Por que o mercado não está otimista com os frigoríficos nos Estados Unidos

O ciclo das proteínas nos Estados Unidos ficou mais difícil — e o Santander não vê uma virada rápida para os frigoríficos.
Em relatório assinado pelos analistas Guilherme Palhares, Laura Hirata e Ulises Argote, o banco afirma ter incorporado uma visão mais negativa sobre o ciclo do gado nos EUA até 2028 e rebaixou as recomendações de JBS e Pilgrim’s Pride para neutra, mantendo também visão neutra para a Tyson Foods.
A principal preocupação está na carne bovina. A oferta apertada de gado nos EUA segue pressionando as margens dos frigoríficos, enquanto a recomposição do rebanho deve levar mais tempo do que o esperado.
A revisão ocorre em um momento em que os frigoríficos americanos enfrentam um dos períodos mais difíceis do ciclo pecuário nos EUA, com aumento de custos e margens apertadas.
Desde 2019, o número de cabeças de gado de corte caiu 13%, para 27,9 milhões. Já o rebanho bovino total dos Estados Unidos atingiu o menor nível desde 1952, segundo dados do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).
A seca prolongada no oeste americano agravou o cenário ao elevar os custos com ração e reduzir áreas de pastagem, levando produtores a liquidar parte dos rebanhos para preservar o caixa.
Em 2025, a produção americana de carne bovina recuou 4% em relação ao ano anterior, para 11,8 milhões de toneladas. Com isso, os Estados Unidos perderam para o Brasil a liderança global na produção da proteína.
Nesse contexto, os preços dacarne bovina nos EUA vêm acumulando sucessivos recordes. Desde 2020, a valorização chega a 75%, segundo dados do Federal Reserve de St. Louis.
Segundo o USDA, os preços da proteína estão 16% acima dos níveis registrados há um ano, tornando a carne bovina um dos principais símbolos da inflação persistente no país, especialmente na temporada de churrascos de verão por lá.
Com isso, o Santander incorporou uma visão mais negativa para o mercado de bovinos nos Estados Unidos e agora espera que esse ciclo permaneça desfavorável até 2028.
“O ciclo do gado nos Estados Unidos tem sido uma preocupação-chave dos investidores, e esperamos que continue negativo até 2028”, dizem os analistas.
Nesse cenário, o Santander reduziu a recomendação de Outperform para Neutral para as ações da JBS e cortou o preço-alvo para o fim de 2027 de US$ 17 para US$ 15,20.
“Nos tornamos mais cautelosos com a ação diante do momento negativo dos resultados”, afirmam os analistas. Segundo eles, “a piora dos fundamentos na maior parte dos negócios nos levou a reduzir estimativas em toda a companhia”.
A Pilgrim’s Pride, controlada pela JBS, também foi rebaixada de Outperform para Neutral.
O banco afirma que, embora a ação tenha valuation atrativo, a recuperação dos preços do frango nos EUA está demorando mais do que o previsto.
“Apesar da avaliação atraente, acreditamos que a ação carece de catalisadores de curto prazo e enfrenta uma perspectiva desafiadora de resultados”, diz o relatório.
Outro fator que passou a preocupar o Santander é o avanço da mosca-da-bicheira do Novo Mundo no Texas, principal região produtora de carne dos EUA, especialmente pelos impactos sobre o transporte de animais vindos do México.
Segundo os analistas, embora a doença não seja transmitida pela carne nem pelo contato direto entre bovinos, sua disseminação pode dificultar o transporte de animais, elevar os custos de biossegurança e tratamento e restringir o fluxo de gado vivo, especialmente entre o México e os EUA.
"Se o surto se espalhar, o impacto de curto prazo provavelmente seria uma disponibilidade mais apertada de gado para engorda, maiores custos de inspeção e tratamento, interrupções nas colocações em confinamento e preços potencialmente mais altos do gado vivo", afirma o relatório.
Na avaliação do banco, o avanço da praga pode atrasar ainda mais a reconstrução do rebanho americano e prolongar o atual ciclo de oferta restrita de bovinos.
Frango também perdeu força
O cenário para aves ajuda a explicar a cautela. O Santander diz que o pico de crescimento da oferta de frango nos EUA parece ter ficado para trás, mas os preços ainda não reagiram como esperado.
No segundo trimestre de 2026, os preços seguiam cerca de 10% abaixo do mesmo período do ano anterior.
“Embora esperemos que o consumo se recupere no terceiro trimestre, apoiado por preços recordes da carne bovina, a oferta de frango em câmaras frias aumentou mês a mês desde abril, indicando que a oferta provavelmente cresce à frente da demanda”, afirmam os analistas.
Para a Tyson Foods, o Santander manteve recomendação neutra e elevou o preço-alvo de US$ 64 para US$ 69, mas sem entusiasmo.
O banco avalia que a boa performance da divisão de frango já está refletida no preço da ação. “Vemos espaço limitado para revisões positivas de resultados e/ou uma reprecificação”, diz o relatório.
Fechando as portas
Nem tudo é negativo. O Santander vê como positivo o movimento de fechamento de plantas nos EUA, incluindo a unidade da JBS em Souderton, na Pensilvânia, prevista para agosto de 2026.
A planta representa cerca de 6% da capacidade da JBS Beef North America e 2% da capacidade total de abate dos EUA.
Considerando fechamentos anunciados por JBS, Tyson e Cargill, o Santander estima uma redução líquida de cerca de 5% na capacidade de abate bovino dos EUA. Esse ajuste pode reduzir a competição por gado em algumas regiões e ajudar a proteger margens no médio prazo.
