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Mundo
20/08/2026
7 min

Por que soldados ainda são essenciais para os EUA na era dos drones e da IA

Com tantos sistemas e armamentos de ponta, até mesmo o soldado básico parece obsoleto, mas ter botas no chão continua tão fundamental hoje quanto sempre foi

Por que soldados ainda são essenciais para os EUA na era dos drones e da IA

As forças terrestres dos Estados Unidos, compostas por tropas de soldados convencionais, continuam sendo um dos principais instrumentos de projeção de poder do país, apesar da proeminência de novos sistemas avançados de combate, como drones de longo alcance e o uso da IA nos campos de batalha, defende um novo estudo do think tank Center for Strategic and International Studies (CSIS).

O estudo destaca que essas forças precisam manter a capacidade de derrotar exércitos convencionais, influenciar adversários e adaptar-se rapidamente a novas formas de guerra.

Dessa forma, o emprego de tropas em solo deve se adaptar às mudanças e alinhar-se aos objetivos estratégicos dos Estados Unidos, integrando-se às demais capacidades militares.

A análise argumenta, portanto, que o poder terrestre permanece essencial para a prática do poder militar no exterior e para a política externa norte-americana, mesmo diante do avanço das tecnologias militares e do uso crescente de instrumentos econômicos e diplomáticos.

Segundo o CSIS, a presença contínua de forças em determinadas regiões pode exercer influência política e reforçar a posição dos EUA perante aliados e rivais.

A entidade também afirma que as forças terrestres precisam ser multifuncionais, capazes de atuar tanto em guerras convencionais de grande escala quanto em operações contra ameaças irregulares, bem como em missões de estabilização e contenção de conflitos. Essa flexibilidade é apontada como uma característica indispensável desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Em meio às mudanças no ambiente estratégico global, especialistas defendem que o poder terrestre dos Estados Unidos deve preservar as lições aprendidas em campanhas anteriores, ao mesmo tempo em que incorpora novas capacidades para enfrentar desafios emergentes. A manutenção dessa versatilidade, segundo o estudo, será decisiva para assegurar a relevância das forças em cenários futuros de conflito.

A guerra moderna

O drone FH-97A, destaque no show aéreo de Zhuhai, representa a aposta da China em tecnologias de ponta para competição militar (China Airshow/Divulgação) (China Airshow/Reprodução)

A guerra na Ucrânia é usada como caso de estudo pois acelerou transformações no campo de batalha — principalmente no âmbito dos drones e da supremacia aérea — e colocou em xeque conceitos tradicionais sobre o emprego das forças terrestres.

O CSIS aponta que a invasão russa revelou a fragilidade da ordem internacional e a disposição de potências regionais de recorrer à força para alcançar objetivos políticos. Em outros teatros, a tendência é a mesma: no Indo-Pacífico, por exemplo, a China também tem ampliado sua atuação militar e pressionado os limites entre a competição estratégica e o conflito aberto.

Nesse novo cenário, drones, sistemas autônomos e redes de vigilância — como sistemas de detecção de calor e satélites — passaram a transformar a composição das forças terrestres.

O avanço da vigilância, em particular, também criou o chamado “campo de batalha transparente”, no qual os movimentos de tropas podem ser identificados e neutralizados rapidamente. Com isso, as formações militares precisaram se adaptar e encontrar novas maneiras de obter vantagem sem depender exclusivamente de grandes operações de manobra terrestre.

A inteligência artificial surge como outra frente de transformação, com potencial para acelerar a identificação de alvos, processar grandes volumes de informações e reduzir o tempo necessário para a tomada de decisões militares.

O estudo, porém, ressalta que a tecnologia não elimina a necessidade de julgamento humano, especialmente porque a qualidade dos resultados depende dos dados utilizados pelos sistemas.

À medida que o conflito ucraniano avançou, porém, as grandes operações de movimento deram lugar alinhas de frente estagnadas, o que resultou em uma guerra cada vez mais dependente de ataques indiretos, tendência que se repete atualmente em outros conflitos entre grandes potências.

A combinação de sistemas autônomos, vigilância permanente e espaço aéreo contestado reduziu a capacidade de realizar grandes avanços territoriais.

Botas no chão: a relevância do soldado convencional

Exército, soldado, EUA, USA flag and US Army patch on solder's uniform

Apesar de novas tecnologias, o bom e velho soldado segue sendo parte indispensável de qualquer força militar (Dangutsu/Site Exame) (Dangutsu/Site Exame)

É aí que o soldado convencional pode fazer a diferença. Segundo o estudo, sistemas como drones, mísseis e artilharia permitem atingir alvos a grandes distâncias, mas a destruição de posições inimigas não garante, por si só, o controle permanente de um território.

Para isso, é necessária a presença militar fixa de soldados: ao neutralizar diretamente forças inimigas e manter presença física, as tropas em solo podem transformar o domínio militar em controle efetivo sobre determinada área.

Essa característica também confere às forças terrestres uma função de dissuasão distinta da exercida pelos ataques de longo alcance.

A possibilidade de enviar tropas de combate e de ocupação cria um espaço ao elevar, para o adversário, o custo potencial de tentar conquistar ou manter território ocupado e fortificado.

O estudo argumenta ainda que, apesar do avanço da guerra nos domínios aéreo, marítimo, espacial e cibernético, o território continua sendo a base do poder político. Portos, aeroportos, redes de energia, cabos de fibra óptica e estações de comunicação por satélite estão instalados em terra e são o que sustenta as operações realizadas nos demais domínios.

Por essa razão, o controle de pontos estratégicos e de infraestruturas críticas permanece determinante para o desfecho dos conflitos. Mesmo quando as operações militares ocorrem predominantemente no ar ou no mar, seu impacto real permanece ligado à capacidade de controlar ou proteger estruturas localizadas em território terrestre.

Outra característica apontada pelo estudo é a versatilidade de forças terrestres bem organizadas, como as americanas.

As unidades precisam estar preparadas para cumprir diferentes missões e, ao mesmo tempo, modificar sua doutrina e estrutura quando mudanças externas alteram as exigências do campo de batalha. Dessa maneira, as forças terrestres são muito mais flexíveis e versáteis do que baterias de longo alcance e até mesmo tecnologias de ponta.

A estrutura  de brigadas e batalhões é apresentada como um exemplo dessa capacidade de adaptação. A possibilidade de reorganizar unidades conforme a missão permite que os comandantes ajustem a composição das forças às necessidades específicas de cada operação.

Essa flexibilidade também amplia o emprego das forças terrestres para além dos conflitos convencionais. Segundo o estudo, unidades militares podem atuar em funções de apoio a atividades civis, incluindo a segurança de fronteiras e a resposta a desastres, o que demonstra a amplitude das capacidades associadas ao poder terrestre.

Custos e limitações

Cemitério de Arlington,nos EUA, onde soldados oferecem flores para companheiros que perderam as vidas (Alex Wong/AFP) (Alex Wong/Getty Images)

Todavia, ainda assim não é um sistema perfeito: o emprego de operações terrestres depende de muitos fatores e também apresenta uma miríade de particularidades, vulnerabilidades e limitações.

Nos Estados Unidos, por exemplo, o uso dessas forças apresenta uma particularidade geográfica: fora de cenários de invasão ou de algumas situações domésticas específicas, as tropas norte-americanas normalmente precisam atuar longe do território nacional.

O poder terrestre dos EUA, portanto, possui uma natureza essencialmente expedicionária. A projeção desse poder depende, portanto, do acesso concedido por aliados e parceiros.

Bases, rotas de trânsito e autorização de sobrevoo são elementos fundamentais para deslocar tropas e equipamentos até áreas de conflito, enquanto a ausência desse apoio pode obrigar os Estados Unidos a realizar operações de entrada forçada em ambientes contestados, o que aumenta o risco para as tropas.

Essa dependência geográfica representa uma limitação para Washington, mas também pode se transformar em vantagem estratégica quando aliados oferecem acesso, infraestrutura e recursos.

A capacidade de estabelecer redes de cooperação pode, assim, ampliar significativamente o alcance das forças terrestres norte-americanas.

O principal obstáculo ao emprego desse poder, contudo, continua sendo o custo humano.

Operações terrestres apresentam maior risco de baixas do que muitas outras formas de projeção militar, o que aumenta o risco político enfrentado pelos governos que decidem enviar tropas.

A experiência de conflitos recentes, especialmente a guerra entre Rússia e Ucrânia, reforça essa preocupação ao demonstrar o elevado número de vítimas que pode resultar de operações terrestres prolongadas.

Para os Estados Unidos, esse risco impõe limites políticos à disposição de empregar forças em solo, mesmo quando elas continuam sendo consideradas fundamentais para o controle territorial e para a segurança.

AutorMatheus Gonçalves
FonteExame
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