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Mundo
12/07/2026
6 min

Por que a rivalidade entre Europa e Rússia deve ir além da Guerra na Ucrânia?

Por que a rivalidade entre Europa e Rússia deve ir além da Guerra na Ucrânia?

A guerra na Ucrânia pode terminar, mas a rivalidade entre a Rússia e a Europa tende a perdurar por décadas. Essa é a principal conclusão de um estudo publicado pelo Center for Strategic and International Studies (CSIS), um dos mais influentes centros de pesquisa em segurança e política internacional dos Estados Unidos.

Em um estudo, o pesquisador Jeffrey Mankoff afirma que Moscou continuará representando uma ameaça estrutural à segurança europeia, ainda que em graus distintos conforme a região do continente. Para os países do flanco leste da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), como a Polônia e os Estados bálticos, o risco é considerado existencial. Já em parte da Europa Ocidental e nos Estados Unidos, a percepção é menos alarmante.

Segundo o CSIS, a guerra acelerou uma rivalidade que já existia desde o fim da Guerra Fria e consolidou uma nova fase do confronto entre a Rússia e o chamado Ocidente euro-atlântico.

Rivalidade histórica

De acordo com o estudo, a origem das tensões vai muito além da invasão da Ucrânia; a perda da influência soviética no Leste Europeu e a expansão da Otan e da União Europeia foram interpretadas pelo Kremlin como uma redução de sua profundidade estratégica e de seu peso geopolítico.

Na avaliação do think tank, essa percepção foi reforçada após o retorno de Vladimir Putin ao poder em 2012, quando Moscou passou a adotar um discurso cada vez mais nacionalista e hostil ao Ocidente. A aproximação da Ucrânia com a União Europeia passou a ser apresentada pelas autoridades russas como uma ameaça direta aos interesses do país.

O relatório observa que, embora Moscou tenha tratado, durante anos, os Estados Unidos e a Europa como integrantes de um mesmo "Ocidente coletivo", essa narrativa começou a mudar recentemente. O Kremlin passou a diferenciar Washington dos aliados europeus, sobretudo diante da postura mais pragmática adotada pelos Estados Unidos nas negociações sobre a guerra na Ucrânia.

Enquanto mantém canais de diálogo com Washington, a Rússia passou a retratar a União Europeia como um adversário permanente. Segundo o CSIS, essa mudança também aparece na opinião pública russa: pesquisas recentes mostram que Alemanha, Reino Unido e Ucrânia passaram a ser vistos como países mais hostis do que os próprios Estados Unidos.

O estudo destaca que essa visão justifica uma campanha contínua de guerra híbrida contra a Europa. Segundo o CSIS, Moscou vem intensificando operações de desinformação, ataques cibernéticos, sabotagem de infraestrutura crítica, interferências eletrônicas em sistemas de navegação, apoio a grupos políticos alinhados ao Kremlin e tentativas de ampliar sua influência financeira e política em países europeus.

Para os pesquisadores, essas ações fazem parte da estratégia militar russa e não constituem iniciativas isoladas. A doutrina de Moscou combina operações de informação, sabotagem e guerra eletrônica com o emprego convencional das Forças Armadas, preparando o terreno para eventuais confrontos futuros.

A ameaça russa

O relatório do CSIS reconhece que a guerra na Ucrânia impôs perdas sérias às Forças Armadas russas. Estimativas citadas no estudo apontam que o país já acumula mais de um milhão de militares mortos, feridos ou desaparecidos desde o início da invasão, além da destruição de milhares de blindados, aeronaves e embarcações.

Essas perdas reduzem a capacidade da Rússia de iniciar um conflito convencional de grande escala contra membros da Otan enquanto a guerra na Ucrânia continua. No entanto, Mankoff argumenta que Moscou já trabalha na reconstrução de seu poder militar para um cenário pós-guerra.

Segundo o estudo, os gastos com defesa saltaram de cerca de US$ 66 bilhões em 2021 para mais de US$ 170 bilhões em 2025, o que representa aproximadamente 7,5% do produto interno bruto russo e quase 40% dos gastos do governo. O investimento continuou crescendo em 2026. Esse aumento permitiu ampliar a produção de tanques, artilharia, munições, drones, mísseis e aeronaves de combate. O relatório também aponta avanços importantes em sistemas de defesa aérea, guerra eletrônica e armas de longo alcance capazes de atingir alvos em território europeu.

Outro destaque é a rápida evolução dos drones. A experiência adquirida na Ucrânia levou a Rússia a reorganizar sua estrutura militar, criando forças específicas para sistemas não tripulados e ampliando a integração dessas tecnologias às operações convencionais.

Segundo o CSIS, parte desse avanço resulta da cooperação tecnológica com a China, o Irã e a Coreia do Norte. Embora o estudo ressalte que sanções econômicas, limitações industriais e perdas humanas dificultem a reconstrução militar russa, analistas europeus citados no relatório avaliam que Moscou poderá recuperar capacidade suficiente para representar uma ameaça significativa à Otan antes do fim da década.

Divisões com os EUA

O presidente dos EUA, Donald Trump, ao lado do presidente ucraniano Volodymyr Zelenksy, em reunião da Otan em Ancara (Saul Loeb/AFP)

Para o CSIS, um dos principais fatores que determinarão a segurança europeia nos próximos anos não está apenas em Moscou, mas em Washington.

O relatório afirma que as prioridades estratégicas dos Estados Unidos e da Europa vêm se distanciando há décadas, um processo que teria se intensificado durante o segundo mandato de Donald Trump. A política americana passou a defender que os aliados europeus assumam maior responsabilidade por sua própria defesa, enquanto Washington concentra recursos em outras regiões, especialmente no Indo-Pacífico.

Segundo o think tank, governos europeus apoiam o fortalecimento de suas capacidades militares, mas demonstram preocupação com uma eventual redução rápida da presença americana no continente. O estudo observa que os Estados Unidos continuam fornecendo à Otan ativos considerados insubstituíveis, como inteligência, sistemas espaciais, defesa antimísseis, vigilância eletrônica e armamentos de longo alcance.

O CSIS alerta ainda que a Rússia pode explorar eventuais divergências entre os aliados por meio de operações limitadas, ataques híbridos ou ações rápidas contra regiões vulneráveis, especialmente no flanco oriental da Otan. Mesmo que essas ofensivas não resultem na ocupação permanente de território, poderiam testar a disposição da aliança de aplicar o Artigo 5, que estabelece a defesa coletiva entre os países-membros.

Na avaliação de Mankoff, uma resposta hesitante ou dividida poderia enfraquecer a credibilidade da Otan e abrir espaço para uma reorganização da arquitetura de segurança europeia em termos mais favoráveis à Rússia.

O estudo argumenta ainda que a guerra na Ucrânia não representa o fim da disputa entre Moscou e o Ocidente, mas sim o início de uma fase mais longa de competição. O desafio para a Europa e os Estados Unidos, segundo o relatório, será fortalecer sua capacidade de dissuasão e manter a coesão política da aliança diante de uma Rússia que continuará investindo em poder militar e em instrumentos de pressão mesmo após o conflito na Ucrânia.

Para o CSIS, reduzir esse risco exigirá uma transição coordenada para uma defesa liderada pelos aliados europeus, sem comprometer a capacidade de dissuasão da Otan. O estudo conclui que uma eventual negociação com Moscou só terá chances de produzir uma arquitetura de segurança mais estável se a Europa e os Estados Unidos negociarem a partir de uma posição de força. Caso contrário, enquanto Vladimir Putin — ou uma liderança com objetivos semelhantes — permanecer no poder, a estratégia mais viável continuará sendo a contenção da Rússia, combinada com o fortalecimento da indústria de defesa europeia, maior coordenação entre os aliados e apoio contínuo à Ucrânia como elemento central da segurança no continente.
AutorMatheus Gonçalves
FonteExame
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