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Sacre Investimentos
Economia
27/06/2026
4 min

Por que o Desenrola é um 'paliativo', segundo este economista

Por que o Desenrola é um 'paliativo', segundo este economista

O programa de renegociação de dívidas Desenrola do governo federal, que, como mostrou a EXAME, recentemente teve sua segunda edição em formato ampliado para MEIs, mascara problemas mais profundos da economia brasileira: o juro estruturalmente alto, uma população com alto nível de endividamento e a penetração massiva das apostas esportivas na rotina nacional. Na prática, diz Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados e colunista da EXAME, a iniciativa é um 'paliativo'.

"A inadimplência está alta, construída ao longo desses últimos anos com juros elevados e um consumidor que está consumindo como se não houvesse amanhã e tem dificuldade de pagar as contas", afirmou Vale na entrevista especial da edição de junho da revista EXAME.

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Ele complementou:

"O que o governo faz, como fez no primeiro ano do terceiro mandato? O Desenrola. Funcionou: na minha estimativa, caiu 3,5 pontos percentuais a inadimplência da população mais pobre."

Em seus cálculos, esse 'paliativo' dura aproximadamente 18 meses. Depois, retoma-se o nível anterior de inadimplência.

"Faz-se uma coisa para ajudar a população ali no curto prazo, ela vai pagar a conta, mas você não muda estruturalmente a situação para ela deixar de se endividar novamente", disse o economista.

Cenário estrutural

Para Vale, porém, o problema vai muito além do endividamento conjuntural que programas de renegociação conseguem aliviar temporariamente. Há fatores estruturais corroendo a capacidade de consumo das famílias brasileiras — e dois deles se destacam hoje: o patamar persistentemente elevado dos juros e o avanço acelerado das apostas esportivas (bets) no orçamento doméstico.

"Há duas coisas aqui. Uma é a situação dos juros, que estão caros. Outra é a questão das bets. Nesse caso, um problema é que não temos informação consistente desses números, de quem e como está gastando", afirmou o economista.

Embora ainda faltem dados consistentes no Brasil sobre o impacto econômico das plataformas de apostas, o economista aponta que os sinais já começam a aparecer em diferentes setores da economia. Segundo ele, a ausência de estatísticas detalhadas impede um diagnóstico preciso, mas experiências internacionais ajudam a dimensionar o tamanho potencial do problema.

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Nos Estados Unidos, exemplifica, onde o mercado de apostas esportivas foi regulamentado antes e já acumula mais estudos sobre o tema, os efeitos sobre famílias de baixa renda têm chamado atenção. Vale cita pesquisas americanas que mostram deterioração patrimonial, aumento do uso de crédito e avanço da inadimplência entre as camadas mais vulneráveis.

"As bets afetam muito quem é mais pobre. Quem é mais pobre, por exemplo, perdeu 15% da sua renda de vida, do seu investimento de vida por conta de bets nos EUA. Você aumenta o uso do cartão de crédito e acaba ficando inadimplente no cartão de crédito", disse.

Lula durante vídeo de anúncio de nova fase do Desenrola (Reprodução/Reprodução)

Na avaliação dele, ainda que o Brasil careça de estatísticas equivalentes, é razoável supor que fenômeno semelhante esteja em curso por aqui, agravando um quadro que já era pressionado pelo custo elevado do crédito.

No fim, diz Vale, o quadro reforça um velho problema da economia brasileira: sem enfrentar o desequilíbrio fiscal estrutural, o país continuará convivendo com juros persistentemente altos — e, consequentemente, com um ciclo contínuo de endividamento das famílias. "Para os juros caírem, é a velha história, que ogoverno insiste em não aceitar mas infelizmente é a realidade, de que se não fizer um [ajuste] fiscal decente, esses juros não caem", afirmou.

O desafio, afirma, é justamente o país que emergirá desse cenário em 2027, independentemente de quem vencer a eleição presidencial: uma economia pressionada por desequilíbrio fiscal, custo elevado de capital e um consumidor cada vez mais fragilizado financeiramente.

AutorLuciano Pádua
FonteExame
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