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Sacre Investimentos
Economia
22/09/2026
4 min

Por que o boom da IA pode dificultar a queda dos juros no Brasil, segundo o Ministério da Fazenda

O boom de investimentos em inteligência artificial (IA) pode produzir um efeito inesperado para economias emergentes como o Brasil: aumentar o custo do dinheiro e reduzir o espaço para cortes de juros. A avaliação consta do Boletim MacroFiscal de setembro, da Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Fazenda. Segundo o documento, o forte […]

Por que o boom da IA pode dificultar a queda dos juros no Brasil, segundo o Ministério da Fazenda

O boom de investimentos em inteligência artificial (IA) pode produzir um efeito inesperado para economias emergentes como o Brasil: aumentar o custo do dinheiro e reduzir o espaço para cortes de juros.

A avaliação consta do Boletim MacroFiscal de setembro, da Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Fazenda. Segundo o documento, o forte ciclo de investimentos em IA está aumentando a demanda por financiamento justamente em um momento de elevada emissão de dívida pelos governos, ampliando a disputa pela poupança disponível no mercado global.

O tamanho desse movimento chama atenção. De acordo com os dados apresentados pela SPE, as emissões de dívida de empresas ligadas à inteligência artificial somaram cerca de US$ 266 bilhões até agosto, quase o dobro do volume registrado em todo o ano de 2025.

Essa corrida por recursos contribui, segundo a Fazenda, para manter elevados os rendimentos dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos, os Treasuries, referência para o custo do dinheiro ao redor do mundo.

Para países emergentes, a consequência pode aparecer na forma de custo de capital mais alto e menor espaço para reduzir os juros domésticos.

Mas o que a inteligência artificial tem a ver com a Selic?

A conexão não é direta, mas passa pelo mercado global de dívida. A expansão da inteligência artificial exige investimentos elevados em data centers, chips, infraestrutura de energia e capacidade computacional. Para financiar parte dessa expansão, empresas recorrem ao mercado de dívida.

Ao mesmo tempo, os governos também precisam captar volumes elevados de recursos. O resultado, na leitura da SPE, é uma competição maior pelo dinheiro no mundo.

Quando aumenta a quantidade de recursos que empresas e governos querem captar, investidores tendem a exigir remunerações mais altas para emprestar seu dinheiro. Esse movimento ajuda a pressionar os juros de longo prazo.

A Fazenda destaca que o rendimento do Treasury de dez anos atingiu o maior nível desde o início de 2025, enquanto o título de 30 anos chegou a superar 5,3%.

O presidente do Federal Reserve (banco central dos EUA), Kevin Warsh, chegou a mencionar essa ligação durante a entrevista após a decisão de política monetária na última quarta-feira (16). Pare ele, os investimentos em IA são parte das razões que justificam os altos rendimentos.

Impacto no Brasil

Os Treasuries são considerados uma referência para os juros globais. Quando esses títulos oferecem retornos maiores, outros países precisam competir com uma remuneração mais atraente oferecida pelos Estados Unidos.

No caso dos emergentes, a SPE aponta dois canais importantes: o prêmio de risco exigido dos ativos e o câmbio.

Com juros americanos de longo prazo mais elevados, investidores podem exigir uma remuneração maior para carregar ativos considerados mais arriscados. Isso eleva o custo de capital para países emergentes e pode gerar pressão sobre suas moedas.

“Para os países emergentes, isso eleva o custo de capital e reduz o espaço para cortes de juros”, afirma a SPE no relatório.

Para o Brasil, a Fazenda ressalta que o impacto vai além do tradicional diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos. O canal relevante também passa pelo prêmio exigido para investir em ativos brasileiros e pela eventual pressão sobre o real.

Em outras palavras, mesmo que a inflaçãoe a atividade domésticas abram espaço para o Banco Centralreduzir a Selic, condições financeiras globais mais apertadas podem funcionar como um obstáculo adicional ao ciclo de cortes.

IA também pressiona preços

O relatório aponta que o ciclo de investimentos em inteligência artificial também começa a gerar pressão sobre determinados preços.

Em um cenário de capacidade limitada na produção de semicondutores e memórias, os preços de importação de computadores e eletrônicos nos Estados Unidos avançaram 7,4% no primeiro semestre de 2026, revertendo uma tendência de queda observada durante décadas.

Assim, na leitura apresentada pela SPE, o boom da IA atua simultaneamente em duas frentes: pressiona custos ligados à tecnologia e aumenta a demanda por financiamento, contribuindo para manter elevados os juros de longo prazo.

Para o Brasil, o resultado é mais uma variável externa no radar em um momento em que o Banco Central já iniciou o processo de redução da Selic.

AutorJuliana Caveiro
FonteMoney Times
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