Por que o Reino Unido teve 7 líderes em uma década?

Durante a última década, o Reino Unido vem passando por um período de instabilidade política sem precedentes. Desde o referendo sobre o Brexit, que retirou o Reino Unido da União Europeia, seis premiês renunciaram ao cargo.
De acordo com um artigo publicado pelo think tank Council on Foreign Relations (CFR), essa volatilidade se deve às incertezas econômicas, à polarização e a escândalos pessoais envolvendo os líderes.
Apesar de ocupar a posição de liderança no governo, o premiê britânico ainda é membro do Parlamento, e seu mandato depende diretamente do apoio que consegue manter.
Com um simples voto de perda de confiança, por exemplo, o mandatário perde o poder. No caso de Keir Starmer, que renunciou em junho, seu partido sofreu perdas significativas nas eleições locais e viu uma série de ministros se demitirem, o que minou sua reivindicação ao cargo, menos de dois anos após tomar posse em uma vitória eleitoral esmagadora.
Seu sucessor, Andy Burnham, deve ser formalmente apontado e assumir o cargo hoje, dia 20, tornando-se o sétimo premiê nos últimos 10 anos. Relembre os últimos líderes britânicos e acompanhe os motivos pelos quais deixaram o cargo, segundo análise do CFR.
David Cameron (mai. 2010 – jun. 2016)
Ex-premiê britânico, David Cameron (Carl Court/Getty Images)
David Cameron assumiu o governo britânico em meio aos efeitos da crise financeira global e formou a primeira coalizão de governo desde a Segunda Guerra Mundial, unindo o Partido Conservador aos Liberal-Democratas. Após conquistar a maioria absoluta nas eleições de 2015, tornou-se o primeiro líder conservador em mais de duas décadas a governar sem depender de alianças parlamentares.
Seu mandato, porém, ficou marcado pelo Brexit, aponta o CFR. Defensor da permanência do Reino Unido na União Europeia, Cameron alertava que deixar o bloco representaria um ato de "autossabotagem econômica" e defendia reformar a UE em temas como imigração, competitividade, governança econômica e soberania britânica. Em fevereiro de 2016, convocou um referendo sobre a permanência do país no bloco. Após 52% dos eleitores votarem pela saída, renunciou ao cargo no dia seguinte ao resultado.
Theresa May (jul. 2016 – jul. 2019)
Ex-premiê Theresa May, a segunda mulher no cargo (Toby Melville/Getty Images)
Theresa May tornou-se a segunda mulher a ocupar o cargo de primeira-ministra do Reino Unido. Nos primeiros anos de governo, sua administração registrou queda da dívida pública, aumento do emprego e reduções no imposto de renda para milhões de britânicos.
Sua gestão, entretanto, enfrentou sucessivas crises políticas. Em 2018, autorizou a participação britânica, ao lado dos Estados Unidos e da França, em ataques contra o regime sírio de Bashar al-Assad após denúncias do uso de armas químicas, sem consultar previamente o Parlamento. No mesmo período, viu a ministra do Interior, Amber Rudd, renunciar em meio às críticas à política migratória conhecida como hostile environment, implementada quando May comandava a pasta.
O maior desafio de seu governo foi negociar a saída do Reino Unido da União Europeia. Incapaz de obter a aprovação parlamentar para os acordos do Brexit, May renunciou em julho de 2019.
Boris Johnson (jul. 2019 – set. 2022)
Boris Johnson, centro de escândalos (Toby Melville/Getty Images)
Boris Johnson chegou ao poder após se destacar como um dos principais críticos da condução do Brexit por Theresa May. Em janeiro de 2020, conseguiu aprovar um novo acordo de retirada e concluiu oficialmente a saída do Reino Unido da União Europeia.
Seu governo, contudo, foi marcado por escândalos. Johnson enfrentou críticas pela condução de denúncias de assédio sexual envolvendo um parlamentar conservador e pelo chamado Partygate, revelação de que ele, integrantes do gabinete e assessores participaram de festas durante o período de restrições impostas pela pandemia de Covid-19. O episódio fez dele o primeiro primeiro-ministro britânico em exercício a ser considerado infrator da lei. Diante da renúncia em massa de ministros e aliados, deixou o cargo em setembro de 2022.
Liz Truss (set. — out. 2022)
Liz Truss: terceira mulher a liderar o Reino Unido teve menor mandato da história (Anna Moneymaker/Getty Images)
Liz Truss assumiu o governo após ocupar diferentes cargos ministeriais nas administrações de Cameron, May e Johnson. Seu mandato durou apenas 49 dias, o mais curto da história britânica.
A gestão foi interrompida por dez dias devido ao falecimento da rainha Elizabeth II, mas acabou ruindo após a apresentação de um "mini-orçamento" que previa dezenas de bilhões de libras em cortes de impostos sem fontes de financiamento. O plano provocou uma forte turbulência nos mercados financeiros, derrubando a libra esterlina e elevando os juros dos títulos públicos, levando Truss a renunciar em outubro de 2022.
Rishi Sunak (out. 2022 – jul. 2024)
O primeiro-ministro britânico, Rishi Sunak, se tornou o primeiro de etnia asiática a liderar o país (AFP/AFP Photo)
Rishi Sunak foi escolhido pelo Partido Conservador poucos dias após a saída de Liz Truss. Aos 42 anos, tornou-se o primeiro britânico de origem asiática e o primeiro integrante da geração millennial a ocupar o cargo de primeiro-ministro.
Durante menos de dois anos no poder, enfrentou uma economia enfraquecida, além dos impactos da guerra na Ucrânia e dos conflitos no Oriente Médio. Em uma decisão considerada arriscada, convocou eleições gerais antecipadas para julho de 2024, apostando em sinais de recuperação econômica. A estratégia fracassou: o Partido Trabalhista conquistou uma vitória expressiva, encerrando 14 anos consecutivos de governos conservadores. Sunak renunciou logo após o resultado.
Keir Starmer (jul. 2024 – jul. 2026)
Keri Starmer, que renunciou mês passado (Andy Rain/EFE/EPA)
Keir Starmer assumiu o governo prometendo promover uma "renovação nacional" no Reino Unido após mais de uma década de administrações conservadoras. Sua gestão, entretanto, foi marcada por dificuldades políticas e desgaste dentro do próprio Partido Trabalhista.
Entre as principais controvérsias esteve a nomeação de Peter Mandelson para o cargo de embaixador britânico nos Estados Unidos, apesar das ligações já conhecidas do político com o financista Jeffrey Epstein. Starmer demitiu Mandelson no fim de 2025, após documentos divulgados pelo Departamento de Justiça dos EUA indicarem que ele havia omitido informações sobre a relação com Epstein.
A crise política se aprofundou após o fraco desempenho do Partido Trabalhista nas eleições locais de maio de 2026, que intensificou disputas internas. Assumindo a responsabilidade pelo resultado, Starmer anunciou sua renúncia, encerrando um período de pouco menos de dois anos à frente do governo.
