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Sacre Investimentos
Future of MoneyCPTO
16/08/2026
5 min

Por que o futuro da inovação pertence a quem controla a infraestrutura?

O dinheiro do venture capital voltou, mas a dificuldade é conseguir atraí-lo, e o mercado mostra o caminho

Por que o futuro da inovação pertence a quem controla a infraestrutura?

Por José Claudio Filho*

A história da corrida do ouro da Califórnia guarda uma ironia conhecida: os poucos que ficaram ricos de verdade não foram os garimpeiros, mas os que venderam picaretas, pás e calças jeans. Cento e setenta anos depois, o venture capital global parece ter redescoberto essa lição. No primeiro semestre de 2026, o dinheiro deixou de perseguir quem promete achar ouro e passou a apostar em quem fabrica as ferramentas para achá-lo.

Nesse período, o venture capital global bateu recorde histórico de US$ 498 bilhões investidos, uma alta de US$ 234,3 bilhões em relação ao segundo semestre de 2025, segundo a CB Insights. À primeira vista, os dados indicam a foto de um mercado em plena retomada. Mas, ao observar melhor para onde esse dinheiro está indo, a conclusão é outra: mais do que uma recuperação, estamos vendo uma mudança estrutural na forma como a inovação passa a ser financiada.

A pista está na hiperconcentração desse capital. Os dados mostram que, enquanto o volume de investimentos disparou, o número de rodadas se manteve praticamente estável em relação ao primeiro semestre de 2025. Ou seja, entra mais dinheiro, mas ele está sendo distribuído para praticamente a mesma quantidade de negócios. Somente OpenAI e Anthropic juntas responderam por mais de US$ 217 bilhões em captação, o que representa pouco mais de 40% do funding global destinado a apenas dois atores. Na prática, isso mostra que o desafio do mercado deixou de ser a disponibilidade de capital e passou a ser a capacidade de atraí-lo.

Dinheiro está migrando para a infraestrutura

Esse movimento sinaliza uma mudança profunda no destino do capital. Por mais de uma década, o mercado financiou softwares digitais e escaláveis. Agora, uma parte relevante do dinheiro está migrando para negócios que exigem uma infraestrutura física e lógica, como inteligência artificial, chips, data centers, supercomputação, robótica e sistemas aeroespaciais. Isso significa que não basta criar uma boa aplicação ou uma solução digital na ponta. Cada vez mais, será necessário controlar ou ter acesso às bases que permitem essas soluções funcionarem, como capacidade de processamento, dados, tecnologia, logística e sistemas integrados.

A IA passou a ser a base sobre a qual todo o restante será construído. É uma corrida por capacidade instalada que, naturalmente, favorece quem já tem escala e poder de fogo financeiro para sustentar operações caras. E embora valuations elevados alimentem o receio de uma bolha em empresas que ainda operam no prejuízo, o movimento em direção à infraestrutura é real e irreversível no curto prazo.

No Brasil, o ecossistema acompanha essa lógica de concentração, mas com características próprias. Por aqui, o valor investido caiu 17% entre o segundo semestre de 2025 e primeiro semestre de 2026. No mercado brasileiro, a inovação está menos associada ao investimento tradicional em troca de participação societária, conhecida como equity, e mais em alternativas de financiamento ligadas à engenharia financeira.

O grande protagonista nacional do semestre, principalmente no primeiro trimestre, não foi o venture capital tradicional, mas sim o FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios). Esse tipo de fundo permite transformar recebíveis, como valores que uma empresa tem a receber no futuro, em uma fonte de financiamento no presente. Na prática, é uma forma das empresas captarem recursos sem necessariamente vender uma parte do negócio para investidores.

Esse modelo tem ganhado força porque permite que empresas cresçam sem diluir a participação dos sócios. Em vez de depender apenas da entrada de novos investidores no capital da companhia, o crescimento passa a estar ligado à qualidade da carteira de clientes, à previsibilidade dos recebimentos e à capacidade de gerar crédito de forma recorrente. Bancos e instituições financeiras têm papel importante nesse processo, ajudando a estruturar operações que viabilizam aportes relevantes em empresas de diferentes setores.

Essa dinâmica financeira encontra seu par perfeito na economia brasileira, mais especificamente nas pequenas e médias empresas (PMEs). Se no cenário global o capital passou a privilegiar negócios com maior previsibilidade de escala e infraestrutura crítica, no Brasil ele foca na infraestrutura de negócios para PMEs, um mercado de alta fricção e enorme demanda reprimida por crédito.

Não por acaso, os aportes foram dominados por soluções de gestão, pagamentos e crédito digital embarcado. A próxima onda de inovação nacional não está no aplicativo voltado ao consumidor final, mas na base que sustenta o dia a dia de quem move a economia.

Inteligência artificial

Outro ponto de destaque fica para o uso da IA agêntica como camada transversal entre os diferentes setores. A tese aparece em temas como o jurídico, crédito, saúde, indústria, marketing, segurança pública e operações corporativas, indicando que a IA é a infraestrutura do negócio e não um produto isolado.

Diante desse cenário, fundos, nativos digitais e incumbentes convergem para a mesma direção. Os fundos agora financiam sistemas e infraestrutura de dados. Os nativos digitais atuam como consolidadores, usando fusões e aquisições para verticalizar serviços, como vimos em movimentos recentes. Já os bancos assumem o papel de estruturadores desse ecossistema, viabilizando a escala de fintechs via FIDCs em nichos como agronegócio e PMEs.

O fio condutor que une todas essas pontas é a convergência. IA, crédito, dados, logística e pagamentos deixam de ser verticais separadas e passam a operar de forma integrada. O venture capital foi reconfigurado. O crescimento das empresas agora se apoia em três pilares claros: infraestrutura, eficiência e escala.

Seguir o dinheiro é entender uma inversão de valor. Vence o jogo quem controla a base sobre a qual todos os outros operam. Cento e setenta anos depois da Califórnia, a regra continua a mesma: o ouro muda de nome a cada ciclo, mas o dinheiro sempre acaba no bolso de quem vende a pá.

*José Claudio Filho é gerente de Inteligência de Negócios e Inovação do Bradesco (Inovabra)

AutorDa Redação
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