Por que os palestinos em Gaza celebraram muito a vitória da Espanha

A conquista da Copa do Mundo pela Espanha foi comemorada nas ruas de Gaza como mais do que um triunfo esportivo. Para muitos palestinos, a vitória simbolizou o apoio de um país que tem defendido publicamente os direitos do povo palestino, em contraste com o respaldo de Israel à seleção argentina durante o torneio,devido às políticas do presidente argentino, Javier Milei.
Mesmo sob o risco constante de hostilidades, moradores se reuniram em cafés e em telões improvisados para acompanhar a decisão. Muitos torcedores exibiam bandeiras espanholas e homenageavam o atacanteLamine Yamal, que ganhou admiração em Gaza após exibir uma bandeira palestina durante as comemorações do título espanhol do Barcelona, em maio.
A equipe de futebol para pessoas com amputações Al-Irada, de Gaza, divulgou uma mensagem antes da final, desejando boa sorte aos espanhóis. "Quem ergue a bandeira palestina merece erguer a Copa do Mundo", afirmou o grupo em um vídeo publicado nas redes sociais.
O capitão da equipe, Saadi al-Masri, disse ter escolhido torcer pela Espanha por vê-la como uma das principais defensoras da causa palestina. Segundo ele, a seleção espanhola representa um governo que apoia os direitos dos palestinos em meio ao conflito com Israel.
Amigo e defensor
Pedro Sánchez, premiê da Espanha, durante discurso na TV. Líder do país é amplamente crítico à condução do conflito em Gaza por parte de Israel (Governo da Espanha/AFP)
Nos últimos meses, a Espanha consolidou-se como uma das vozes mais críticas contra a ofensiva israelense em Gaza e contra a expansão da violência na Cisjordânia ocupada. O governo do primeiro-ministro Pedro Sánchez tem pressionado a União Europeia a adotar medidas mais duras contra Israel, incluindo a suspensão do acordo de livre-comércio entre as partes.
Após o ministro da Defesa de Israel acusar Lamine Yamal de "incitar o ódio" por exibir a bandeira palestina, Sánchez saiu em defesa do jogador. O premiê afirmou que o atleta apenas expressou uma solidariedade compartilhada por milhões de espanhóis.
Do lado israelense, o apoio concentrou-se na Argentina. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, aliado próximo do presidente argentino Javier Milei, publicou uma mensagem desejando boa sorte à seleção antes da final. Após a vitória espanhola, a missão palestina na Organização das Nações Unidas (ONU) celebrou o resultado nas redes sociais com uma imagem da equipe campeã e a legenda "campeões do mundo".Acompanhar os jogos, porém, foi um desafio para a população de Gaza. Grande parte dos cerca de 2 milhões de habitantes vive em acampamentos improvisados após perder suas casas durante a guerra, enfrentando acesso limitado à eletricidade e à internet. Muitos recorreram a cafés com conexão ou acompanharam os melhores momentos pelas redes sociais.
Apesar da comemoração, o clima permaneceu marcado pela guerra. O temor de ataques aéreos impediu celebrações nas ruas durante a madrugada. No início de julho, um bombardeio israelense matou Mohamed al-Wahidi, trabalhador humanitário que organizava exibições públicas dos jogos da Copa em Gaza. O ataque também deixou outras três vítimas fatais. Israel confirmou a ofensiva, mas afirmou que al-Wahidi não era o alvo da operação.
