Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
InvestMercadosCMDT
21/09/2026
4 min

Por que o preço do diesel sobe mais que o do petróleo — e até onde ele vai

Guerra no Oriente Médio, ataques a refinarias e menor oferta de derivados pressionam o mercado; nos EUA, diesel já supera US$ 5 por galão

Por que o preço do diesel sobe mais que o do petróleo — e até onde ele vai

O preço do diesel está subindo em um ritmo que não acompanha apenas a variação do petróleo bruto. O descompasso está no refino: as guerras no Oriente Médio e na Ucrânia atingiram unidades de processamento, interromperam rotas de transporte e reduziram a oferta de derivados, fazendo as margens das refinarias dispararem.

Análise da Gavekal, assinada por Louis Gave, aponta que os spreads de refino estão em níveis recordes. É esse movimento que ajuda a explicar por que o diesel pode encarecer mais rapidamente que sua principal matéria-prima.

O petróleo representa o ponto de partida da cadeia, mas o preço do combustível incorpora ainda o custo e a disponibilidade do refino, além de biodiesel, distribuição, revenda e impostos.

No Brasil, opreço médio do diesel S-10 ao consumidor estava em R$ 6,97 por litro, segundo a Petrobras, com dados coletados entre 6 e 12 de setembro. Desse valor, R$ 2,83 correspondiam à parcela da Petrobras; R$ 1,87 à distribuição e revenda; R$ 1,17 ao biodiesel; R$ 0,78 ao imposto estadual; e R$ 0,32 aos impostos federais.

Nesta segunda-feira, 21, o petróleo Brent é negociado a US$ 99,86 por barril. Com o dólar cotado a R$ 5,12, o valor equivale a cerca de R$ 511,28 por barril, ou aproximadamente R$ 3,22 por litro de petróleo bruto equivalente.

A conta não corresponde ao preço do diesel no posto, mas ajuda a visualizar a diferença entre a matéria-prima e o produto final — e, principalmente, o peso que o refino ganhou na formação dos preços.

Por que o diesel dispara mais?

O petróleo é apenas a matéria-prima. Para chegar ao tanque, ele precisa ser refinado, transformado em derivados e transportado.

Quando a capacidade de refino é reduzida, o preço do derivado passa a refletir não só a cotação do barril, mas também a escassez de capacidade para processá-lo. É esse componente adicional que ajuda a acelerar a alta do diesel.

A Gavekal aponta ataques a refinarias no Bahrein, em Israel, no Kuwait e no Irã. Naguerra da Ucrânia, as dez maiores refinarias russas foram alvo de ataques de drones, enquanto as principais refinarias ucranianas já haviam sido destruídas por ataques russos.

Janiv Shah, vice-presidente da Rystad Energy, disse à AFP que existe capacidade de refino que poderia ser usada “no papel”, mas pouco desse volume pode ser ativado rapidamente e abastecido com o petróleo adequado.

A China também pesa sobre a oferta

Outro fator é a redução da capacidade chinesa de exportar derivados. Segundo a Gavekal, pequenas refinarias independentes de Shandong, as chamadas “teapots”, passaram a ter dificuldade para obter petróleo iraniano a preços muito abaixo do mercado.

Em 2025, antes da guerra com o Irã, a China exportava em média 1,2 milhão de barris por dia de derivados de petróleo. Com a redução dessa oferta, outros mercados ficam mais expostos à escassez.

É por isso que uma queda do petróleo bruto não necessariamente significa queda imediata do diesel. Nesta segunda-feira, o Brent recuava 3,86%, para US$ 99,86, mas os preços do diesel permaneciam em níveis recordes em mercados como Estados Unidos e França.

Nos EUA, a média nacional chegou a US$ 6,52 por galão, segundo a Associação Automobilística Americana. Na França, o diesel alcançou 2,41 euros por litro no domingo.

Por que o mercado não consegue aumentar a oferta rapidamente?

O problema é que novas refinarias não entram em operação de uma hora para outra. Além disso, a demanda por diesel cai lentamente porque setores como transporte rodoviário, agricultura, construção, mineração e indústria têm poucas alternativas imediatas.

Segundo Shah, isso torna a demanda relativamente pouco sensível aos preços no curto prazo.

A Agência Internacional de Energia, citada pela AFP, alerta que, se a oferta do Golfo continuar restrita e os estoques comerciais seguirem caindo, preços mais altos e uma redução adicional da demanda podem ser necessários para reequilibrar o mercado.

Por isso, o atual movimento do diesel é diferente de uma simples alta do petróleo. Há menos barris disponíveis, mas também menos capacidade para transformar esses barris em combustível. Quando o gargalo se concentra no refino, a margem dessa etapa dispara e o diesel pode subir mais rapidamente que o próprio petróleo.

AutorPaloma Lazzaro
FonteExame
Distribuído por