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Sacre Investimentos
EconomiaCMDT
11/09/2026
5 min

Por que a Selic alta pesa mais no bolso do produtor rural PF, segundo o Rabobank

A alta da Selic encarece o crédito rural, mas não atinge todos os participantes do agronegócio com a mesma intensidade. Segundo estudo do Rabobank, os efeitos do aperto monetário são mais fortes sobre o produtor pessoa física, especialmente por meio do aumento das taxas de juros e da inadimplência. A análise mostra que, após um […]

Por que a Selic alta pesa mais no bolso do produtor rural PF, segundo o Rabobank

A alta da Selic encarece o crédito rural, mas não atinge todos os participantes do agronegócio com a mesma intensidade. Segundo estudo do Rabobank, os efeitos do aperto monetário são mais fortes sobre o produtor pessoa física, especialmente por meio do aumento das taxas de juros e da inadimplência.

A análise mostra que, após um choque inesperado na taxa básica de juros, a inadimplência das pessoas físicas sobe cerca de 0,1 ponto percentual entre seis e 12 meses. Para as empresas, por outro lado, não foram encontrados efeitos persistentes sobre os atrasos.

Essa diferença está relacionada à própria estrutura do financiamento rural no Brasil. A presença de linhas direcionadas e subsidiadas pelo Plano Safra reduz o repasse das oscilações da Selic para o custo do crédito, especialmente no segmento de pessoas jurídicas.

“O canal de transmissão da política monetária para o crédito rural permanece ativo, embora com intensidade distinta entre os segmentos analisados”, afirmam os economistas Mauricio Une e Renan Alves, autores do relatório.

Na prática, a política monetária afeta principalmente o custo dos empréstimos. Os impactos sobre o volume de concessões e o estoque de crédito são mais moderados.

Inadimplência rural alcança 7%

Os juros do crédito rural apresentam comportamento alinhado aos ciclos de alta da Selic. Nos períodos mais recentes de aperto monetário, entre 2021 e 2023 e entre 2024 e 2025, as taxas cobradas das pessoas jurídicas chegaram perto ou superaram 14% ao ano.

Embora o custo nominal tenha subido mais para as empresas, a inadimplência se concentrou entre os produtores pessoa física. Em abril de 2026, o índice desse grupo alcançou 7,16%, ante 3,08% entre as pessoas jurídicas.

A distância é ainda maior nas operações contratadas a taxas de mercado. Nesse segmento, a inadimplência das pessoas físicas chegou a 12,79%, enquanto a das empresas ficou em 0,76%.

Nas linhas com taxas reguladas, os percentuais eram menores: 1,80% para pessoas físicas e 0,50% para pessoas jurídicas.

Os dados reforçam a proteção oferecida pelos recursos direcionados. Para o Rabobank, a forte presença de linhas subsidiadas reduz a sensibilidade do crédito rural à Selic, sobretudo para as empresas.

Não são apenas os juros

O comportamento da inadimplência, porém, não pode ser explicado somente pela política monetária. A capacidade de pagamento do produtor também depende dos preços das commodities, dos custos dos insumos e da renda gerada pela atividade.

No ciclo de alta da Selic de 2013 e 2014, por exemplo, o produtor enfrentou juros maiores, mas foi beneficiado pelos preços favoráveis da soja e do milho e pela relativa estabilidade dos fertilizantes. Isso permitiu a expansão do crédito sem uma deterioração relevante da carteira.

Algo semelhante ocorreu entre 2021 e 2022. Mesmo com a disparada dos juros e dos preços dos insumos, intensificada pela guerra entre Rússia e Ucrânia, as commodities agrícolas permaneceram em níveis historicamente elevados e sustentaram o fluxo de caixa do setor.

O cenário ficou menos favorável no ciclo de aperto monetário de 2024 e 2025. Soja e milho recuaram dos picos, enquanto os fertilizantes demoraram a apresentar uma normalização mais consistente.

A combinação entre receitas menores e crédito caro comprimiu as margens e coincidiu com uma elevação mais clara da inadimplência, principalmente entre as pessoas físicas.

A conclusão do Rabobank é que juros elevados, isoladamente, não provocam necessariamente uma deterioração relevante da qualidade do crédito. Quando os preços agrícolas sustentam o caixa, o produtor consegue absorver parte do aumento das despesas financeiras.

O risco cresce quando o aperto monetário vem acompanhado de queda nas receitas. Nesse ambiente, a Selic elevada funciona como um amplificador da inadimplência e do risco de crédito no campo.

Como o choque da Selic chega ao produtor

As estimativas do Rabobank indica que um choque monetário aumenta em 0,76 ponto percentual a taxa do crédito para pessoas físicas nos primeiros três meses. Em 12 meses, o impacto acumulado é de 0,73 ponto percentual.

O efeito sobre a inadimplência demora mais para aparecer. A alta estimada é de 0,11 ponto percentual depois de seis meses e permanece nesse nível no horizonte de 12 meses.

Entre as pessoas jurídicas, a transmissão é mais limitada. O estudo não encontrou evidências robustas de um aumento persistente do custo do crédito ou da inadimplência.

As concessões para empresas chegam a avançar 0,37 ponto percentual seis meses após o choque, mas o efeito é temporário e perde significância nos horizontes seguintes.

Esse comportamento pode refletir mudanças na composição do financiamento, com maior participação de recursos direcionados e subsidiados após o encarecimento das linhas de mercado.

Crédito rural ensaia retomada

As concessões de crédito rural apresentaram fortes oscilações nos últimos anos. Entre 2021 e o início de 2022, o crescimento superou 60% na comparação anual, liderado pelas pessoas físicas.

Após a correção registrada em 2023, o crédito voltou a acelerar em 2024, dessa vez puxado pelas pessoas jurídicas. No início de 2025, porém, houve uma nova desaceleração.

Em 2026, os dados indicam uma recomposição moderada do crescimento, ainda com diferenças relevantes entre produtores e empresas.

Para o Rabobank, o movimento reforça o caráter pró-cíclico do crédito rural: a oferta e a demanda por recursos respondem não somente à Selic, mas também à renda do agronegócio e às políticas de financiamento.

O Plano Safra ajuda a amortecer parte dos efeitos da política monetária, mas a proteção não alcança todos os tomadores da mesma forma.

Sem o mesmo acesso das empresas às linhas subsidiadas — e mais exposto às oscilações da renda agrícola —, o produtor pessoa física acaba sentindo com maior intensidade o peso da Selic elevada.

AutorPasquale Augusto
FonteMoney Times
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