Por que o CEO do JP Morgan diz que não compraria ações nem títulos hoje

O mercado segue confiante, mas o mandatário de um dos maiores bancos globais não está. O CEO do JP Morgan, Jamie Dimon, disse que não seria comprador nem de ações nem de títulos do Tesouro dos Estados Unidos (Treasuries, em inglês) de longo prazo nos níveis atuais.
Para ele, os investidores estão subestimando riscos que vão de conflitos armados a um desequilíbrio fiscal que já considera praticamente inevitável. As informações foram concedidas em entrevista à CNBC.
Dimon citou as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio, o atrito entre Estados Unidos e China e o crescimento dos gastos militares em um momento de expansão dos déficits públicos. "Eu realmente acho que esses riscos são provavelmente maiores do que outras pessoas pensam."
O otimismo e a incerteza no mercado hoje
O contraste chama atenção porque o discurso de cautela vem logo depois de um trimestre forte para o setor bancário. Na semana passada, tanto o JP Morgan quanto seus pares divulgaram balanços com números fortes. O lucro do banco comandado por Dimon saltou 41%.
O S&P 500 é um dos indicadores que acompanha o otimismo dos dados e acumula alta de quase 10% no ano, sustentado pelo consumo resiliente, pela inflação em processo de moderação e pela adesão generalizada ao tema de inteligência artificial (IA).
Só que é esse comportamento que Dimon questiona. Na visão do executivo, não dá para saber com precisão quanto desses riscos já está refletido nos preços dos ativos. "É possível que algo já esteja embutido, mas o que não está definido de antemão é o que realmente acontece", esclareceu.
Dimon também reconheceu que a economia global ficou mais resiliente por depender menos de energia do que em décadas passadas, mas insistiu que isso não afasta a possibilidade de um ponto de inflexão repentino.
Déficit, juros e ações no radar de Dimon
Ele vê que os déficits orçamentários persistentes dos EUA vão forçar um ajuste de contas mais cedo ou mais tarde, pressionando os juros para cima à medida que os chamados "vigilantes do mercado de títulos", na tradução livre, passem a exigir prêmios maiores para financiar a dívida pública.
"Na minha opinião, isso vai se tornar um problema", acrescentou.
Mesmo que a inflação recue até a meta de 2% do Federal Reserve (Fed), ele estima que o rendimento do título de dez anos deveria permanecer entre 4% e 4,5%, patamar que, na avaliação dele, deixa pouco espaço para valorização dos papéis.
Perguntado diretamente se compraria Treasuries de longo prazo, foi categórico ao dizer que "pessoalmente, não."
A postura em relação à bolsa segue a mesma lógica. Dimon disse que consideraria comprar um papel individual se enxergasse ali "um grande investimento", mas descartou ser comprador do mercado como um todo nos valores de mercado atuais.
Dimon vê retorno com IA, mas prazo incerto
Sobre o ciclo bilionário de investimentos em IA, o tom foi de ceticismo moderado, não de rejeição. "A quantia de dinheiro sendo gasta é enorme. No final das contas, valerá a pena? Provavelmente, assim como aconteceu com a internet".
No entanto, o CEO fez questão de lembrar que, naquele ciclo, nomes que lideravam o mercado no começo, como Yahoo e Netscape, acabaram ficando pelo caminho, enquanto vencedores como Google e Facebook só se consolidaram anos depois.
Quanto ao retorno dos investimentos feitos hoje em IA, foi direto ao dizer que o resultado não deve vir da forma nem no prazo que o mercado espera.
