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Bolsa e dólarACSBDR
08/09/2026
5 min

Por que o Bank of America voltou a recomendar a compra de ações brasileiras na contramão de JP Morgan e Morgan Stanley

O BofA está navegando contra outros grandes bancos não só sobre a nossa bolsa, mas também sobre o futuro da Selic; entenda a tese em detalhes

Por que o Bank of America voltou a recomendar a compra de ações brasileiras na contramão de JP Morgan e Morgan Stanley

O Bank of America decidiu içar as velas para o Brasil. Nesta terça-feira (8), o banco elevou a recomendação das ações brasileiras de neutro (marketweight) para compra (overweight), sinalizando para os grandes investidores globais que tenham mais verde e amarelo na carteira.

O movimento chama atenção porque vai contra a maré que dominava Wall Street nas últimas semanas.

Em agosto, o JPMorgan revisou a estratégia para a América Latina e reduziu a recomendação para o mercado brasileiro de compra para neutro, citando a proximidade do fim do ciclo de corte de juros, a desaceleração da economia e a piora do crédito.  

Duas semanas depois, foi a vez do Morgan Stanley rebaixar as ações brasileiras de compra para neutro, citando a deterioração da relação entre risco e retorno no mercado local.  

O rebaixamento do JPMorgan, aliás, não passou em branco: nos pregões seguintes o Ibovespa teve forte debandada do investidor estrangeiro, com 11 quedas consecutivas — a pior sequência do índice desde 2023. 

Agora, enquanto os rivais recolhem as velas, o BofA resolve navegar em direção contrária, ajudando o Ibovespa a ganhar ainda mais tração nesta terça-feira (8).  

Ventos a favor das ações brasileiras

O principal argumento do banco para mudar de rumo é o corte de juros

Diferentemente do que projetavam JPMorgan e Morgan Stanley, o BofA passou a enxergar espaço para um ciclo de afrouxamento monetário mais profundo do que o esperado, puxado pela desaceleração da atividade e por uma inflação mais baixa.  

A nova projeção do banco é de que a Selic termine 2027 em 11,25% ao ano — bem abaixo da estimativa anterior, de 12,75%, e também abaixo dos atuais 14% que o mercado ainda precifica.  

Para 2026, a expectativa é de Selic em 13,25%, patamar que deve se manter em 2028. 

Na visão do banco, essa política monetária mais frouxa deve empurrar as ações para níveis de valuation menos deprimidos — compensando os riscos de revisões para baixo nos lucros, a desaceleração da demanda e a própria incerteza eleitoral.  

Hoje, o Ibovespa (excluindo commodities) é negociado com um desconto de 10% em relação à média histórica: o mar, na leitura do banco, está mais calmo do que o preço sugere. 

A maré do investidor estrangeiro está virando 

Um dos pontos mais interessantes do relatório é a descrição do movimento do capital estrangeiro — que, segundo o BofA, está mudando de direção.  

Nos últimos dez pregões, R$ 6 bilhões ingressaram em ações à vista, revertendo parte dos R$ 20 bilhões que haviam saído nos três meses anteriores.  

O banco atribui esse retorno também a uma acomodação do chamado trade de inteligência artificial (IA) — com o Brasil performando melhor do que Taiwan, Coreia do Sul e os semicondutores norte-americanos no período.  

O BofA cita ainda evidências de cobertura de posições vendidas, o famoso short covering, com as ações mais "shorteadas" do mercado brasileiro superando o desempenho médio desde meados de agosto. 

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A rota latino-americana 

O Bank of America mantém uma visão construtiva para a América Latina como um todo. Confira abaixo um resumo das recomendações do BofA para a região: 

País  Recomendação  Argumento 
México  Underweight (venda)  Atividade fraca, incerteza com revisões anuais do USMCA e preocupações fiscais 
Chile  Marketweight (neutro)  Desconto de valuation ainda relevante frente à média histórica 
Peru  Overweight (compra)  Maior alocação do banco na região, com confiança empresarial no maior nível em cerca de dez anos 
Colômbia  Overweight (compra)  Leve sobrepeso, com agenda de reformas vista como favorável ao mercado 
Argentina  Overweight (compra)  Fora do índice MSCI LatAm, mas favorecida pela agenda de reformas de Javier Milei 
Fonte: Bank of America

A aposta do BofA no Brasil 

Como a Selic ainda deve permanecer elevada por um tempo, o BofA optou por não hastear todas as velas ao mesmo tempo — e equilibrar o aumento de exposição ao país.  

De um lado, reforçou nomes sensíveis a juros: histórias ligadas a mercado de capitais, bond proxies (empresas que se comportam como títulos de renda fixa) e companhias mais alavancadas já presentes na carteira do banco.  

De outro, manteve o apreço por empresas geradoras de caixa, large caps líquidas, com balanços fortes e execução comprovada — a âncora clássica para atravessar um cenário de juros ainda altos sem sustos.   

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Os recifes no caminho 

O próprio BofA reconhece que o principal risco à tese de Brasil é um ciclo de corte de juros menor do que o esperado.  

E o calendário eleitoral já entrou de vez no radar, já que o primeiro turno das eleições está marcado para 4 de outubro, com eventual segundo turno em 25 de outubro.  

A política fiscal segue sendo o principal ponto de atenção do banco, já que a dívida pública crescente exige ajustes — mas a rigidez do orçamento brasileiro limita o espaço para uma consolidação fiscal mais robusta. 

O que isso significa para o seu bolso 

Na prática, o BofA está dizendo que, apesar dos riscos fiscais e eleitorais, o desconto atual das ações brasileiras compensa o risco — especialmente se a Selic cair mais rápido do que o mercado espera. 

É uma leitura diferente da que JPMorgan e Morgan Stanley fizeram há poucas semanas, o que mostra que, mesmo entre os grandes bancos internacionais, não existe consenso sobre a rota da bolsa brasileira.  

AutorCarolina Gama
FonteSeu Dinheiro
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