e a reindustrialização.
No campo econômico, Burnham pretende aplicar, em âmbito nacional, o modelo adotado em Manchester, conhecido como "Manchesterismo". A proposta parte da avaliação de que o principal problema do Reino Unido é o excesso de centralização política e econômica em Londres, o que teria limitado os investimentos e o desenvolvimento das demais regiões do país.
O programa prevê ampliar os investimentos públicos e privados em infraestrutura, transporte e habitação, acelerar a descentralização administrativa, expandir os programas de moradia popular e reforçar o controle estatal sobre setores considerados estratégicos, como energia, siderurgia e serviços públicos.
Ao mesmo tempo, o novo premiê procura tranquilizar os mercados ao prometer respeito às regras fiscais, controle do endividamento e redução dos gastos com assistência social, evitando repetir a turbulência provocada pelo chamado "mini-orçamento" da ex-primeira-ministra Liz Truss, em 2022.
Na política externa, o novo primeiro-ministro deverá manter a aproximação com a União Europeia sem reabrir o debate sobre o retorno do Reino Unido ao bloco, diz o CFR. Embora tenha declarado anteriormente que gostaria de ver o país reintegrado à UE no futuro, Burnham afirma que essa não é uma prioridade imediata. Entre seus objetivos estão concluir acordos pendentes com Bruxelas nas áreas de comércio agroalimentar, mercado de carbono e mobilidade de jovens, além de ampliar a cooperação em segurança econômica, migração irregular e cadeias produtivas estratégicas.
Em relação aos Estados Unidos, Burnham promete preservar os pilares da aliança bilateral, incluindo o compromisso com a OTAN, o apoio militar e financeiro à Ucrânia e a manutenção da capacidade nuclear britânica.
Mas, ao mesmo tempo, sinaliza uma postura mais independente em relação a Washington, especialmente em relação ao Oriente Médio, onde defende uma linha mais crítica à atuação de Israel em Gaza e uma política externa menos dependente da relação com os norte-americanos. O sucesso de seu governo dependerá da capacidade de conciliar sua agenda doméstica de reindustrialização e descentralização com os desafios da política internacional e a crescente pressão eleitoral da oposição.
A trajetória de Andy Burnham
O novo líder é um veterano político: iniciou sua trajetória parlamentar em 2001, quando foi eleito deputado por Leigh. Durante sua carreira, ocupou cargos como secretário-chefe do Tesouro, secretário da Cultura e secretário da Saúde. Também ganhou projeção nacional ao criar o Painel Independente de Hillsborough, entidade responsável por investigar o desastre ocorrido em um estádio de futebol em 1989, o que fortaleceu sua imagem pública.
Apesar da experiência ministerial, Burnham fracassou em duas disputas pela liderança do Partido Trabalhista, terminando em quarto lugar em 2010 e sendo derrotado por Jeremy Corbyn em 2015. Sua trajetória política mudou de rumo ao deixar Westminster para disputar a prefeitura da Grande Manchester, em 2017.
Como prefeito, Burnham consolidou sua popularidade ao vencer três eleições consecutivas com margens crescentes. Sua gestão ficou marcada por políticas voltadas ao transporte público, à habitação e ao combate à população em situação de rua, o que lhe rendeu o apelido de "Rei do Norte".
Politicamente, é identificado com a ala chamada "centro-esquerda moderada" do Partido Trabalhista, defendendo maior presença do Estado na economia e nos serviços públicos, sem se alinhar à esquerda mais radical representada por Corbyn.
Um novo premiê
Em seu primeiro discurso como primeiro-ministro, em frente ao número 10 da Downing Street, Burnham prometeu construir "uma nova economia" na qual serviços considerados essenciais retornem a um controle público mais forte. A declaração antecipou as prioridades de um governo que pretende ampliar o papel do Estado em setores estratégicos e reduzir as desigualdades regionais.
Sua chegada ao poder ocorreu após o colapso político de Keir Starmer. Ao longo de cerca de 18 meses, o então premiê enfrentou sucessivas mudanças de posição em políticas públicas, questionamentos sobre sua liderança, derrotas nas eleições locais de maio de 2026 e desgaste provocado pela nomeação de Peter Mandelson para a embaixada britânica em Washington.
Mesmo assim, a direção nacional do Partido Trabalhista inicialmente tentou impedir o retorno de Burnham ao Parlamento ao barrar sua candidatura em uma eleição suplementar realizada em Manchester. A estratégia fracassou quando os Verdes conquistaram a cadeira.
Pouco depois, Burnham disputou outra eleição suplementar, realizada em junho, na qual venceu com mais de 54% dos votos e uma vantagem superior a 9 mil votos.
Dias depois da vitória, Starmer anunciou sua renúncia e Burnham reassumiu um assento na Câmara dos Comuns, parte do Congresso. Em seguida, possíveis adversários desistiram da disputa interna, enquanto 322 dos 403 deputados trabalhistas declararam apoio à sua candidatura, tornando praticamente impossível a candidatura de um concorrente.
Após ser convidado pelo rei Charles III para formar governo, Burnham assumiu oficialmente como primeiro-ministro. Embora tenha alcançado o cargo com amplo respaldo parlamentar, Burnham inicia o mandato sem ter sido submetido a uma eleição geral para líder nacional.
Pesquisas de opinião citadas no estudo indicam que uma parcela significativa dos britânicos preferiria uma disputa interna ou eleições antecipadas, enquanto o partido Reform UK lidera levantamentos nacionais há mais de um ano, o que aumenta a pressão para que o novo premiê busque um mandato próprio antes do prazo máximo previsto para 2029.
