Portaria 24h vira o maior desafio dos condomínios com o fim da escala 6x1
Lello, que conta com 4.200 condomínios, já simulou novas escalas em 86 deles; sem ajustes, a mudança na jornada pesa mais na portaria, que não para nunca

Em um prédio com portaria 24 horas, a guarita precisa estar ocupado nas 168 horas da semana. Com o fim da escala 6x1, a forma de cobrir esses turnos vai ter de ser refeita. Sem nenhum ajuste além do exigido por lei, a folha de pagamento dos condomínios pode subir cerca de 20%.
A estimativa vem das primeiras simulações do Grupo Lello, que administra 4.200 condomínios, 3.600 pela Lello Condomínios e 600 pela Hubert. A empresa criou um agente de inteligência artificial (IA) para redesenhar as escalas de cada prédio antes que as novas regras entrem em vigor.
A emenda constitucional que acaba com a escala 6x1 foipromulgada pelo Congresso na sexta-feira, 16.Um levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) estima que a mudança deve beneficiar 26,8 milhões de trabalhadores.
Pelo texto, a primeira etapa começa 60 dias após a promulgação. A jornada máxima cai de 44 para 42 horas semanais, e os trabalhadores passam a ter direito a dois dias de descanso remunerado por semana, sem redução salarial. O limite de 40 horas entra em vigor 12 meses depois.
Por que a portaria é o posto mais pressionado
Limpeza, manutenção e zeladoria também terão de se adaptar. Mas é na portaria que a conta aperta, porque o serviço não pode parar em nenhum dia da semana.
"No nosso ponto de vista, a função mais afetada é a portaria, pois funciona 24 horas por dia, sete dias por semana", afirma Angélica Arbex, diretora de Marketing e Estratégia da Lello Condomínios.
O universo envolvido é grande. Os condomínios do grupo têm 9.300 funcionários próprios. Há ainda cerca de 10 mil postos de trabalho geridos por empresas de terceirização de mão de obra.
Quantos desses trabalhadores estão hoje na escala 6x1 ainda não se sabe. Segundo a Lello, esse recorte está em levantamento.
O aumento de 20% na folha é o cenário em que o condomínio só troca a escala para cumprir a lei e mantém todo o resto igual. Nas análises feitas até agora, a administradora diz ter encontrado espaço para o efeito contrário.
Ao identificar horários e jornadas mal distribuídos, a empresa chegou a observar reduções na folha. Os ganhos vieram, por exemplo, do corte de horas extras e da adoção da escala 12x36, em que o funcionário trabalha 12 horas e descansa as 36 seguintes.
A alternativa mais frequente nas simulações é redistribuir horários e ajustar as escalas. Em zeladoria e limpeza, o redesenho costuma exigir também uma revisão da rotina do prédio, como as tarefas do dia e a frequência dos serviços, para encaixar as duas folgas semanais.
Como funciona o agente de IA da Lello
O agente levou 90 dias para ser desenvolvido. O projeto reuniu as equipes de relacionamento e de departamento pessoal da administradora com a área de dados e IA.
Na prática, a ferramenta lê a folha de pagamento de cada condomínio, aponta onde a escala atual deixa de cumprir a nova regra e monta hipóteses de reorganização das equipes. Cada cenário vem acompanhado do impacto estimado no orçamento.
A decisão final não fica com a máquina. Os cenários são discutidos por especialistas da Lello com síndicos e conselhos, que avaliam concessões e escolhem o plano que cabe no caixa de cada prédio.
"Neste caso, ela foi uma grande viabilizadora da análise em escala e da apresentação de cenários, para que o time de especialistas faça o que sabe fazer de melhor: explorar hipóteses, trazer repertório e construir com o cliente a melhor saída para cada realidade, de forma personalizada", diz Arbex.
Até agora, 86 condomínios passaram pelo agente, todos a pedido dos próprios síndicos. A meta é chegar, até dezembro, a 100% dos condomínios da carteira com funcionários em escala 6x1 ou semelhante.
Na segunda fase, a administradora vai analisar as folhas de todos os condomínios com funcionários próprios. O objetivo é identificar quem precisa de adaptação e procurar os síndicos com os estudos prontos, sem esperar a demanda.
"Estamos trabalhando na adaptação, não sob o viés da punição, mas com o objetivo de atuar em conjunto com os síndicos nas adequações necessárias", afirma a executiva.
Antes do condomínio, o canteiro de obras
O efeito da nova jornada sobre a moradia não começa quando o prédio está pronto. Ele aparece antes, na construção, e pode chegar ao preço do imóvel.
A Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) estima que a mudança pode elevar em 5,5% o preço dos imóveis. O estudo foi feito em parceria com a consultoria econômica Ecconit.
Segundo a entidade, o repasse ao preço final pode tirar até 2,5 milhões de famílias do acesso ao financiamento habitacional. O risco é maior para quem já está perto do limite de comprometimento de renda.
A lógica é a mesma da portaria. A construção civil depende de equipes presenciais no canteiro, e uma jornada menor com salários preservados pode exigir mais gente para manter o ritmo das obras, em um setor que já enfrenta falta de mão de obra qualificada.
Algumas incorporadoras tentam reduzir essa dependência há anos. A Tenda, voltada à habitação popular, adotou desde 2011 um modelo inspirado no sistema da Toyota, com etapas padronizadas, equipes especializadas e kits elétricos e hidráulicos que chegam prontos ao canteiro.
Segundo a companhia, a mão de obra pesa entre 5 e 10 pontos percentuais a menos no seu custo de construção do que na média do setor. Na Alea, braço do grupo que produz casas, parte da obra é feita em fábrica.
O modelo também mostra o custo de perder produtividade. Quando a Alea contratou empreiteiros externos sem experiência no seu método, os custos de construção chegaram a ficar 30% acima do previsto.
A Abrainc estima que o país tenha um déficit de cerca de 5,8 milhões de moradias e precise de aproximadamente 11 milhões de novas unidades nos próximos dez anos. A entidade defende uma transição que considere os ciclos longos da incorporação, inclusive para obras já vendidas ou em andamento.
