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Sacre Investimentos
Economia
02/11/2026
6 min

Por que o possível encontro de Lula com um dos pais do Plano Real deixou o mercado financeiro em alerta

Possível aproximação do presidente com o economista André Lara Resende reacende debate sobre os rumos da política econômica, diante de propostas para reduzir a Selic na canetada e usar reservas internacionais no controle do câmbio

Por que o possível encontro de Lula com um dos pais do Plano Real deixou o mercado financeiro em alerta

A possibilidade de um encontro entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o economista André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, acendeu um sinal de alerta no mercado financeiro nesta semana.

O motivo não está no currículo do economista, que também já presidiu o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), mas em algumas de suas propostas para a condução da economia brasileira.

Lara Resende defende uma mudança na política monetária do país, com uma redução expressiva da taxa básica de juros (Selic) e uma atuação mais coordenada entre o Banco Central (BC) e o governo federal. A estratégia também prevê o uso das reservas internacionais para conter uma eventual desvalorização do real.

A proposta, que defende uma atuação maior do governo na política econômica e prevê um certo controle estatal da taxa básica de juros é vista como bastante heterodoxa e é bem diferente do que se vê hoje no Brasil, onde o Banco Central é independente para estabelecer a meta de juros.

A possível reunião entre Lula e André Lara Resende repercutiu em meio às expectativas sobre a composição da equipe econômica do próximo mandato presidencial e os rumos da política fiscal.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, porém, negou que haja uma reunião agendada entre Lula e Lara Resende. Ele também afirmou que o governo não discute nenhuma proposta de tabelamento dos juros.

Apesar disso, a possibilidade de o governo considerar as ideias do economista já foi suficiente para provocar apreensão entre agentes do mercado financeiro.

O que André Lara Resende propõe para a economia brasileira?

As ideias do economista estão detalhadas no artigo Eu Acuso: uma proposta para eliminar os juros absurdos, publicado em setembro de 2026 em seu Substack.

No texto, Lara Resende argumenta que o principal problema das contas públicas brasileiras não está nos gastos do governo, mas no custo elevado dos juros da dívida pública.

Na avaliação dele, a manutenção de uma Selic elevada aumenta o valor que o governo precisa desembolsar para remunerar seus credores. Isso, por sua vez, contribui para ampliar o endividamento do país e dificulta o equilíbrio fiscal.

A partir desse diagnóstico, Lara Resende propõe criar um Conselho Fiscal e Monetário Nacional. O órgão definiria metas conjuntas para as políticas fiscal e monetária em um período de quatro a cinco anos.

Na prática, a proposta prevê estabelecer uma faixa para a taxa básica de juros. A Selic ficaria entre 3% e 5,5% ao ano, de acordo com a meta de inflação e o potencial de crescimento da economia.

A redução seria gradual. O Banco Central levaria cerca de 12 meses para baixar a taxa até 7,5% ao ano. Depois, avançaria até o intervalo proposto.

Proposta preocupa economistas

Críticos, porém, levantam os riscos dessa estratégia. Uma redução dos juros determinada por uma nova regra, na base da canetada, sem garantias de equilíbrio fiscal e controle da inflação, poderia produzir o efeito contrário ao desejado.

Em um vídeo publicado nas redes sociais neste domingo (1º), Felipe Miranda, ex-CEO da Empiricus, classificou a proposta de Lara Resende como um “tiro no pé”.

“Tenho muito respeito e admiração pelo André Lara Resende como intelectual e economista, que teve uma importância histórica. Mas acho a proposta muito ruim”, afirmou.

Para Miranda, a redução dos juros pode gerar consequências contrárias ao objetivo inicial da medida. “É um dos típicos problemas em que se ignoram as consequências indesejadas. Os efeitos de segunda ordem são muito maiores e mais intensos, sobrepujam os efeitos de primeira ordem e você acaba atirando no próprio pé. O efeito final é contrário àquele inicialmente projetado”, explicou.

Por que a redução dos juros 'na marra' acendeu alerta no mercado?

A Selic é o principal instrumento de política monetária do Banco Central para controlar a inflação. Em linhas gerais, quando os preços sobem e as expectativas inflacionárias se deterioram, a autoridade monetária pode elevar os juros para encarecer o crédito, desestimular o consumo e reduzir a pressão sobre os preços.

O movimento contrário também tem consequências. Quando a taxa básica cai, o crédito tende a ficar mais barato e o consumo e os investimentos podem ganhar impulso.

Entretanto, se a redução ocorrer em um ritmo incompatível com as condições da economia, a demanda pode crescer acima da capacidade de oferta de produtos e serviços, pressionando a inflação.

Há ainda outro canal de transmissão importante para o Brasil: o câmbio. Quando os juros brasileiros ficam menos atrativos em relação aos de outros países, investidores podem retirar recursos do mercado nacional e buscar aplicações no exterior. A saída de dólares tende a pressionar a cotação da moeda americana para cima e desvalorizar o real.

Um dólar mais caro, por sua vez, encarece produtos importados, combustíveis, insumos e outros itens que fazem parte da cadeia de produção nacional. O resultado pode ser uma pressão adicional sobre a inflação.

É nesse ponto que entra outra parte da proposta de Lara Resende: utilizar as reservas internacionais brasileiras para conter movimentos mais intensos de desvalorização cambial.

O papel das reservas internacionais na proposta

As reservas internacionais são recursos em moeda estrangeira mantidos pelo Banco Central para proteger a economia brasileira de turbulências externas e dar condições de atuação no mercado de câmbio.

Atualmente, o Brasil possui um estoque de aproximadamente US$ 363 bilhões em reservas, segundo dados do Banco Central referentes a setembro de 2026.

Lara Resende considera que esse montante seria suficiente para absorver eventuais pressões cambiais provocadas pela redução dos juros. Na prática, o BC poderia vender dólares no mercado para evitar uma desvalorização muito acentuada do real.

O risco, porém, é que essa estratégia exija intervenções frequentes e consuma uma parcela significativa das reservas internacionais, o que seria grave para a estabilidade econômica.

As reservas internacionais robustas do Brasil foram uma das grandes conquistas econômicas do país após a redemocratização, junto com o controle da inflação.

Um colchão de dólares significativo permite à nação absorver choques externos e ataques especulativos, além de não deixá-la sujeita a calotes na dívida externa.

Essa, inclusive, é uma das principais críticas feitas pela economista Ana Paula Vescovi, ex-economista-chefe do Santander e ex-secretária do Tesouro Nacional, que publicou uma análise sobre a proposta em seu perfil no LinkedIn.

"Ter dólares para intervir é diferente de demonstrar que a intervenção será suficiente, temporária e sustentável. Reservas são o seguro externo do país. Transformá-las no cheque especial de uma aposta monetária é uma temeridade", escreveu a economista.

Vescovi também chama a atenção para a possibilidade de investidores residentes no Brasil buscarem proteção em dólares diante da expectativa de uma desvalorização do real. Nesse cenário, a demanda pela moeda americana poderia aumentar mesmo sem uma saída expressiva de capital estrangeiro.

"Intervenções para responder a disfuncionalidades temporárias nos mercados (liquidez) são até legítimas. Se a pressão cambial for persistente, porém, a suavização pode virar venda recorrente de reservas", complementou.

Na avaliação da economista, as reservas internacionais funcionam como uma proteção contra crises externas e não deveriam ser utilizadas como principal instrumento para sustentar uma política de juros artificialmente baixos.

AutorSara Magalhães
FonteSeu Dinheiro
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