Por que essa hidrelétrica decidiu montar a própria IA com apoio da Dell e AMD
Operadora de Belo Monte, a Norte Energia adotou modelos abertos e infraestrutura local para ampliar a automação e manter dados sensíveis sob seu controle

RESUMO +
A Norte Energia, operadora da hidrelétrica de Belo Monte, adotou infraestrutura local com apoio da Dell e da AMD para executar sua inteligência artificial corporativa. A plataforma automatiza tarefas administrativas e de cibersegurança. No monitoramento socioambiental, a empresa estima poupar 500 horas anuais por profissional, mas ainda não consolidou o retorno financeiro do projeto.
Os contratos da empresa que opera a hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, colocaram um chatbot à prova. A Norte Energia começou a usar modelos da OpenAI, a dona do ChatGPT, para ajudar funcionários a encontrar informações nesses documentos. À medida que mais pessoas passaram a consultar materiais complexos ao mesmo tempo, apareceram limitações de processamento e precisão. A experiência levou a companhia a construir uma estrutura própria para sua inteligência artificial.
Para Júlio Freitas, diretor financeiro e de Relações com Investidores da Norte Energia, a tecnologia precisava assumir um papel maior na rotina da empresa. Em entrevista exclusiva à EXAME, o executivo explica por que a companhia adotou modelos de código aberto em infraestrutura local, com apoio da Dell e da AMD. “O objetivo não era apenas responder perguntas, mas criar uma camada de inteligência capaz de interpretar dados, integrar bancos corporativos por meio de orquestração e acionar etapas operacionais automaticamente, com total controle e segurança sobre informações sensíveis”, afirma.
Batizada de IANE, a plataforma já participa de tarefas que vão além da consulta a documentos. Segundo a companhia, ela identifica alterações na proteção da rede de computadores, abre chamados e prepara justificativas; também transforma áudios com instruções operacionais em informações pesquisáveis. A autonomia tem uma fronteira: os sistemas que controlam a geração de energia em tempo real permanecem fora de sua atuação.
A conta por trás da mudança
A expansão exigia uma arquitetura que permitisse incorporar mais usuários e atividades sem tornar o orçamento difícil de prever. Nos serviços externos cobrados pelo consumo, cada nova aplicação pode acrescentar despesa ao projeto.
Essa cobrança costuma considerar tokens, as unidades de informação processadas pelos modelos. Ainferência acontece a cada utilização de uma IA já treinada: para resumir um contrato, interpretar uma pergunta ou gerar uma análise, por exemplo. Quando o sistema participa de uma sequência de tarefas, pode precisar acionar o modelo várias vezes.
Para Freitas, a preocupação estava no que aconteceria com essa despesa quando a ferramenta alcançasse mais áreas. “Em modelos baseados estritamente em consumo por uso (tokens em nuvem pública), a expansão da IA para toda a organização gera custos variáveis crescentes e difíceis de prever”, diz.
A Norte Energia não informou quanto gastava mensalmente com a OpenAI nem o custo total da infraestrutura adotada. O desenho escolhido é híbrido — dados públicos e aplicações convencionais continuam na nuvem; o processamento de contratos, informações estratégicas de comercialização e registros operacionais ficam no ambiente dedicado.
A decisão também envolveu os critérios de segurança de uma empresa responsável pela infraestrutura do setor elétrico. “Não houve nenhum episódio de vazamento ou incidente de segurança que motivasse essa decisão”, afirma Freitas. Segundo ele, a escolha seguiu uma diretriz preventiva de governança e cibersegurança.
O servidor entra na disputa com a nuvem
A infraestrutura utiliza um servidor Dell PowerEdge R7625, equipado com dois processadores AMD EPYC 9354 e um acelerador gráfico AMD Instinct MI210. A empresa afirma que uma unidade foi disponibilizada para testar e validar as aplicações antes de investimentos maiores.
Ter infraestrutura dedicada também exige dimensionar capacidade, operação, energia e atualização dos equipamentos. Para Luiz Antonio Valentim, líder de Desenvolvimento de Negócios de Inteligência Artificial da Dell Technologies no Brasil, a vantagem econômica depende do uso.
“Não existe um único ponto de corte, porque essa equação depende do tipo de workload, modelo utilizado, intensidade e frequência de uso”, afirma, em referência às cargas de trabalho executadas pelos sistemas.
Na avaliação do executivo, demandas contínuas e de alta utilização podem favorecer o processamento local. A nuvem mantém espaço para experimentação, necessidades variáveis e serviços especializados. A comparação precisa considerar o custo de execução de cada aplicação ao longo do tempo.
Para Valentim, a escolha tende a combinar estruturas diferentes. “Não vemos necessariamente um movimento de saída da nuvem, mas de construção de ambientes híbridos, colocando cada workload onde faz mais sentido”, diz.
Esse mercado já tem peso nos resultados da Dell. No segundo trimestre de seu ano fiscal de 2027, encerrado em julho de 2026, a companhia registrou US$ 16,4 bilhões em receita com servidores otimizados para IA, alta de 100% sobre um ano antes. A projeção para o exercício completo é de US$ 74 bilhões nessa categoria. A empresa não divulga o recorte brasileiro.
Onde a automação já aparece
Na comercialização de energia, a IANE coleta e compila informações divulgadas por órgãos e instituições do setor elétrico para preparar relatórios e resumos. Na frente socioambiental, acompanha sites relevantes e ajuda a equipe a selecionar conteúdos que merecem análise.
É nessa segunda atividade que a Norte Energia viu o maior valor. Segundo a empresa, duas horas poupadas por dia por profissional, equivalentes a cerca de 500 horas anuais. O cálculo se refere ao monitoramento de informações, sem representar uma economia financeira medida para toda a companhia.
A integração depende de ferramentas que conectam os modelos a bancos de dados e sistemas corporativos. A empresa utiliza orquestradores de fluxos, como o n8n, para organizar essas etapas e permitir que a IA participe da execução de processos.
Essa combinação aproxima a plataforma dos agentes de IA, sistemas que utilizam modelos e ferramentas para cumprir objetivos dentro das permissões recebidas. No caso da Norte Energia, o alcance depende da atividade e dos controles definidos pelas equipes.
O processamento local permite executar determinadas tarefas sem dependência contínua da internet. As rotinas que consultam sites e fontes externas continuam precisando de conexão para coletar essas informações.
O próximo investimento ainda depende de avaliação
Os critérios para ampliar a plataforma ainda se concentram nos resultados operacionais. “A Norte Energia ainda não trabalha com uma métrica de ROI financeiro rígida ou consolidada para a IANE”, afirma Freitas, referindo-se ao retorno sobre o investimento. Segundo ele, a avaliação considera redução de atividades manuais, eficiência e agilidade para tomar decisões.
A ampliação também depende de limites de atuação. O diretor afirma que problemas de integridade dos dados, segurança das redes ou desvios não controlados nas automações levariam à interrupção temporária do fluxo afetado para revisão.
Para ele, a responsabilidade permanece com os profissionais das áreas envolvidas. “A IA sugere, automatiza e organiza; o especialista valida e responde pelo resultado”, diz.
