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Mundo
09/10/2026
5 min

Por que o Nobel da Paz é entregue na Noruega? Entenda a origem do prêmio

Criado por Alfred Nobel, o prêmio é concedido por um comitê norueguês desde 1901; os motivos da escolha permanecem incertos

Por que o Nobel da Paz é entregue na Noruega? Entenda a origem do prêmio

O Nobel da Paz nasceu da última vontade de Alfred Nobel, empresário e inventor sueco que morreu em 1896 e deixou uma das maiores fortunas privadas de sua época. Em seu testamento, ele determinou que os 31,5 milhões de coroas suecas que havia acumulado fossem investidos em títulos seguros e que os rendimentos fossem distribuídos anualmente em prêmios a quem tivesse proporcionado o maior benefício à humanidade.

Nobel estabeleceu cinco áreas de premiação: física, química, fisiologia ou medicina,literatura e paz.

Para o Nobel da Paz, definiu-se como destinatário a pessoa que tivesse realizado o melhor ou o mais importante trabalho em favor da fraternidade entre as nações, da abolição ou da redução dos exércitos permanentes e da realização e difusão de congressos pela paz.

A escolha dos responsáveis pela premiação também foi determinada por Nobel. Enquanto os demais prêmios ficariam a cargo de instituições suecas, o da Paz seria concedido por um comitê de cinco integrantes, escolhido pelo Parlamento da Noruega, o Storting. A instituição aceitou a missão em abril de 1897 e criou o comitê em agosto do mesmo ano.

Por que na Noruega?

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Não é claro o porquê da ligação entre o Prêmio Nobel e a Noruega, mas tradição segue viva até hoje (Stanko Gruden / Agence Zoom/Getty Images)

A razão pela qual Nobel separou o prêmio da paz dos demais e o entregou à Noruega, porém, nunca foi explicada por ele. Segundo Geir Lundestad, ex-secretário do Comitê Nobel Norueguês, há apenas hipóteses baseadas no contexto político e pessoal do empresário.

Uma delas é que Nobel pode ter sido influenciado pelo fato de a Suécia e a Noruega ainda formarem uma união política, que só terminaria em 1905.

Outra possibilidade é que ele considerasse a Noruega mais voltada à resolução pacífica de disputas internacionais e mais democrática do que a Suécia naquele período, além de reconhecer o interesse do Parlamento norueguês por questões de paz na década de 1890.

Nobel também tinha admiração pela literatura norueguesa e, em particular, pelo escritor Bjørnstjerne Bjørnson, conhecido por seu ativismo pacifista. Lundestad considera possível que uma combinação desses fatores tenha influenciado a decisão, mas ressalta que não há uma explicação definitiva para a escolha.

Na Suécia, o testamento provocou uma longa disputa judicial e familiar. O conflito entre parte dos herdeiros e a administração da fortuna precisou ser resolvido antes que as instituições responsáveis pudessem efetivamente começar a distribuir os prêmios. Em 1900, a criação da Fundação Nobel permitiu organizar os recursos e colocar em prática o projeto deixado por Nobel.

Os primeiros prêmios foram entregues em 1901. Naquele ano, o Nobel da Paz foi dividido entre o francês Frédéric Passy, defensor do pacifismo e da arbitragem internacional, e o suíço Jean Henry Dunant, fundador da Cruz Vermelha e uma das principais figuras da criação das Convenções de Genebra.

Ao longo do século seguinte, o conceito de paz reconhecido pelo prêmio foi se ampliando.

Além de esforços diretos para encerrar guerras ou aproximar governos, o Nobel passou a destacar iniciativas relacionadas a direitos humanos, liberdade política, democracia, combate à fome, desarmamento nuclear e proteção de populações atingidas por conflitos.

Vencedores da última década

Maria Corina Machado: a líder da oposição venezuelana é a vencedora do Nobel da Paz de 2025 (PEDRO MATTEY/AFP)

A última década ilustra essa transformação. Em 2016, o prêmio foi concedido ao ex-presidente colombiano Juan Manuel Santos por seus esforços para encerrar a guerra civil que durava há mais de cinco décadas no país.

A premiação, todavia, não é apenas para indivíduos; em 2017, o vencedor foi uma organização: a Campanha Internacional para Abolir as Armas Nucleares, reconhecida por sua mobilização contra o uso desse tipo de armamento.

Em 2018, uma dupla: Denis Mukwege e Nadia Murad foram premiados por sua luta contra o uso da violência sexual como arma de guerra. No ano seguinte, o reconhecimento foi concedido ao primeiro-ministro etíope Abiy Ahmed por seus esforços de paz e de cooperação internacional, especialmente pela solução do conflito fronteiriço com a Eritreia.

Em 2020, o Programa Mundial de Alimentos, outra organização, recebeu o Prêmio Nobel por seu combate à fome e pelo trabalho em regiões afetadas por conflitos. Em 2021, Maria Ressa e Dmitry Muratov foram reconhecidos por sua defesa da liberdade de expressão, considerada pelo comitê uma condição para a democracia e para uma paz duradoura.

A dimensão dos direitos civis e da democracia ganhou ainda mais força nos anos seguintes. Em 2022, Ales Bialiatski, a organização russa Memorial e o Centro para as Liberdades Civis da Ucrânia foram premiados por sua defesa da sociedade civil e pela documentação de abusos de poder e de crimes de guerra.

Em 2023, o prêmio foi concedido à iraniana Narges Mohammadi por sua luta contra a opressão das mulheres e em defesa dos direitos humanos.

Em 2024, o Nobel voltou ao tema nuclear ao premiar a organização japonesa Nihon Hidankyo, formada por sobreviventes das bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki, por seu trabalho em prol de um mundo sem armas nucleares. Em 2025, o prêmio foi concedido àvenezuelana María Corina Machado por sua atuação na defesa dos direitos democráticos e de uma transição pacífica do país para a democracia.

Mais de um século após a primeira cerimônia, o Prêmio Nobel da Paz preserva a estrutura imaginada por Alfred Nobel, mas sua interpretação se expandiu.

A própria trajetória dos vencedores mostra como a ideia de paz deixou de se limitar à ausência de guerra entre Estados e passou a incluir as condições políticas e sociais necessárias para que as sociedades sejam mais livres, estáveis e capazes de evitar novos conflitos.

AutorMatheus Gonçalves
FonteExame
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