Por que o Ibovespa acumula alta em julho e quais fatores podem limitar esse movimento

O Ibovespa (IBOV) voltou a acumular alta modesta em julho, com avanço de 0,76% no mês até o fechamento desta terça-feira (21), após quatro meses consecutivos de queda. Um fator contribuiu para a alta: o retorno do investidor estrangeiro para a B3.
Até 17 de julho, os estrangeiros ingressaram com R$ 4,713 bilhões na bolsa brasileira. No dia, houve entrada de R$ 2,362 bilhões pelos investidores externos, e o Ibovespa fechou com queda de 0,06%, aos 173.714,08 pontos.
Na avaliação dos analistas consultados pelo Money Times, o cenário macroeconômico doméstico, o desconto da bolsa, as incertezas quanto ao rali de inteligência artificial (IA) no exterior e o breve alívio no conflito no Oriente Médio favoreceram a retomada do fluxo estrangeiro.
De acordo com o estrategista de ações da Genial Investimentos, Filipe Villegas, a recuperação de julho, até o momento, é menos uma virada de tese e mais o encontro entre preço barato e um pouco menos de ruído. “O mês de julho começou, portanto, com valuation descontado, juro real ainda próximo de 8% e um investidor estrangeiro que nunca deixou de fato a bolsa brasileira”, diz.
Para Villegas, o investidor entra na B3 atraído pelo carry trade, com o real sustentado e o câmbio na casa de R$ 5,10, além da concentração de apostas nos papéis mais líquidos, como bancos, Petrobras (PETR4) e exportadoras de commodities.
Além disso, após os dados mais fracos de varejo e serviços e os números mais benignos de inflação, a curva de juros futuros voltou a precificar um corte à frente na taxa Selic. “A inflação projetada no Boletim Focus caiu pela terceira semana seguida para 2026 e o índice de preços ao consumidor nos Estados Unidos também veio mais benigno”, complementa o estrategista da Genial.
Na mesma linha, o sócio e analista da Ajax Asset, Rafael Passos, considera que o alívio na curva de juros favoreceu a bolsa brasileira em julho, favorecido pelos dados macroeconômicos e o contexto geopolítico. Antes, o mercado tinha voltado a precificar uma Selic terminal em 2026 acima dos 14%.
Para o sócio da Ajax Asset, os investidores avaliaram que houve certo “arrefecimento” nas tensões geopolíticas no começo do mês, com os preços do petróleo mais baixos no período aliviando a curva de juros futuros, principalmente de emergentes.
Outro fator que, na avalição de Villegas, contribuiu para a entrada do estrangeiro na bolsa brasileira é a realização do setor de tecnologia nos Estados Unidos, com o mercado à espera pelos balanços de big techs nesta semana.
“Quando 82% dos investidores acompanhados pelo Bank of America estão no mesmo trade de semicondutores, a porta de saída fica estreita. Parte desse capital que sai de um momentum concentrado e caro procura mercados descontados, e o Brasil se beneficia dessa margem”, explica Villegas.
Riscos para o IBOV
O problema é que a alta acumulada em julho no Ibovespa ainda tem uma margem estreita, e é justamente aí que moram os riscos, na avaliação de Villegas, da Genial Investimentos.
“O fluxo entra concentrado em blue chips, e a rotação para small caps e para as ações mais ligadas à economia doméstica ainda não aconteceu, porque o investidor local continua preso à renda fixa por conta do juro real elevado. Isso torna o movimento frágil”, explica o estrategista de ações.
De acordo com ele, quatro fatores podem ir contra o Ibovespa: um deles é o balanço de tecnologia que favorece momentaneamente a bolsa brasileira. Na avaliação de Villegas, caso os dados do guidance, investimentos (capex) e margens decepcionem, a IA deixa de ser uma rotação favorável ao Brasil e vira um contágio de aversão a risco global.
“O segundo é o risco fiscal, o contraponto de sempre, que voltou ao centro do debate com crédito fora do arcabouço, um pacote de R$ 145 bilhões e a discussão sobre subsídios. Qualquer leitura de gasto parafiscal tende a pressionar a curva longa e enfraquecer o real”, afirma.
O terceiro risco são os títulos do Tesouro dos Estados Unidos: os Treasuries. Com a alta do Treasury de 10 anos, o dólar segue firme e limita o fluxo para emergentes, segundo Villegas. “Com o petróleo na faixa de US$ 90, a inflação norte-americana retorna ao debate e o espaço de corte, tanto do Federal Reserve quanto do Comitê de Política Monetária, diminui”, diz.
Além disso, Villegas diz que o fator eleitoral já está no radar dos investidores, uma vez que as convenções partidárias e a judicialização da disputa recolocam 2026 no prêmio de risco doméstico.
“Em resumo, o desconto é real, o fluxo estrangeiro é o combustível e a realização em tech abre uma janela de oportunidade, mas o movimento ainda depende de catalisadores claros, como a confirmação do corte da Selic e a disciplina fiscal”, explica, acrecentando que, enquanto isso não se concretizar, a bolsa sobe pelas exportadoras e bancos, em vez de uma convicção ampla na bolsa brasileira.
