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Sacre Investimentos
Economia
31/07/2026
6 min

Prédios podem balançar após terremotos em outros países? Entenda o fenômeno sentido no Brasil

Uma recente onda de fortes terremotos ao redor do mundo trouxe de volta à tona o debate sobre a vulnerabilidade geológica do Brasil e quais seriam os impactos reais de um forte abalo sísmico no país. Em junho, dois fortes terremotos (um de magnitude 7,2 e outro de 7,5) deixaram um rastro de morte e […]

Prédios podem balançar após terremotos em outros países? Entenda o fenômeno sentido no Brasil

Uma recente onda de fortes terremotos ao redor do mundo trouxe de volta à tona o debate sobre a vulnerabilidade geológica do Brasil e quais seriam os impactos reais de um forte abalo sísmico no país.

Em junho, dois fortes terremotos (um de magnitude 7,2 e outro de 7,5) deixaram um rastro de morte e devastação na Venezuela. Mais de 5 mil mortes foram confirmadas até o momento, mas estima-se que o número pode ser muito maior.

Agora, na passagem da quinta (30) para a sexta-feira (31), um terremoto de magnitude 5,6 atingiu o leste do Peru, a apenas 60 quilômetros da fronteira com o Brasil. Moradores de algumas cidades do Acre sentiram reflexos do tremor de terra, mas não há relatos sobre danos nem vítimas no lado brasileiro.

Brasil é imune a terremotos?

O fato é que, embora encontre-se praticamente blindado contra a incidência de abalos sísmicos de grande magnitude, em grande medida por conta de uma posição geográfica privilegiada, o território brasileiro é suscetível ao reflexo de abalos ocorridos em países vizinhos.

Além disso, ele oculta falhas tectônicas milenares na crosta. Essas falhas se concentram principalmente na região Nordeste.

Especialistas apontam que essas fraturas internas costumam provocar sismos de baixa e média intensidade. Embora raramente causem destruição, eles exigem atenção da engenharia, da construção civil e do mercado imobiliário.

De acordo com sismólogos, essa maior atividade sísmica não significa que o Nordeste esteja sujeito a terremotos devastadores como os registrados em países localizados mais próximos dos limites das placas tectônicas.

Os pesquisadores ressaltam, porém, a importância do monitoramento contínuo e da divulgação de informações confiáveis para evitar interpretações equivocadas sempre que um tremor de terra é registrado ou sentido no Brasil.

Falhas milenares colocam o Nordeste na rota dos abalos sísmicos

Ao contrário do que ocorre no Chile, no Peru ou na Venezuela, o Brasil está localizado no interior da Placa Sul-Americana. O país encontra-se distante das zonas onde placas tectônicas colidem ou deslizam umas sobre as outras — cenário responsável pelos maiores terremotos do mundo.

Essa posição geológica reduz drasticamente a possibilidade de terremotos de grande magnitude.

“Estar no interior da Placa Sul-Americana reduz o risco de grandes terremotos, mas não elimina a ocorrência de sismos intraplaca, que resultam da liberação de tensões acumuladas em falhas geológicas antigas”, afirma o geógrafo André Luiz Teixeira Leite Campos ao Money Times.

Mesmo assim, o Nordeste concentra a maior parte dos terremotos com epicentro no país. A explicação científica para essa vulnerabilidade regional está na Província Borborema, uma extensa formação geológica marcada por falhas formadas durante a separação entre a América do Sul e a África, há centenas de milhões de anos.

Aderson Nascimento, coordenador do Laboratório Sismológico da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (LabSis/UFRN), detalha a complexidade dessa estrutura.

“A Província Borborema é uma ‘colagem’ de terrenos de idades variadas que se consolidou durante o período Neoproterozoico, integrando a montagem do supercontinente Gondwana. Por apresentar uma litosfera que foi várias vezes retrabalhada ao longo da história geológica, ela é intensamente fraturada até hoje — o que explica uma taxa de sismicidade bastante expressiva no interior do Brasil, concentrada em estados como Rio Grande do Norte, Ceará e Pernambuco.”

Além do histórico tectônico, a espessura da crosta terrestre no Nordeste é um fator determinante para os tremores constantes.

“Uma crosta mais fina deixa essa porção mais frágil e quebradiça”, pontua Aderson Nascimento. “Essa característica facilita o aparecimento de falhas e deixa a região mais suscetível à sismicidade, mesmo estando longe das bordas das placas tectônicas.”

O ‘efeito eco’: quando o remor do vizinho assusta as capitais brasileiras

Relatos de moradores que sentiram prédios balançarem após terremotos na Venezuela ou no Oceano Pacífico levantam outra dúvida comum: como um tremor tão distante pode ser percebido no Brasil?

Terremotos de grande magnitude liberam uma quantidade monumental de energia. Ela se propaga pela crosta terrestre por centenas ou milhares de quilômetros. Em cidades brasileiras, especialmente nas regiões Norte e Nordeste — e no topo de edifícios altos —, essas ondas sísmicas chegam atenuadas, mas suficientes para provocar oscilações percebidas pela população, normalmente sem causar danos à infraestrutura.

O Brasil pode registrar terremotos devastadores como na Venezuela, no Chile ou no Japão?

A resposta da comunidade científica é categórica: não.

“Os terremotos brasileiros costumam ser rasos e de baixa a moderada magnitude. O risco de eventos comparáveis aos do Chile ou do Japão é extremamente reduzido”, reforça André Luiz.

A probabilidade de um megaterremoto em solo nacional é considerada extremamente baixa porque os tremores no Brasil são gerados por acomodações internas da placa, e não pela colisão direta entre grandes blocos tectônicos.

Como a ciência monitora o chão que pisamos em tempo real

Para acompanhar essa dinâmica e evitar o pânico, o Brasil conta com uma rede permanente de vigilância.

A Rede Sismográfica Brasileira (RSBR) opera em âmbito nacional sob a gestão de quatro instituições: Observatório Nacional, Universidade de Brasília (UnB), Universidade de São Paulo (USP) e o LabSis/UFRN, com apoio do Serviço Geológico do Brasil e do CNPq.

No Nordeste, a cobertura da Província Borborema é mantida por cerca de 23 estações sismográficas operadas pela UFRN.

“Atualmente, a rede no Nordeste consegue detectar e relatar eventos com magnitude em torno de 2.0, ou até menor”, afirma Aderson Nascimento.

“Se um morador sentir um abalo sísmico, é muito provável que ele tenha sido registrado por nossos sensores, que operam 24 horas por dia, sete dias por semana.”

O especialista orienta que a população relate qualquer percepção de tremor para a Rede Sismográfica Brasileira (RSBR) ou diretamente pelos canais oficiais do Laboratório Sismológico da UFRN, ajudando os pesquisadores a cruzar dados de campo com as leituras dos equipamentos.

O desafio do risco social e das fake news

Diante de abalos sísmicos, a falta de familiaridade dos brasileiros com o tema abre espaço para a proliferação de boatos nas redes sociais.

A orientação dos especialistas é sempre buscar informações em órgãos oficiais e instituições científicas de credibilidade.

Mais do que o tremor em si, o principal ponto de atenção das autoridades urbanas deve ser a infraestrutura.

“O fenômeno físico é predominantemente natural, mas o desastre é socialmente construído. A intensidade dos danos depende menos da magnitude do sismo e mais das condições urbanas, da qualidade das edificações e da capacidade de resposta das instituições”, afirma André Luiz Teixeira Leite Campos.

*Sob supervisão de Ricardo Gozzi.

AutorAmanda Cristina de Souza
FonteMoney Times
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