Porto prevê 'PIB zero' em 2027 e reforça proteção contra calotes em R$ 300 milhões
A decisão considera a piora das perspectivas para juros, inflação e atividade econômica, além da pressão sobre a renda das famílias e o risco de aumento da inadimplência

RESUMO +
O grupo de seguros e serviços Porto (PSSA3) elevou em R$ 300 milhões a estimativa de perdas com crédito do banco Porto Bank para 2026, para uma faixa de R$ 3,4 bilhões a R$ 3,8 bilhões. A revisão considera juros mais altos, endividamento das famílias e crescimento zero do PIB em 2027, além de reforçar coberturas contra a inadimplência.
O Grupo Porto (PSSA3) elevou em R$ 300 milhões sua estimativa de perdas com crédito do Porto Bank para 2026, diante da piora das perspectivas para a economia brasileira, do aumento das expectativas de juros e do elevado endividamento das famílias. A companhia também passou a considerar crescimento zero do Produto Interno Bruto (PIB) em suas premissas para o orçamento de 2027, em uma postura conservadora para reforçar as coberturas contra uma possível deterioração da inadimplência.
Com a revisão, a faixa projetada de perdas de crédito do banco passou de R$ 3,1 bilhões a R$ 3,5 bilhões para R$ 3,4 bilhões a R$ 3,8 bilhões. Segundo a diretoria, a decisão busca preparar a companhia para um cenário macroeconômico mais adverso e garantir índices de cobertura mais robustos no próximo ano.
"Revisamos nossa estimativa de crescimento do PIB para 2027 para zero. Além disso, a curva de juros subiu substancialmente nas últimas semanas. A combinação desses fatores, somada à postura mais conservadora da Porto, motivou a revisão das perdas de crédito projetadas para 2026. A medida busca, com base em nossos modelos preditivos, garantir índices de cobertura mais robustos em 2027 e preparar a companhia para esse cenário macroeconômico", afirmou Domingos Falavina, diretor de relações com investidores da Porto.
A revisão ocorre em um momento de sinais distintos na carteira de crédito. A inadimplência de curto prazo, medida pela formação de novos atrasos entre 15 e 90 dias, apresentou uma leve melhora, com recuo de aproximadamente R$ 700 milhões para R$ 650 milhões. Por outro lado, os atrasos superiores a 90 dias continuam pressionados e em trajetória de alta, de acordo com o grupo.
Falavina afirmou que as novas safras de crédito da companhia começam a apresentar sinais de estabilização, mas ponderou que a piora das premissas macroeconômicas levou a empresa a ampliar as reservas.Na avaliação do CEO da Porto, Paulo Kakinoff, a decisão de reforçar as provisões está relacionada principalmente aos riscos que a deterioração do cenário econômico pode trazer para a renda das famílias e, consequentemente, para a capacidade de pagamento dos clientes.
"Se você olhar a fotografia desse trimestre que nós acabamos de divulgar, há até sinais levemente positivos no que diz respeito à gestão do risco de crédito. Tivemos uma leve redução no que chamamos de formation. Então esse é um sinal que sugere até uma certa estabilidade", disse.
Projeções econômicas recentes pesam nas decisões para 2027
O executivo destacou, porém, que a companhia ainda não havia observado no terceiro trimestre a deterioração das projeções macroeconômicas registrada nas últimas semanas, especialmente na curva de juros e nas perspectivas de inflação e atividade econômica.
"Quando avaliamos os possíveis impactos desse cenário sobre o custo de crédito, decidimos elevar preventivamente a estimativa de perdas para este ano. A medida busca preparar a companhia para uma eventual deterioração das condições econômicas. Um ambiente de juros mais elevados, crescimento zero do PIB e inflação em alta inevitavelmente afeta a renda das famílias e pode agravar a inadimplência", afirmou Kakinoff ao ser questionado pela EXAME.
A preocupação da companhia ocorre em meio à manutenção da taxa Selic em 13,75% ao ano pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, na decisão divulgada nesta quarta-feira, 4. A decisão interrompeu o ciclo de cortes iniciado em 2026, após cinco reduções consecutivas.
No comunicado, o Banco Central apontou desaceleração mais acentuada da atividade econômica, sobretudo nos setores mais sensíveis ao crédito e aos juros, mas também destacou a persistência das expectativas de inflação em patamares elevados. O cenário reforça a cautela da autoridade monetária e aumenta a preocupação com os efeitos do custo do dinheiro sobre empresas e famílias.
Para a Porto, o efeito dos juros elevados sobre o crédito já supera, neste momento, os eventuais benefícios que uma taxa maior pode trazer para o resultado financeiro das operações de seguros. A companhia, porém, não apresentou uma projeção específica para a evolução desses efeitos em 2027.A diretoria também ressaltou que parte dos impactos projetados ainda não foi capturada nos indicadores do terceiro trimestre. A elevação das provisões, portanto, tem caráter preventivo e considera os riscos associados às mudanças observadas nas últimas semanas.
Lucro da Porto cai, apesar de receita recorde
O Grupo Porto registrou lucro líquido recorrente de R$ 713 milhões no terceiro trimestre de 2026, queda de 14% em relação ao mesmo período do ano anterior. A receita total alcançou R$ 11 bilhões, alta de 10%. O retorno sobre o patrimônio líquido médio (ROAE) recorrente ficou em 17,6%, recuo de 5,4 pontos percentuais.
Além das perdas com crédito no Porto Bank, o resultado foi pressionado pelo desempenho mais fraco das aplicações financeiras e pela alta da sinistralidade na Porto Saúde.
No Porto Bank, as perdas de crédito somaram R$ 843 milhões, crescimento de 48% na comparação anual, enquanto o lucro líquido da vertical caiu 13%, para R$ 171 milhões. Na Porto Saúde, o lucro recuou 34%, para R$ 84 milhões, pressionado pelo aumento da sinistralidade.
Já a Porto Seguro registrou lucro de R$ 443 milhões, queda de 2%, e a Porto Serviço teve lucro de R$ 52 milhões, alta de 34%. O lucro líquido total do grupo, sem o ajuste recorrente, foi de R$ 839 milhões, avanço de 1% na comparação com o terceiro trimestre de 2025.
Calote no cartão de crédito pressiona o Porto Bank
Segundo a companhia, a deterioração está concentrada principalmente na carteira de cartões de crédito. O índice de inadimplência acima de 90 dias (base de 360 dias) chegou a 10,2%, ante 7,2% no terceiro trimestre de 2025, e o custo de crédito subiu de 8,6% para 12,3%. A cobertura da carteira em estágio 3, de maior risco, ficou em 65,7%.
A carteira de crédito do banco somou R$ 23,7 bilhões, alta de 9,2% em um ano. A margem financeira ajustada ao risco ficou negativa em 0,3%, ante 3,4% positivos um ano antes, e o ROAE da vertical caiu de 26,1% para 20,3%.
Além de elevar a estimativa de perdas, a Porto reduziu a projeção de receita do Porto Bank para 2026, para uma faixa entre R$ 7,5 bilhões e R$ 7,9 bilhões, ante R$ 7,7 bilhões a R$ 8,1 bilhões anteriormente.
Inflação baixa e sinistralidade também levam a cortes nas projeções
A inflação baixa no trimestre, com deflação em um dos meses, reduziu a remuneração dos títulos públicos atrelados ao IPCA (NTN-B) mantidos pela companhia, e a alocação em renda variável rendeu menos que o Ibovespa. O resultado financeiro consolidado foi de R$ 309 milhões, queda de 19%. A projeção dessa linha para 2026 caiu de uma faixa entre R$ 1,4 bilhão e R$ 1,8 bilhão para R$ 1,1 bilhão a R$ 1,5 bilhão.
Na Porto Saúde, a sinistralidade chegou a 82%, alta de 4,7 pontos percentuais em um ano. De acordo com a companhia, cerca de dois terços dessa elevação vieram de problemas na cadeia de atendimento oncológico e de uma sazonalidade atípica entre o segundo e o terceiro trimestres. Kakinoff citou um volume fora do comum de cirurgias eletivas em julho, possivelmente antecipadas por pacientes que pretendiam viajar ou acompanhar a Copa do Mundo, além de dificuldades operacionais da Oncoclínicas.
A projeção de crescimento dos prêmios da Porto Saúde foi reduzida para uma faixa entre 12% e 16%, ante 14% a 22% anteriormente.
