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Sacre Investimentos
EXAME AgroCMDT
21/08/2026
5 min

Por que a soja deve ter menor crescimento da produção em 30 anos no Brasil

Com custos elevados e margens menores, produtores reduzem investimentos, enquanto exportações seguem em níveis recordes

Por que a soja deve ter menor crescimento da produção em 30 anos no Brasil

A soja brasileira caminha para uma safra praticamente do mesmo tamanho da anterior em 2026/7. Nos cálculos da HedgePoint Global Markets, consultoria de commodities, a produção brasileira deve alcançar 181,7 milhões de toneladas, um crescimento de 0,1% em relação à temporada anterior. Desconsiderando temporadas de quebra, o avanço pode ser um dos menores em cerca de 30 anos.

Segundo a consultoria, depois de anos de expansão acelerada, custos elevados, margens menores e crédito mais restrito estão diminuindo o apetite do produtor por novas áreas.

A HedgePoint estima que a área colhida avance apenas 0,9%, de 48,8 milhões para 49,2 milhões de hectares — cerca de 400 mil hectares adicionais. A produtividade média, por sua vez, pode recuar 0,8%, de 3,72 para 3,69 toneladas por hectare.

Para Luiz Roque, coordenador de Inteligência de Mercado da consultoria, a combinação ajuda a explicar por que o crescimento perde velocidade.

“Você tinha margens de dois dígitos, três dígitos. Hoje a gente está falando de uma margem de 10%. Então, naturalmente, o produtor vai ficar mais receoso de fazer investimentos”, afirmou.

Uma combinação de fatores de cinco anos para cá levou a esse contexto, como a queda no preço das commodities e a alta na produção, enquanto os produtores fizeram grandes investimentos — mas o principal é o aumento dos custos, especialmente dos fertilizantes. Como o Brasil importa cerca de 85% desses insumos, a valorização média do dólar nos últimos anos ampliou essa pressão.

“Os custos de produção nunca voltaram para os níveis anteriores, enquanto o preço das commodities voltou. Logo, o produtor continuou pagando mais caro para formar a lavoura”, diz Joana Colussi, pesquisadora da Universidade de Purdue, nos Estados Unidos.

Um estudo dela, em parceria com outros pesquisadores, com fazendas-modelo em Mato Grosso — principal estado produtor —, mostra que os custos totais cresceram 96%, passando de 172 dólares para 337 dólares por tonelada de 2021 a 2025.

No mesmo período, a produção brasileira de soja cresceu 40%, em razão de melhor produtividade e da forte demanda internacional, especialmente da China, principal compradora do grão brasileiro.

As margens caem desde 2021/2022 e, na atual safra, devem atingir 3,9% — eram 55,6% em 2020, avalia Carlos Cogo, CEO da Cogo Consultoria.

Os números de Sorriso, em Mato Grosso, ajudam a dimensionar essa virada. A margem média da soja chegou a se aproximar de 200% em 2021/22, período marcado pela disparada das commodities. Para 2025/26, a estimativa está em 10% e, para 2026/27, em apenas 8%, segundo a Hedgepoint.

O custo de produção, que estava em R$ 46,40 por saca em 2017/18, deve alcançar R$ 105,50 por saca em 2026/27. No mesmo intervalo, o preço médio recebido pelo produtor teria avançado de R$ 67,10 para R$ 114 por saca.

Mais soja e menos investimento

A cautela do produtor contrasta com o desempenho das exportações. Até agosto, o line-up brasileiro somava 95,2 milhões de toneladas, acima das 86,5 milhões registradas no mesmo período de 2025. A HedgePoint projeta que os embarques alcancem 114 milhões de toneladas em 2026, o que representaria um novo recorde.

O resultado dá sequência ao avanço registrado no ano passado. Em 2025, em meio à disputa comercial entre Estados Unidos e China, o Brasil exportou cerca de 108,6 milhões de toneladas de soja.

A China respondeu por aproximadamente 80% desse volume, com compras entre 85 milhões e 87 milhões de toneladas.

Esse fluxo pode sofrer ajustes nos próximos meses com a entrada da nova safra americana e o andamento das negociações entre Washington e Pequim. Donald Trump, presidente dos EUA e Xi Jinping, da China, devem se encontrar em setembro para tratar do tema.

No ano passado, segundo Trump, a China se comprometeu a comprar 25 milhões de toneladas dos EUA, em uma tentativa de resolver o impasse com o país asiático.

Ainda assim, a força das exportações não deve ser suficiente para acelerar significativamente a expansão das lavouras brasileiras. A HedgePoint estima um acréscimo de cerca de 400 mil hectares em 2026/27.

Roque, analista da consultoria. considera otimistas projeções que trabalham com um avanço próximo de 1,5 milhão de hectares diante das margens mais estreitas e das condições financeiras enfrentadas pelos produtores.

O crescimento também deve ser desigual pelo país. Norte e Nordeste tendem a registrar os maiores avanços proporcionais. No Rio Grande do Sul, a consultoria trabalha com maior cautela depois de sucessivas safras problemáticas afetarem a situação financeira dos produtores.

O clima acrescenta outra incerteza. A estimativa de 181,7 milhões de toneladas considera uma produtividade próxima da normalidade e ainda não incorpora eventuais perdas provocadas pelo El Niño.

Projeções da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA) estima um fenômeno climático super forte a partir de setembro, período de plantio em alguns estados.

A HedgePoint avalia que ainda é cedo para estimar qualquer quebra. O comportamento das chuvas entre setembro e outubro deve oferecer indicações mais claras sobre o desenvolvimento das lavouras e o tamanho da próxima safra.

A perda de ritmo fica mais evidente quando comparada à expansão da última década. Desde 2016/17, a área brasileira de soja cresceu 45%, de 33,9 milhões para uma projeção de 49,2 milhões de hectares. No mesmo período, a produção avançou de 114,9 milhões para 181,7 milhões de toneladas.

AutorCésar H. S. Rezende
FonteExame
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