Por trás da Faria Lima: como a avenida virou o centro financeiro de São Paulo
No novo episódio do Por trás do Tijolo, Birmann, Bueno Netto e Adriano Sartori explicam como uma avenida de casas e terrenos vazios virou o endereço mais disputado do mercado financeiro

Durante décadas, a avenida Faria Limafoi apenas uma rua cercada por casas, oficinas e galpões. Hoje, ela concentra bancos de investimento, gestoras, escritórios de advocacia e empresas de tecnologia, tornando-se um dos metros quadrados corporativos mais disputados de São Paulo.
Mas como uma região que nem sequer era consenso entre investidores se transformou em uma espécie de “Manhattan brasileira”?
Essa é a pergunta central do novo episódio doPor trás do Tijolo, programa da EXAMEque reúne Rafael Birmann, responsável pelo B23, o prédio da Baleia, Adalberto Bueno Netto, fundador da Benx, e Adriana Sartori, CEO da CBRE.
No episódio, os três executivos reconstroem a trajetória de uma das maiores transformações urbanas de São Paulo: da antiga Rua Iguatemi, passando pela abertura da avenida, pela Operação Urbana Faria Lima e pela consolidação do endereço como símbolo do mercado financeiro.
“A baleia acabou virando um símbolo não só da Faria Lima, como desse 'faria limer', esse Brasil que não é Brasil, que é uma espécie de enxerto no Brasil. O Brasil é um pouco diferente. Aqui é um sonho de Manhattan no meio do Brasil”, afirma Rafael Birmann no episódio.
De casas e galpões ao centro financeiro de São Paulo
A transformação da Faria Lima não aconteceu de um dia para o outro. Na década de 1980, a avenida ainda estava longe do protagonismo atual. Segundo Adriana Sartori, CEO da CBRE, a região tinha uma presença muito pequena do mercado financeiro quando comparada à Avenida Paulista.
Na época, a Paulista concentrava cerca de 800 mil metros quadrados de escritórios, enquanto a Faria Lima não chegava a 100 mil metros quadrados.
Adalberto Bueno Netto, fundador da Benx, acompanhava a região desde antes da abertura da avenida. Ele começou a olhar para o potencial do local ainda na década de 1970, quando o Shopping Iguatemi ajudava a mudar o perfil de consumo da área.
Em 1982, comprou seu primeiro terreno na região e passou a apostar no futuro desenvolvimento da avenida.
A consolidação veio com a combinação entre infraestrutura, novos empreendimentos e a criação de mecanismos urbanísticos, como os CEPACs (Certificados de Potencial Adicional de Construção), que permitiram financiar melhorias na região por meio da venda de potencial construtivo adicional.
Adriano Sartori, CEO da CBRE, acompanha a evolução da Faria Lima de uma região ainda em consolidação ao principal polo corporativo de São Paulo.
A história da Baleia que virou símbolo da Faria Lima
Um dos maiores símbolos da região é o B32, edifício que abriga a escultura da baleia e levou mais de 20 anos para ficar pronto.
No episódio, Rafael Birmann conta que a estratégia começou ainda nos anos 1990, quando a empresa passou a comprar terrenos na região antes da consolidação definitiva da avenida.
Foram cerca de 35 casas negociadas individualmente, em um processo que envolveu conversas com diferentes famílias e proprietários.
Segundo Birmann, os terrenos foram adquiridos por um valor médio de cerca de R$ 4 mil por metro quadrado na época. Hoje, terrenos na região podem chegar a valores entre R$ 30 mil e R$ 35 mil por metro quadrado, sem considerar o potencial adicional de construção.
A baleia, que inicialmente era apenas uma ideia para criar um elemento marcante na praça do empreendimento, acabou se tornando um símbolo da própria avenida.
Birmann explica no episódio que a escultura ganhou diferentes significados, passando pela sustentabilidade, pela ideia de transformação e pela própria história do edifício.
Por que a Faria Lima continua difícil de substituir
A Faria Lima não é apenas um endereço. Ela se tornou uma concentração de empresas que reforça o próprio valor da região.
Segundo Adriano Sartori, a avenida reúne bancos de investimento, empresas de tecnologia e escritórios de advocacia, em um movimento semelhante ao observado em grandes centros financeiros internacionais.
O executivo destaca que empresas como Google e outros grandes grupos de tecnologia ajudaram a consolidar um novo padrão de ambiente corporativo, com escritórios voltados para convivência, encontros e colaboração.
Para ele, substituir a Faria Lima nos próximos anos será difícil justamente pela combinação entre estoque imobiliário, localização e escassez de terrenos.
Entre a compra de um terreno e a entrega de um prédio corporativo de alto padrão, o ciclo pode levar de cinco a sete anos, enquanto terrenos grandes e bem localizados são cada vez mais raros na cidade.
O próximo capítulo da avenida
Apesar da consolidação, os entrevistados apontam que a Faria Lima ainda deve passar por novas transformações.
Adriana Sartori avalia que o próximo movimento pode ocorrer em direção ao Largo da Batata, com novos empreendimentos e uma requalificação urbana da região nos próximos cinco a dez anos.
Para Adalberto Bueno Netto, o avanço da infraestrutura, especialmente a expansão do metrô, será fundamental para acompanhar o crescimento da região.
“A cidade não circula mais na superfície. Não dá, não tem ruas, não tem mais forma de ficar pondo todo esse trânsito para a superfície. Tem que ir para baixo, tem que ser metrô”, afirma.
O novo episódio do Por trás do Tijolo mostra como uma avenida que começou como uma aposta de poucos empresários se tornou um dos principais símbolos econômicos de São Paulo — e por que seu futuro ainda depende de decisões urbanas tomadas muito além dos seus prédios.
