Porto vê lucro cair 14% no 3º tri e corta projeções: 'calote' no cartão pesa
Receita do Grupo Porto cresceu 10%, mas alta das perdas com crédito e da sinistralidade pressionaram o resultado

RESUMO +
O Grupo Porto (PSSA3), conglomerado de seguros, banco, saúde e serviços, teve lucro líquido recorrente de R$ 713 milhões no terceiro trimestre de 2026, queda anual de 14%. O resultado refletiu menor receita financeira, mais perdas de crédito no Porto Bank e maior sinistralidade na Porto Saúde. A receita total avançou 10%, para R$ 11 bilhões.
O Grupo Porto (PSSA3) registrou lucro líquido recorrente de R$ 713 milhões no terceiro trimestre de 2026, uma queda de 14% em relação ao mesmo período do ano passado. O resultado, divulgado antes da abertura do mercado nesta quinta-feira, 5, foi pressionado principalmente pelo desempenho mais fraco das aplicações financeiras, o aumento das perdas com crédito no Porto Bank e a elevação da sinistralidade na Porto Saúde.
A retração ocorreu apesar do crescimento das receitas do grupo. Entre julho e setembro, a receita total da Porto alcançou R$ 11 bilhões, avanço de 10% na comparação anual. Já o retorno sobre o patrimônio líquido médio (ROAE) recorrente ficou em 17,6%, recuo de 5,4 pontos percentuais em relação ao terceiro trimestre de 2025.
Considerando os efeitos não recorrentes, o lucro líquido foi de R$ 839 milhões, alta de 1% na comparação anual. A diferença em relação ao resultado recorrente vem, principalmente, do reconhecimento de R$ 135,4 milhões em créditos tributários diferidos que estavam provisionados para perda, por causa da reorganização societária em curso da Porto Serviço. Com esse efeito, a taxa efetiva de imposto de renda do trimestre caiu para 6,7%, ante 30,7% um ano antes.
A companhia também revisou a projeção de taxa efetiva de imposto para 2026, de 23% a 27% para 17% a 21%, em razão da reversão de impostos diferidos sobre a mais-valia da aquisição de uma subsidiária após sua incorporação.
No acumulado de janeiro a setembro, o lucro líquido somou R$ 2,85 bilhões, alta de 12% sobre o mesmo período de 2025. Na visão recorrente, o resultado foi de R$ 2,56 bilhões, praticamente estável (+0,7%).
Em coletiva à imprensa, o CFO da Porto, Celso Damadi, apontou que a receita da carteira de aplicações financeiras, excluindo previdência e ativos e passivos de gestão de ativos e passivos (ALM), somou R$ 355 milhões, equivalente a 63% do CDI. Já o resultado financeiro consolidado foi de R$ 309 milhões, queda de 19%.
Segundo Damadi, a baixa inflação registrada no trimestre reduziu a remuneração dos títulos públicos indexados aoÍndice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) mantidos pela companhia. Em um dos meses do período, inclusive, houve deflação. Além disso, a alocação em renda variável teve desempenho inferior ao do Ibovespa.
"O primeiro impacto foi o resultado financeiro. Tivemos uma queda bastante significativa da renda variável e também um trimestre com IPCA muito baixo. Houve até um mês com deflação. Como temos muitos títulos de NTN-B, que são indexados à inflação, isso gerou uma receita financeira menor", afirmou o diretor financeiro.
O executivo acrescentou que parte desse efeito pode ser compensada no quarto trimestre, diante da expectativa de uma inflação média maior. O CEO da Porto, Paulo Kakinoff, também ressaltou que os impactos da marcação a mercado não representam necessariamente uma perda de caixa.
"Esses efeitos de receita financeira não têm impacto no caixa, porque são posições cuja marcação a mercado traz esse impacto econômico. Eles tendem a voltar à medida que se tenha uma performance mais positiva da bolsa e também quando se projeta um patamar de inflação mais elevado, o que impacta positivamente a receita financeira desses títulos de NTN-B", disse.
Com isso, a Porto reduziu a projeção de resultado financeiro para 2026, de uma faixa entre R$ 1,4 bilhão e R$ 1,8 bilhão para R$ 1,1 bilhão a R$ 1,5 bilhão. Nos nove primeiros meses do ano, a linha somou R$ 1 bilhão, queda de 12% na comparação anual.
Outros fatores
O segundo fator que pesou sobre o lucro do 3° trimestre deste ano foi o aumento das perdas com crédito no Porto Bank. A vertical registrou R$ 843 milhões em perdas de crédito, alta de 48% em relação ao terceiro trimestre de 2025. O lucro líquido da operação caiu 13%, para R$ 171 milhões, embora a receita tenha avançado 13%, para R$ 2 bilhões. O avanço da receita foi puxado por consórcio (+21%), riscos financeiros (+12%) e cartão, financiamentos e empréstimos (+11%). O ROAE da vertical caiu de 26,1% para 20,3%.
De acordo com a companhia, a deterioração está concentrada principalmente na carteira de cartões de crédito, em um cenário demaior inadimplência e endividamento das famílias. O CFO destacou que o problema não se estende a todas as operações do banco, que continuam apresentando crescimento.
O diretor de Relações com Investidores, Domingos Falavina, afirmou que a Porto identificou uma melhora na inadimplência de curto prazo, mas que os atrasos superiores a 90 dias continuam pressionados. Apiora das perspectivas macroeconômicas, especialmente diante da revisão das expectativas de juros, com a manutenção da Selic em 13,75% nesta quarta, levou a companhia a reforçar suas provisões.
O índice de inadimplência acima de 90 dias (base de 360 dias) chegou a 10,2%, ante 7,2% no terceiro trimestre de 2025, e o custo de crédito subiu de 8,6% para 12,3%. O indicador de atrasos entre 15 e 90 dias, considerado antecedente, apresentou melhora pelo segundo trimestre seguido. A cobertura da carteira em estágio 3, de maior risco, ficou em 65,7%.
A carteira de crédito do banco somou R$ 23,7 bilhões, alta de 9,2% em um ano, e a margem financeira ajustada ao risco ficou negativa em 0,3%, ante 3,4% positivos um ano antes, com pressão concentrada no cartão de crédito. Do lado das despesas, o índice de eficiência melhorou 3,3 pontos percentuais, para 27,4%.
A estimativa de perdas com crédito para 2026 foi elevada de uma faixa entre R$ 3,1 bilhões e R$ 3,5 bilhões para R$ 3,4 bilhões a R$ 3,8 bilhões, um aumento de R$ 300 milhões nos limites da projeção.
A empresa também revisou a estimativa de receita do Porto Bank para uma faixa entre R$ 7,5 bilhões e R$ 7,9 bilhões, ante R$ 7,7 bilhões a R$ 8,1 bilhões anteriormente.
Kakinoff ressaltou que o aumento das provisões é uma medida preventiva diante de um cenário que ainda não se refletiu integralmente nos indicadores de crédito da companhia. Para o orçamento de 2027, a Porto trabalha com a hipótese de crescimento zero do Produto Interno Bruto (PIB).
"Estamos considerando como premissa um crescimento zero do PIB. Quando passamos a estimar o que isso poderá representar para o custo de crédito, preventivamente apontamos um nível mais elevado de provisões neste ano, justamente para nos prepararmos caso o cenário indicado pelos analistas se concretize", disse o CEO.
Segundo o executivo, juros mais elevados, inflação maior e desaceleração econômica podem afetar a renda das famílias e tornar o cenário de inadimplência mais adverso.
Mas, além desses dois outros fatores, o terceiro componente que pressionou o resultado foi a Porto Saúde. A vertical registrou lucro líquido de R$ 84 milhões, queda de 34% na comparação anual, apesar do crescimento de 12% na receita, que alcançou R$ 2,5 bilhões.
A carteira de seguro saúde ganhou 22% em beneficiários, para 956 mil vidas, e a de odontológico cresceu 16%, para 1,3 milhão. O ROAE da Porto Saúde caiu de 25,7% para 13,7%. No acumulado do ano, o lucro da vertical ainda sobe 7,8%, para R$ 443,5 milhões.
A sinistralidade chegou a 82%, aumento de 4,7 pontos percentuais em um ano. A companhia aponta que aproximadamente dois terços dessa elevação decorreram de problemas na cadeia de atendimento oncológico e de um comportamento atípico da sazonalidade entre o segundo e o terceiro trimestres. O restante foi explicado pelo crescimento orgânico dos sinistros.
Kakinoff afirmou que houve um volume atípico de internações e cirurgias eletivas em julho, possivelmente relacionado à antecipação de procedimentos por pacientes que pretendiam viajar ou acompanhar a Copa do Mundo. O executivo também mencionou dificuldades operacionais da Oncoclínicas, que obrigaram a Porto a recorrer emergencialmente a outros fornecedores.
"Essa hipótese de antecipação tem fundamento quando olhamos o volume de senhas requisitadas para essas cirurgias eletivas. Tivemos um pico anormal em julho e uma volta à normalidade nos meses subsequentes", afirmou.
O CEO acrescentou que os indicadores mais recentes apontam para uma normalização da sinistralidade. A companhia, porém, reduziu sua projeção de crescimento dos prêmios da Porto Saúde para uma faixa entre 12% e 16%, ante o intervalo anterior de 14% a 22%.
Seguros e serviços mantêm crescimento
Na Porto Seguro, o lucro líquido caiu 2%, para R$ 443 milhões, embora as receitas e os prêmios tenham avançado 9%, para R$ 6,2 bilhões. A vertical ampliou em 264 mil veículos sua frota segurada, que chegou a 6,5 milhões de automóveis, com crescimento de 10% no segmento Auto. Os negócios Patrimonial e Vida avançaram 9% e 2%, respectivamente.
O índice combinado ampliado ficou em 86%, alta de 1 ponto percentual. Já o ROAE alcançou 32%, permanecendo acima de 30% pelo sexto trimestre consecutivo. A sinistralidade do segmento Auto ficou em 59,1%, alta de 0,9 ponto percentual.
Kakinoff explicou que a diferença entre o crescimento da receita e o desempenho do lucro está relacionada ao intervalo entre a contratação dos seguros e o reconhecimento dos resultados. Como os contratos têm duração de 12 meses, o avanço das vendas mais recente ainda não aparece integralmente no resultado do trimestre.
"Quando você contrata um seguro, esse seguro vale para os próximos 12 meses. O que está sendo contratado agora se reflete no crescimento de 10% da nossa receita. O lucro, por sua vez, é resultado das vendas que tivemos nos trimestres anteriores, quando a companhia teve uma participação de mercado menor", afirmou.
Segundo o executivo, a recuperação da participação de mercado e o ritmo atual de vendas devem começar a aparecer nos resultados dos próximos trimestres.
Damadi também destacou que, no acumulado dos nove primeiros meses do ano, o lucro da seguradora cresceu 12% em relação ao mesmo intervalo de 2025. O executivo atribuiu parte da diferença entre os resultados trimestrais à maior ocorrência de chuvas entre julho e setembro deste ano, em comparação com o terceiro trimestre do ano passado.
"Quando acumulamos os nove meses, percebemos que a seguradora está com crescimento de resultado na ordem de 12%. Com essa combinação de crescimento do prêmio retido, desempenho dos nove meses, patamar de sinistralidade e ROAE, diria que é um dos anos mais saudáveis da carteira de seguros da companhia", afirmou.
APorto Serviço foi a única vertical a apresentar crescimento do lucro líquido no trimestre. O resultado avançou 34%, para R$ 52 milhões, enquanto a receita aumentou 9%, para R$ 660 milhões. O crescimento dos Produtos Digitais foi de 39%, e a companhia encerrou o período com mais de 80 parcerias estratégicas.
No consolidado, a Porto também registrou melhora de 0,4 ponto percentual no índice de eficiência operacional, que considera as despesas administrativas em relação à receita total. O indicador ficou em 10,6% no terceiro trimestre. A companhia encerrou setembro com 19 milhões de clientes, alta de 6% em um ano.
