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InvestMercados
07/11/2026
9 min

Por que o Texas virou epicentro do temor que derrubou as bolsas nos EUA durante a semana

Vitória democrata nas midterms, nesta semana, reacendeu o risco de moratórias e novas restrições para o setor

Por que o Texas virou epicentro do temor que derrubou as bolsas nos EUA durante a semana
RESUMO +

A vitória dos democratas nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos elevou nesta quinta-feira, 5, o temor de restrições à construção de data centers e derrubou as bolsas de Nova York. Segundo o banco de investimentos Goldman Sachs, moratórias estaduais e municipais podem afetar 45% da expansão planejada, com o Texas responsável por cerca de 25%.

A vitória dos democratas nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos virou motivo de preocupação em Wall Street um dia depois de impulsionar as bolsas do país. O temor é que o avanço do partido abra caminho para restrições à construção de data centers, especialmente no Texas, que concentra cerca de 25% da expansão planejada dessa infraestrutura no país, de acordo com o Goldman Sachs.

O temor ganhou força na quinta-feira, 5, quandoas bolsas de Nova York registraram fortes perdas, com pressão concentrada nas empresas de tecnologia e semicondutores. O Nasdaq despencou 5,52%, aos 24.315 pontos, entrando em território de correção. O S&P 500 recuou 4,36%, enquanto o Dow Jones perdeu 3,44%.

A onda de vendas também chegou a outros mercados, como o Brasil. O Ibovespa chegou a abrir em alta o pregão, mas a recuperação foi interrompida e o índice encerrou o dia com uma queda de 0,82%, aos 166.191 pontos, enquanto o dólar avançou 0,67%, a R$ 5,489.

No centro dessa mudança de humor está o Texas. O estado, que há anos se tornou um dos principais destinos dos investimentos em infraestrutura tecnológica nos EUA, foi uma das disputas eleitorais mais importantes para o setor.

A democrata Gina Hinojosa venceu a corrida pelo governo estadual, com uma campanha que incluiu a promessa de impor restrições à expansão dos centros de dados. A vitória pode dar aos democratas instrumentos para dificultar a aprovação de novos empreendimentos justamente em uma região que concentra uma parcela expressiva dos projetos previstos para os próximos anos.

Um relatório do Goldman Sachs aponta que as vitórias democratas em governos estaduais e municipais podem resultar em moratórias temporárias que afetariam aproximadamente 45% da capacidade de expansão planejada de data centers nos Estados Unidos. O Texas, sozinho, responde por cerca de 25% desse total.

A preocupação dos investidores, portanto, não se limita a uma mudança de orientação política em Washington. Ela envolve a possibilidade de que decisões tomadas em estados e municípios alterem o ritmo de implantação de uma infraestrutura que sustenta boa parte das expectativas de crescimento das empresas de tecnologia e dos investimentos em inteligência artificial.

Por que o Texas é tão importante

O peso do Texas nessa discussão está diretamente relacionado à concentração de projetos de data centers no estado. Essas estruturas, que abrigam servidores e equipamentos necessários para armazenar dados, treinar modelos de inteligência artificial e executar aplicações digitais, demandam grandes quantidades de eletricidade e água. Sua expansão também exige investimentos em geração e transmissão de energia, além de licenças e aprovações ambientais.

À medida que a corrida pela inteligência artificial acelera, a infraestrutura necessária para sustentar essa tecnologia passou a enfrentar maior resistência de comunidades e autoridades locais.

Uma das principais preocupações é que o consumo de energia dos data centers pressione a rede elétrica e provoque aumento das tarifas para os demais consumidores, caso os custos adicionais de geração, transmissão e distribuição sejam repassados às contas de luz.

É justamente nesse ponto que a eleição no Texas ganha relevância. Além de eleger Hinojosa para o governo estadual, os democratas também conquistaram uma vaga na Comissão Ferroviária do Texas, a Texas Railroad Commission, o órgão estadual que integra a estrutura regulatória do setor de energia.

Em relatório sobre os desdobramentos eleitorais, o UBS BB destaca que Hinojosa terá controle executivo e administrativo sobre as agências estaduais.

"Uma das principais promessas de campanha estava relacionada aos data centers. Com o controle executivo e administrativo sobre as agências estaduais, a democrata poderá emitir determinações para suspender ou desacelerar os processos de licenciamento e análise de instalações que aguardam aprovação", afirmou o banco.

A instituição pondera, contudo, que há uma limitação importante, já que os republicanos continuam controlando o Legislativo estadual. Isso significa que, embora a nova governadora possa atuar sobre os processos administrativos, a criação de regras permanentes dependerá de legislação.

Por outro lado, o resultado eleitoral e a insatisfação dos eleitores com os efeitos da expansão dos data centers podem abrir espaço para alguma convergência entre o Executivo democrata e os parlamentares republicanos.

O Goldman Sachs também vê a possibilidade de que os novos governadores democratas do Texas, da Geórgia e de Michigan adotem moratórias condicionais, suspendendo temporariamente novos projetos até que sejam aprovadas leis com restrições à expansão desses empreendimentos.

"Essa legislação poderia eliminar determinados incentivos fiscais — uma das prioridades de Hinojosa —, tornar mais rigorosas as regras ambientais e as exigências relacionadas ao uso da água e da eletricidade, além de facilitar a adoção de moratórias próprias por governos locais", disse o banco.

O Goldman acredita, porém, que os data centers "não figuraram entre as principais prioridades dos eleitores nesta eleição". E esperams "que o tema perca parte de sua importância nos próximos meses e que essas moratórias não tenham longa duração, caso sejam implementadas", complementou.

O risco vai além da construção de novos data centers

A preocupação do mercado também passa pelo modelo econômico desses empreendimentos. Para que as empresas de tecnologia continuem ampliando seus negócios deinteligência artificial, é necessário construir centros de processamento de dados em escala suficiente para atender à demanda por treinamento e execução de modelos.

Qualquer restrição à instalação dessas estruturas pode comprometer a disponibilidade de capacidade computacional e, consequentemente, afetar o ritmo de investimentos e as expectativas de retorno das empresas envolvidas na corrida pela IA.

O UBS BB chama a atenção para o fato de que os governos locais já vinham ampliando a resistência à construção dessas instalações antes mesmo das eleições. Desde janeiro de 2013, foram anunciadas 529 moratórias municipais sobre a construção de data centers nos Estados Unidos. Desse total, 415 continuavam em vigor no momento da elaboração do relatório. O banco também aponta que houve um aumento expressivo no número de anúncios em 2026.

Além da construção física, os estados começam a intensificar o escrutínio sobre os próprios modelos de inteligência artificial. Para o UBS, restrições à implementação e à utilização dessa tecnologia podem reduzir a viabilidade econômica dos centros de dados destinados ao treinamento e à execução dos modelos.

A XP Investimentos também identifica adisputa em torno da IA, dos data centers e da energia como uma das principais frentes de impacto das eleições sobre as empresas americanas. O relatório destaca que governadores eleitos de estados como Texas, Geórgia, Michigan e Novo México fizeram promessas de moratórias durante as campanhas.

A corretora pondera, porém, que ainda se trata de compromissos eleitorais, e não de medidas efetivamente implementadas. Na avaliação da XP, o impacto projetado no curto prazo é limitado, e o risco mais relevante recai sobre a capacidade de expansão em 2028, e não em 2027.

"O risco de data centers é algo a administrar", afirma a XP ao apresentar sua avaliação para o mercado americano. A instituição mantém uma visão construtiva para o S&P 500 e para a inteligência artificial, mas considera que os investidores precisarão acompanhar a evolução das regras estaduais e os efeitos sobre os projetos de infraestrutura.

Restrição federal é mais difícil

Apesar da dimensão das preocupações, os bancos fazem uma distinção importante entre o que pode acontecer nos estados e o que seria necessário para impor restrições em âmbito nacional.

No Congresso americano, os democratas conquistaram maioria tanto na Câmara quanto no Senado, mas isso não significa que tenham liberdade para aprovar qualquer legislação. No Senado, a maior parte dos projetos precisa de pelo menos 60 votos para superar a possibilidade de obstrução parlamentar. Além disso, Trump continua na Casa Branca e pode vetar propostas aprovadas pelos congressistas.

É por isso que o Goldman Sachs considera pouco provável que o resultado eleitoral altere substancialmente, no âmbito federal, as perspectivas para a regulação dos data centers e da inteligência artificial. "Será necessário apoio bipartidário para ser aprovada no Senado e superar um eventual veto presidencial", destaca o banco ao avaliar a possibilidade de novas regras federais para o setor.

O UBS BB também aponta a ausência de consenso entre republicanos e democratas sobre a melhor maneira de supervisionar odesenvolvimento da inteligência artificial. Enquanto propostas democratas defendem uma supervisão federal obrigatória e até uma pausa no desenvolvimento de sistemas avançados, a administração Trump tem preferido uma abordagem voluntária, voltada à inovação e à segurança.

Isso não significa, contudo, que não existam pontos de convergência entre os partidos. Um exemplo é a discussão sobre quem deve arcar com os custos adicionais de energia provocados pelos grandes consumidores.

O chamado Ratepayer Protection Act, projeto de proteção aos consumidores de energia, foi aprovado na Câmara dos Representantes por 417 votos a 3. A proposta buscava estabelecer mecanismos para que grandes consumidores, como data centers, assumissem os custos de geração, transmissão e melhorias na rede elétrica necessários para atender à demanda de suas instalações.

No Senado, entretanto, o texto recebeu 57 votos favoráveis e 43 contrários, ficando abaixo dos 60 necessários para avançar. Os democratas defendiam mecanismos de fiscalização mais rigorosos.

Para o UBS, esse tipo de proposta pode voltar à discussão, inclusive com alternativas que exijam que os própriosdata centers financiem melhorias na rede, divulguem seu consumo de recursos e forneçam parte da energia necessária às operações.

A XP, por sua vez, considera que a principal disputa está nos estados, e não em Washington. O relatório destaca que os próximos desdobramentos no Texas serão particularmente importantes, como o relatório do operador da rede elétrica do estado, previsto para dezembro, e a sessão legislativa de janeiro devem ajudar a dimensionar os riscos para os projetos.

AutorClara Assunção
FonteExame
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