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InvestMercados
17/06/2026
5 min

Por que fim da guerra não ajudou a bolsa? A resposta está dentro do Brasil

Por que fim da guerra não ajudou a bolsa? A resposta está dentro do Brasil

Mesmo após o acordo de paz entre Estados Unidos e Irã, a  bolsa brasileira segue sem encontrar força para avançar. O motivo é que o alívio geopolítico, que em tese deveria favorecer ativos de risco, acabou retirando um dos fatores que vinham sustentando o Ibovespa nas últimas semanas, justamente a alta do petróleo que favorecia a Petrobras.

Para gestores ouvidos pela EXAME, o movimento externo entre os países para pôr fim às hostilidades fez o mercado voltar a olhar para questões que continuam sem solução dentro de casa, como juros elevados, incertezas fiscais, saída de capital estrangeiro e o cenário eleitoral de 2026.

O principal índice da B3 fechou em queda de 0,45% na terça-feira, 16, aos 169.648 pontos. Hoje o mercado aguarda grandes decisões em mais uma "superquarta", quando são definidos os juros pelo Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central do Brasil, e pelo Federal Reserve (Fed), agora sob o comando de Kevin Warsh.

A guerra ajudava mais do que parecia

O sócio da Ethimos Investimentos, Lucas Brigato, vê que a escalada das tensões antes elevou os preços do petróleo, fortaleceu a Petrobras e ainda ajudou a atrair recursos para mercados com juros elevados, como o Brasil. "Eu até achei que a Bolsa viesse para cima e o dólar para baixo, mas acho que é um efeito contrário."

O conflito criou uma dinâmica incomum, já que a valorização do petróleo impulsionava a Petrobras, uma das empresas de maior peso do Ibovespa, enquanto o ambiente de maior cautela global mantinha o interesse de investidores por operações que exploram o diferencial de juros entre países.

"A guerra, surpreendentemente, estava favorecendo para nós aqui. Você via o preço do petróleo subindo, puxava a Petrobras para cima, puxava a bolsa para cima", destaca.

O private banker da Guardian Capital, Leonardo Neto, vai na mesma linha e avalia que o acordo foi importante para os mercados, e ressalta que a Petrobras agora vem caindo justamente por causa desse acordo, ao mesmo tempo em que outros temas passaram a ganhar mais espaço nas decisões dos investidores.

O foco voltou para os problemas domésticos

Se a guerra dominava as manchetes até poucos dias atrás, agora a atenção dos investidores parece, de fato, ter voltado para os fundamentos da economia brasileira. Para o gestor da Ouro Preto Investimentos, Sidney Oliveira, boa parte dos benefícios do acordo já havia sido incorporada aos preços pelo mercado.

"O acordo ajudou a reduzir uma fonte importante de risco para os mercados, mas isso não significa automaticamente uma alta da bolsa, pois, na prática, boa parte da melhora já havia sido precificada pelos investidores nas últimas semanas", reflete.

Na visão dele, a discussão voltou a girar em torno de temas mais estruturais. Entre eles estão as expectativas de inflação, o nível dos juros e os impactos desse cenário sobre a atividade econômica.

"Para mim, a Bolsa não está mais reagindo ao acordo. O foco voltou totalmente para os fundamentos econômicos, e eles ainda indicam juros altos por um período prolongado, crescimento mais moderado e maior incerteza para os próximos anos", diz.

Decisão do Banco Central no centro do radar

Outro fator citado pelos especialistas é a expectativa em torno dos próximos passos da política monetária. Para Leonardo Neto, o mercado acompanha com atenção a decisão do Copom em um momento em que as expectativas inflacionárias seguem elevadas, enquanto a economia dá sinais de perda de fôlego.

Ele diz que a autoridade monetária enfrenta um cenário desafiador, pressionada por uma inflação que continua acima do desejado e por uma atividade econômica que já sente os efeitos do aperto monetário. E a tendência é que investidores adotem uma postura mais cautelosa até que haja maior clareza sobre os próximos passos da Selic.

A eleição começa a aparecer no horizonte

A política também voltou a ganhar espaço nas discussões do mercado. Brigato pontua que o impacto eleitoral ainda é limitado porque as pesquisas continuam mostrando um cenário relativamente equilibrado. Só que, mesmo assim, o tema começa a aparecer com mais frequência nas análises dos investidores.

Já Neto vê uma relação mais direta entre as preocupações fiscais e o debate eleitoral, pois o mercado passou a exigir prêmios maiores nos juros futuros diante da percepção de que o próximo ciclo político poderá influenciar a condução das contas públicas, ou seja, o foco é no fiscal.

O estrangeiro também perdeu entusiasmo

Outro ponto observado pelos gestores é a mudança no fluxo internacional. Apesar de o saldo de recursos estrangeiros na bolsa brasileira ainda permanecer positivo em 2026, o movimento recente mostra uma desaceleração da entrada de capital.

Neto explica que o mercado já acumula várias semanas consecutivas de saída líquida de recursos após um primeiro trimestre marcado por forte interesse dos investidores internacionais pelo Brasil. Dados da B3 mostram que, entre 4 de maio e 15 de junho, o capital externo retirou cerca de R$ 18,2 bilhões da bolsa brasileira.

O especialista observa, ainda, que alguns bancos de investimento internacionais passaram a revisar suas recomendações para o Brasil. Instituições com uma visão mais otimista no início do ano migraram para uma postura mais neutra, refletindo uma avaliação mais cautelosa sobre o cenário à frente.

*Colaboraram Clara Assunção e Paulo Holland

AutorAna Luiza Serrão
FonteExame
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