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EXAME AgroCMDT
07/07/2026
5 min

Por que os EUA querem fechar o cerco contra a carne bovina do Brasil

Por que os EUA querem fechar o cerco contra a carne bovina do Brasil

O setor de carne bovina dos Estados Unidos voltou a pressionar o presidente Donald Trump para ampliar as barreiras contra as importações brasileiras. Durante uma audiência promovida nesta segunda-feira, 6, pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR), entidades que representam pecuaristas defenderam que a carne bovina brasileira deixe de ser exceção no pacote de novas tarifas comerciais proposto pelo governo.

No mês passado, o USTR recomendou uma tarifa ampla de 25% sobre produtos brasileirosapós concluir uma investigação comercial de 11 meses. A proposta, no entanto, preservou a carne bovina e outros produtos agrícolas, numa tentativa da Casa Branca de evitar um aumento ainda maior dos preços dos alimentos nos Estados Unidos.

A decisão provocou reação imediata da indústria pecuária americana. "É a crescente penetração das importações do Brasil e de outros países que está causando danos irreparáveis à indústria pecuária dos Estados Unidos", afirmou Bill Bullard, CEO da R-CALF USA, entidade que representa produtores de gado americanos, na segunda-feira.

Segundo Bullard, isentar a carne bovina brasileira das novas tarifas "aumentaria significativamente os volumes de importação, que já estão crescendo rapidamente e comprometem os sinais de preço e a confiança de que os pecuaristas americanos precisam para expandir sua produção".

A United States Cattlemen's Association (USCA), outra importante entidade do setor, também pediu ao governo Trump que imponha tarifas e restrições sobre todos os produtos bovinos brasileiros, incluindo carne, cortes e miúdos.

A associação argumenta que a pecuária brasileira opera com vantagens competitivas consideradas "injustas", relacionadas a desmatamento, trabalho forçado e falhas em rastreabilidade e governança. Por isso, defende o endurecimento das barreiras comerciais até que o Brasil demonstre avanços nessas áreas.

No primeiro semestre de 2026, o Brasil exportou 205 mil toneladas de carne bovina para o mercado americano, volume 13% superior ao registrado no mesmo período de 2025. Os Estados Unidos se consolidaram como o segundo principal destino da proteína brasileira, segundo dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec).

O avanço das importações brasileiras ocorre em um momento delicado para a pecuária americana.

Desde 2019, o rebanho de gado de corte dos Estados Unidos encolheu 13%, para 27,9 milhões de cabeças. O rebanho bovino total do país atingiu o menor nível desde 1952, segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).

A seca prolongada no oeste americano elevou os custos com alimentação animal e reduziu as áreas de pastagem, levando muitos produtores a liquidar parte dos rebanhos.

Como consequência, a produção de carne bovina caiu 4% em 2025, para 11,8 milhões de toneladas, permitindo que o Brasil assumisse a liderança mundial na produção da proteína.

Ao mesmo tempo, os preços da carne continuam em níveis recordes. Segundo dados do Federal Reserve de St. Louis, a carne bovina acumula alta de 75% desde 2020.

De acordo com o USDA, os preços estão atualmente 16% acima dos registrados há um ano, tornando a proteína um dos principais focos da inflação de alimentos nos Estados Unidos.

Bullard afirma que o aumento das importações não conseguiu conter essa escalada.

"Entre 2023 e 2025, os preços da carne bovina subiram 41%, mesmo com o forte aumento das importações provenientes do Brasil. Se as importações fossem realmente capazes de reduzir os preços, isso já seria visível no mercado. E não é", disse.

Segundo o site Politico, Bullard afirmou durante a audiência que ampliar os investimentos na expansão do rebanho americano é a forma mais eficaz de reduzir os preços ao consumidor. Na avaliação dele, maiores volumes importados reduzem o incentivo econômico para que os produtores aumentem a oferta doméstica.

As acusações dos pecuaristas americanos foram contestadas pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

Durante a audiência, a diretora-adjunta de Relações Internacionais da entidade, Fernanda Carneiro, afirmou que a carne brasileira não compete diretamente com a americana, mas complementa a oferta em um momento de escassez.

"Não temos produtos concorrentes, mas complementares", afirmou. Segundo ela, a pecuária brasileira é baseada majoritariamente em sistemas de produção a pasto, enquanto os EUA concentram sua produção em confinamentos (feedlots), atendendo mercados com características distintas.

Agro brasileiro na mira

Também presente na audiência, a Sociedade Rural Brasileira (SRB) defendeu, com base em dados técnicos, que o agronegócio brasileiro é sustentável e ressaltou que a relação comercial entre Brasil e Estados Unidos é de complementariedade.

"Nossos dois países não competem entre si. Uma tarifa que enfraqueça a agricultura brasileira também prejudicaria, simultaneamente, os fornecedores de insumos, os fabricantes de máquinas e os consumidores norte-americanos", afirmou a entidade em nota divulgada nesta terça-feira, 7.

A carne bovina não foi o único produto brasileiro a entrar no debate sobre as novas tarifas.

Em outro painel realizado na segunda-feira, representantes do setor cafeeiro pediram que o governo americano ampliasse a lista de exceções tarifárias para incluir também o café solúvel. A proposta do governo Trump já prevê isenção para outros tipos de café importado.

José Pimenta, representante da Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics), afirmou que o mercado americano de café solúvel é abastecido principalmente por Brasil e México. Segundo ele, outros grandes produtores, como Colômbia e Vietnã, não têm capacidade de ampliar rapidamente suas exportações.

Até maio, os EUA foram o segundo principal destino do café brasileiro, com 1,77 milhão de sacas de 60 quilos, segundo dados do Conselho Nacional dos Exportadores de Café (Cecafé). Apesar do montante, as exportações brasileiras de café para os EUA recuram 38% nos cinco primeiros meses de 2026 em relação ao mesmo período de 2025.

As audiências continuam nesta terça-feira, 7. Entre os participantes está o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que será o primeiro a falar no segundo dia de debates sobre a proposta de novas tarifas para produtos brasileiros.

As sessões, iniciadas na segunda-feira, 6, reúnem mais de 80 inscritos, entre representantes do setor produtivo, entidades e especialistas, que apresentarão suas posições ao governo dos Estados Unidos.

AutorCésar H. S. Rezende
FonteExame
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