Por que o ouro sobe em tempos de guerra? CEO da mineradora mais antiga do Brasil explica

Quando a incerteza aumenta, investidores costumam correr para um velho conhecido do mercado financeiro: o ouro. Guerras, inflação, crises econômicas e instabilidade política fazem o metal ganhar protagonismo por ser considerado um dos principais ativos de proteção do mundo (safe haven), capaz de preservar valor em momentos de turbulência.
Foi o que aconteceu nos últimos anos. A guerra entre Rússia e Ucrânia, os conflitos no Oriente Médio, a persistência da inflação global e as dúvidas sobre o ritmo da economia americana impulsionaram a cotação do ouro, que atingiu níveis recordes no mercado internacional.
Para empresas do setor, no entanto, a valorização do metal não pode ser confundida com uma garantia de bons resultados.
"A premissa da AngloGold Ashanti é sempre não focar no preço do ouro. Os nossos planos são de longo prazo. O ouro tem uma flutuação de preço e a gente não pode depender disso. A gente tem que depender da nossa eficiência operacional, da disciplina de custos e da produtividade", afirma Luiz Otávio de Lima, CEO da AngloGold Ashanti Latam, em entrevista exclusiva ao podcast De Frente com CEO, da EXAME.
Fundada no Brasil em 1834, ainda durante o Império, a AngloGold Ashanti é considerada a empresa em operação contínua mais antiga do país. Hoje integra um grupo global com 11 operações distribuídas entre África, Austrália, Brasil e Argentina, que produziu cerca de 3,1 milhões de onças de ouro em 2025.
“A América Latina responde por aproximadamente 16% da produção mundial, mas por 26% do fluxo de caixa livre da companhia, reflexo da eficiência operacional das operações brasileiras e argentinas”, afirma Lima.
O ouro como porto seguro
Em momentos de crise, investidores tendem a reduzir exposição a ativos considerados mais arriscados, como ações, e migrar parte do patrimônio para aplicações mais conservadoras. Nesse cenário, o ouro costuma ganhar espaço por manter liquidez global e não depender da saúde financeira de um governo ou empresa específica.
Além dos investidores privados, bancos centrais também ampliaram as compras do metal nos últimos anos para reforçar reservas internacionais, contribuindo para a valorização da commodity.
Segundo Lima, esse comportamento faz parte da dinâmica histórica do mercado, mas não altera o planejamento da companhia.
"O ouro tem uma flutuação de preço. Questões econômicas, guerras e crises acabam impactando a cotação, mas os nossos planos são desenhados para o longo prazo", afirma.
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Guerra aumenta custos, mas não a produção
Apesar da alta do ouro favorecer a receita do setor, os conflitos internacionais também trazem efeitos negativos para a operação.
Segundo o CEO da AngloGold Ashanti Latam, a guerra no Oriente Médio ainda não provocou impactos na logística nem na produção da companhia, mas elevou custos importantes da operação, principalmente combustíveis e outras commodities utilizadas na mineração.
"Até o momento, não tivemos impacto em produção ou logística devido à guerra. Tivemos impacto de custo, sim, principalmente pelo preço do diesel e de algumas commodities que ficaram acima do que projetamos para o ano", diz.
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Crescimento baseado em eficiência
Em vez de apostar na continuidade da valorização do ouro, a estratégia da AngloGold Ashanti é aumentar produtividade.
Para este ano, a meta é elevar a produção das operações de Minas Gerais para 290 mil onças, acima das 273 mil onças registradas em 2025. O foco também permanece na exploração de novos corpos minerais dentro das áreas onde a companhia já possui direitos de mineração.
Globalmente, a AngloGold Ashanti registrou US$ 9,9 bilhões em receita em 2025. Apenas no primeiro trimestre de 2026, o grupo alcançou US$ 1,2 bilhão em fluxo de caixa livre, alta de 190% na comparação anual.
Para Lima, empresas de mineração precisam pensar em décadas, não em ciclos de alta da commodity.
"O grande diferencial da AngloGold Ashanti é entregar exatamente o que promete. Isso mostra que temos uma operação estável, conhecimento geológico, disciplina operacional e um planejamento de longo prazo. É essa credibilidade que sustenta o nosso negócio há quase dois séculos."
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