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InvestMercados
27/10/2026
5 min

Por que o Tesouro está comprando de volta os próprios títulos após a eleição

Juros dos títulos públicos dispararam após a reeleição de Lula; Tesouro Direto chegou a suspender negociação por volatilidade

Por que o Tesouro está comprando de volta os próprios títulos após a eleição
  • O Tesouro faz nesta terça-feira, 27, um leilão para recomprar até 4 milhões de títulos atrelados à inflação, com vencimentos em 2030, 2035, 2040 e 2045
  • O leilão de LFT previsto para hoje foi cancelado, e a semana fica sem nenhum leilão de venda de títulos públicos
  • É o terceiro leilão de recompra desde domingo. Na segunda, o Tesouro recomprou R$ 14,8 bilhões em títulos
  • A taxa do prefixado com vencimento em 2031 passou de 12,86% para 15,79% ao ano entre os leilões de 22 e 26 de outubro

O Tesouro Nacional voltou a intervir no mercado de títulos públicos nesta terça-feira, 27. Em comunicado, o órgão informou o cancelamento do leilão de LFT, título atrelado à Selic, previsto para hoje, e a realização de um leilão de recompra de NTN-Bs, os papéis corrigidos pela inflação que o investidor pessoa física conhece no Tesouro Direto como Tesouro IPCA+.

Segundo o edital, a recompra vale para os vencimentos de 2030, 2035, 2040 e 2045, com limite de 1 milhão de títulos para cada um. As propostas serão recebidas das 11h às 11h30, e o resultado será divulgado pelo Banco Central a partir das 11h45. Só participam as instituições credenciadas como dealers do Tesouro.

É o terceiro leilão de recompra desde domingo, 25, dia do segundo turno das eleições. Na segunda-feira, o Tesouro já havia cancelado os leilões de títulos prefixados e atrelados à inflação previstos para a semana e mantido apenas o de LFT, agora também cancelado. Com isso, não haverá leilões de venda de títulos públicos nesta semana.

Nos dois comunicados, o Tesouro afirmou que "continuará monitorando as condições de mercado" e que vai atuar para assegurar o bom funcionamento do mercado de títulos públicos.

Quanto o Tesouro já recomprou

Na segunda, foram dois leilões de recompra. No de títulos prefixados (NTN-F), o Tesouro ofereceu comprar até 15 milhões de papéis e recomprou 8,4 milhões, num total de R$ 7,1 bilhões. No de títulos atrelados à inflação (NTN-B), a oferta foi de até 3 milhões, e o Tesouro recomprou 1,76 milhão, o equivalente a R$ 7,7 bilhões. Somadas, as duas operações chegaram a R$ 14,8 bilhões.

Antes desta semana, os últimos leilões de recompra do Tesouro tinham sido feitos em março deste ano.

Quanto pagam os títulos públicos

Na quinta-feira, 22, o Tesouro vendeu NTN-Fs com vencimento em 2031 a 12,86% ao ano. Na segunda, recomprou o mesmo título a 15,79%, quase 3 pontos percentuais acima. Os papéis de 2033 e 2037 foram recomprados a 15,61% e 15,37%.

Nos títulos atrelados à inflação, a alta também foi forte. Em 20 de outubro, o Tesouro vendeu NTN-Bs com vencimento em 2033 a IPCA + 6,77%. Na recompra de segunda, a NTN-B de 2030 saiu a IPCA + 7,75% e a de 2035, a IPCA + 7,72%.

A volatilidade também afetou o Tesouro Direto. Na segunda, a plataforma informou que estava fechada para negociação pela manhã "devido à alta volatilidade nas taxas de juros dos títulos públicos". Nesta terça, a plataforma abriu normalmente. A tabela abaixo mostra as taxas exibidas no Tesouro Direto às 10h desta terça-feira.

Título Rentabilidade anual
Tesouro Prefixado 2029 14,88%
Tesouro Prefixado 2032 15,06%
Tesouro Prefixado com Juros Semestrais 2037 14,93%
Tesouro IPCA+ 2032 IPCA + 7,84%
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais 2037 IPCA + 7,92%
Tesouro IPCA+ 2040 IPCA + 7,78%
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais 2045 IPCA + 7,55%
Tesouro IPCA+ 2050 IPCA + 7,16%
Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais 2060 IPCA + 7,34%
Tesouro Selic 2031 Selic + 0,10%

Fonte: Tesouro Direto, às 10h de 27/10/2026

Por que o Tesouro compra de volta os próprios títulos

Em condições normais, o Tesouro vende títulos toda semana para financiar a dívida pública. Em momentos de estresse, ele inverte o papel e passa a comprar.

Quando a taxa de um título sobe, o preço dele cai. Em tese, taxas mais altas deveriam atrair compradores, já que o investidor garante uma rentabilidade maior. A dificuldade aparece quando a alta é rápida demais e ninguém sabe onde ela vai parar.

Bancos e gestoras trabalham com limites de perda e de volatilidade. Quando os títulos caem forte, esses limites podem obrigar os fundos a reduzir posições, mesmo que o preço pareça atrativo. Cotistas que veem o fundo de renda fixa no vermelho também podem pedir resgate, e o gestor precisa vender papéis para pagar. Do outro lado, quem tem dinheiro para comprar tende a esperar, com medo de entrar cedo e ver a taxa subir ainda mais.

O resultado é um mercado com muitos vendedores e poucos compradores. Ao entrar como comprador, o Tesouro oferece liquidez e ajuda a conter a alta das taxas. O cancelamento dos leilões de venda segue a mesma lógica, porque reduz a quantidade de títulos novos ofertados num momento de demanda fraca.

O que muda para quem investe no Tesouro Direto

Os leilões de recompra são feitos apenas com as instituições credenciadas, e o investidor pessoa física não participa diretamente. Para quem já tem títulos e pretende levá-los até o vencimento, a rentabilidade contratada na compra não muda.

A diferença aparece para quem precisa vender antes do prazo. Por causa da marcação a mercado, a alta das taxas reduz o valor de resgate antecipado dos títulos prefixados e atrelados à inflação. Se as taxas voltarem a cair, parte dessa perda pode ser recuperada.

AutorMitchel Diniz
FonteExame
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