Por que a virada do arroz pode quase dobrar o lucro da Camil até 2027

O BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME) está otimista com a Camil, empresa de alimentos, mesmo após as ações da companhia caírem 14% nesta quarta-feira, após a divulgação dos resultados do primeiro trimestre fiscal de 2026. Para o banco, a reação do mercado não altera a principal tese de investimento para a empresa.
Em relatório divulgado após o balanço, os analistas Thiago Duarte e Guilherme Guttilla mantiveram recomendação de compra para a ação, com preço-alvo de R$ 10, o que representa potencial de valorização de cerca de 87% sobre o fechamento de terça-feira.
Na visão do banco, o futuro da Camil depende menos do desempenho do trimestre e muito mais da trajetória dos preços do arroz.
“O preço das ações deve acompanhar os preços do arroz. Vemos um bom ponto de entrada para quem investe com horizonte de 12 meses, à medida que o movimento de recuperação dos preços ganha força”, afirmam os analistas.
Segundo o BTG, o arroz atingiu recentemente o menor patamar em mais de cinco anos, mas as cotações já começaram a reagir.
O banco trabalha com um preço médio de R$ 69 por saca em 2026, acima dos cerca de R$ 62 atuais, e avalia que uma recuperação para níveis próximos de R$ 80 por saca — valor estimado como o custo de produção no Rio Grande do Sul, principal estado produtor do cereal — poderia praticamente dobrar o lucro líquido da companhia até 2027.
Além do ajuste natural entre oferta e demanda, o BTG aponta que fatores climáticos podem acelerar esse movimento.
A área plantada de arroz no Brasil caiu 14% nesta safra, reduzindo a produção em 13%, enquanto um eventual episódio de El Niño poderia comprometer ainda mais a produtividade no Sul do país e restringir a oferta da commodity.
Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a produção de arroz foi estimada em 11,1 milhões de toneladas.
A redução da área plantada no Rio Grande do Sul ocorreu em razão da baixa rentabilidade da cultura, com preços de venda frequentemente abaixo dos custos de produção, da escassez de crédito para custeio e da opção dos produtores por diversificar as lavouras com culturas mais rentáveis.
Embora a perspectiva para o arroz sustente uma visão otimista para o médio prazo, o banco reconhece que o balanço trouxe alguns pontos de atenção.
A receita líquida da Camil ficou praticamente estável em R$ 2,67 bilhões, enquanto o EBITDA ajustado somou R$ 200 milhões, queda de 13% na comparação anual e cerca de 9% abaixo da projeção do BTG. O principal fator de decepção foi o aumento das despesas com vendas, gerais e administrativas (SG&A).
Em contrapartida, o desempenho operacional foi considerado sólido. Os volumes consolidados cresceram 18% na comparação anual, impulsionados pela recuperação do mercado brasileiro e pelo avanço das operações internacionais.
No Brasil, o segmento de maior giro registrou crescimento de 14% em volume, enquanto a divisão de produtos de maior valor agregado avançou no mesmo ritmo.
Já as operações internacionais expandiram os volumes em 26%, beneficiadas principalmente pelos resultados no Uruguai, Chile e Equador, além da contribuição da nova operação no Paraguai.
Dívida da Camil
Outro fator que chamou atenção do mercado foi a evolução da dívida. A companhia consumiu cerca de R$ 1,2 bilhão em capital de giro durante o trimestre para recompor estoques de arroz, elevando a dívida líquida para R$ 4,5 bilhões e a alavancagem para 5,5 vezes o EBITDA dos últimos 12 meses.
Segundo o BTG, esse movimento é sazonal e faz parte da dinâmica operacional da companhia. O primeiro trimestre fiscal costuma concentrar a formação de estoques de arroz, que são gradualmente comercializados ao longo do restante do exercício, reduzindo a necessidade de capital de giro.
Os analistas também destacam que os investimentos perderam intensidade no período. O capex somou R$ 77,5 milhões, abaixo do registrado um ano antes, à medida que se aproxima da conclusão dos investimentos na planta de Cambaí.
