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Sacre Investimentos
InvestMercados
30/07/2026
5 min

Por que nem a alta de 1.800% no lucro da Samsung impediu a queda da bolsa coreana

Balanço da companhia está mais exposto a chips, que ficaram mais caros e pressionaram a divisão de celulares

Por que nem a alta de 1.800% no lucro da Samsung impediu a queda da bolsa coreana

A Samsung Electronics divulgou nesta quinta-feira, 30, o melhor resultado trimestral de sua história. O lucro operacional do segundo trimestre de 2026 somou 89,5 trilhões de wons (cerca de R$ 305 bilhões), alta de 1.814% na comparação anual e de 56% frente ao trimestre anterior. A receita chegou a 171,5 trilhões de wons (aproximadamente R$ 585 bilhões), avanço de 130% em um ano. Ainda assim, o índice de referência da bolsa sul-coreana fechou em queda.

O Kospi caiu 1,23%, aos 5.593,56 pontos, no terceiro dia seguido de perdas. Foi uma sessão de forte volatilidade: o índice chegou a subir mais de 5% pela manhã, tocando 5.976,82 pontos e ameaçando reconquistar a marca dos 6.000, mas devolveu todo o ganho ao longo da tarde. As próprias ações da Samsung, que avançaram mais de 8% no intradia, terminaram o dia em queda de 0,72%, a 207.000 wons.

O contraste entre um balanço recorde e uma bolsa no vermelho traduz o momento do setor de tecnologia asiático, tomado por dúvidas sobre a sustentabilidade do rali movido por inteligência artificial. Nesta semana, o mesmo receio já havia provocado quedas expressivas em Seul, com a bolsa coreana chegando a cair quase 11% em um único pregão.

Por que o lucro recorde não sustentou a ação

A primeira explicação está na composição do resultado. Praticamente todo o lucro do grupo veio de uma única divisão. A área de semicondutores (Device Solutions) respondeu por 89,2 trilhões de wons (cerca de R$ 304 bilhões) do lucro operacional total de 89,5 trilhões, com margem operacional de 70% sobre a receita do segmento. A divisão de memória isolada faturou 120,8 trilhões de wons (aproximadamente R$ 412 bilhões), alta de 471% em um ano, com recordes de vendas puxadas por servidores de IA.

Essa concentração é justamente o que preocupa os investidores. Com quase a totalidade do lucro atrelada aos preços da memória, o resultado da Samsung fica exposto a qualquer reversão no ciclo da IA. O receio ganhou força ao longo da semana com o avanço de fabricantes chinesas de memória, como a CXMT, que estreou na bolsa e disparou nos últimos pregões, alimentando temores de mais concorrência e pressão sobre as margens sul-coreanas.

A rival SK Hynix também reportou lucro trimestral recorde, mas o número ficou aquém do que analistas esperavam, e a ação desabou 5,64% no dia. Em três pregões, os papéis da SK Hynix acumularam queda de cerca de 27%, arrastando todo o complexo de semicondutores. O movimento derrubou papéis de gigantes de chips na Ásia e na Europa.

Divisão de celulares deu prejuízo

Enquanto a divisão de chips bateu recordes, o outro lado da Samsung sentiu o efeito colateral da própria escassez de memória. A divisão de dispositivos (Device eXperience), que reúne celulares, TVs e eletrodomésticos, registrou prejuízo operacional de 0,8 trilhão de wons (cerca de R$ 2,7 bilhões) no trimestre, ante lucro de 3,3 trilhões um ano antes.

O setor de celulares puxou o tombo, com prejuízo operacional de 0,7 trilhão de wons (aproximadamente R$ 2,4 bilhões), revertendo o lucro de 3,1 trilhões registrado no mesmo período de 2025. A explicação da companhia foi o encarecimento de componentes, sobretudo a própria memória, que ficou mais cara com a demanda por IA e comprimiu a margem dos aparelhos, mesmo com a receita da divisão crescendo na comparação anual.

Não é um problema novo. Desde o início do ano, a Samsung já alertava que a escassez global de memória pressionaria os preços de toda a indústria de eletrônicos, inclusive os seus próprios produtos de consumo. O balanço do segundo trimestre mostrou esse alerta materializado no resultado.

Fatores externos reforçaram a queda

O pano de fundo macroeconômico também pesou. Um salto nos juros dos títulos longos do Tesouro americano e a renovação de tensões geopolíticas no Oriente Médio azedaram o humor dos investidores ao longo da sessão. Na véspera, o Federal Reserve manteve os juros inalterados e sinalizou pouca disposição para cortes, reforçando um cenário de dinheiro caro por mais tempo.

Houve divergência dentro da própria Ásia. Enquanto o Kospi caía, o Nikkei 225, do Japão, subiu 0,71%, sustentado por resultados corporativos e por um movimento mais defensivo em relação ao setor de chips. No fluxo, investidores estrangeiros voltaram a comprar ações coreanas pela primeira vez em quatro pregões, com compra líquida de 1,33 trilhão de wons, mas o movimento não foi suficiente diante da venda de 1,42 trilhão por parte dos investidores pessoa física.

O que a Samsung projeta para o segundo semestre

Para a segunda metade do ano, a companhia manteve o tom otimista para os chips. A expectativa é de demanda robusta por servidores, sustentada pelo investimento contínuo em infraestrutura de IA, com mercado seguindo subofertado apesar de alguma moderação em celulares e PCs. A Samsung destacou ter ampliado as vendas da memória de alta largura de banda HBM4 e enviado as primeiras amostras da HBM4E a grandes clientes, além de avançar no processo de qualificação junto à Nvidia.

A posição de caixa reforça o conforto financeiro. O caixa líquido da companhia subiu para 167,59 trilhões de wons (cerca de R$ 572 bilhões) ao fim de junho, ante 119,24 trilhões em março, com geração de caixa operacional de 105,08 trilhões (aproximadamente R$ 359 bilhões) no trimestre. O retorno sobre o patrimônio (ROE) saltou para 56%, contra 41% no trimestre anterior.

A leitura do mercado, porém, é que boa parte desse cenário já está no preço. Depois de uma valorização expressiva ao longo do ano, o setor de chips coreano passou a operar em modo de realização, sensível a qualquer sinal de que o ciclo de gastos com IA possa perder fôlego.

AutorMitchel Diniz
FonteExame
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