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Sacre Investimentos
InvestMercados
23/10/2026
5 min

Pressionada pela China, Volvo tem prejuízo de R$ 2,8 bilhões e corta 2.500 vagas

Com China e EUA em baixa, só a Europa contribuiu para o resultado; 2 mil das vagas cortadas ficam na Suécia

Pressionada pela China, Volvo tem prejuízo de R$ 2,8 bilhões e corta 2.500 vagas

A Volvo Cars anunciou nesta sexta-feira, 23, que vai cortar 2.500 empregos globalmente após a deterioração das vendas na China levar a montadora a registrar prejuízo operacional no terceiro trimestre. As ações da companhia chegaram a cair cerca de 27% durante o pregão.

A montadora registrou um prejuízo operacional de 5,6 bilhões de coroas suecas, o equivalente a aproximadamente US$ 564 milhões, ou R$ 2,8 bilhões, no terceiro trimestre. No mesmo período de 2025, a empresa havia registrado lucro operacional de 6,4 bilhões de coroas suecas.

Excluídos itens não recorrentes e o resultado de participações em outras empresas, como a fatia da Volvo no prejuízo da Polestar, o prejuízo operacional foi de 3,7 bilhões de coroas, contra lucro de 5,8 bilhões um ano antes. A receita caiu 23%, para 66,9 bilhões de coroas, e as vendas no varejo recuaram 11%, para 141,3 mil carros.

A companhia, controlada pela chinesa Geely Holding, afirmou que as condições de mercado ficaram mais difíceis na China e nos Estados Unidos, afetando também a geração de caixa.

A maior pressão veio da China. A receita da Volvo no país caiu quase 50% na comparação anual, em meio ao avanço de fabricantes chineses que ganharam competitividade e aumentaram a pressão sobre os preços no segmento premium.

As vendas da marca no país recuaram 43% no trimestre, enquanto o mercado chinês de carros de passeio como um todo encolheu 18%.

Para o CEO da Volvo Cars, Håkan Samuelsson, a velocidade da mudança no mercado chinês surpreendeu a companhia.

“É realmente muito sobre o mercado chinês, é claro, onde a mudança veio mais rápido do que pensávamos”, afirmou Samuelsson ao programa Squawk Box Europe, da CNBC.

Segundo o executivo, consumidores chineses passaram a demonstrar maior preferência por alternativas produzidas no próprio país. A expansão de marcas locais aumentou a concorrência e dificultou a estratégia da Volvo de vender globalmente modelos desenvolvidos na Europa e na China.

“Precisamos de uma nova estratégia na China. Ela precisa ter uma estrutura mais regional, uma região mais fortalecida, e precisamos de carros adaptados regionalmente”, disse.

A mudança deve envolver também maior integração com a Geely, controladora chinesa da Volvo.

A montadora pretende compartilhar algumas plataformas com a companhia e desenvolver na China parte de seus sistemas de software, incluindo recursos de entretenimento e assistência ao motorista. “Se você não tiver isso, acho que não consegue vender carros na China”, afirmou Samuelsson.

No balanço, a empresa informa que vai apresentar e começar a produzir, em meados do próximo ano, os dois primeiros de seis modelos desenvolvidos para o mercado chinês em parceria com a Geely. No país, a Volvo também vai unificar seus dois escritórios em Xangai para reduzir custos.

A pressão é particularmente relevante para uma marca posicionada no segmento premium, no qual fabricantes chineses passaram a disputar consumidores com produtos mais competitivos em preço e tecnologia.

Volvo também sofre com o mercado americano

Os problemas da companhia não estão concentrados na China. Nos Estados Unidos, a Volvo apontou o impacto das tarifas de importação e a redução dos incentivos para consumidores que compram veículos elétricos. As vendas da marca no país caíram 9% no trimestre.

A combinação pressionou as margens da montadora em um mercado importante para sua estratégia de eletrificação.

A empresa afirmou que o ambiente mais difícil nos dois mercados contribuiu para pressionar o fluxo de caixa livre.

Com China e Estados Unidos em baixa, metade dos negócios da companhia deixou de contribuir para a rentabilidade, segundo carta de Samuelsson aos acionistas. A Europa foi a única região com contribuição positiva no trimestre, com alta de 4% nas vendas.

No continente, o EX60, SUV elétrico lançado neste ano, acumula mais de 50 mil pedidos. A produção, porém, avança mais devagar do que o previsto.

Montadora quer cortar 5 bilhões de coroas

Para reagir à piora dos resultados, a Volvo Cars pretende reduzir 5 bilhões de coroas suecas em custos. O plano inclui o corte de 2.500 postos de trabalho em todo o mundo. Cerca de 2.000 deles ficam na Suécia.

Os cortes se somam às demissões anunciadas em 2025. Nos nove primeiros meses de 2026, a montadora tinha 39,3 mil funcionários em tempo integral, ante 43 mil no mesmo período do ano passado.

Segundo Samuelsson, a redução faz parte de uma mudança estrutural na organização da companhia, que pretende dar mais autonomia às operações regionais.

Com regiões mais independentes, a Volvo pretende reduzir a estrutura administrativa central e transferir parte das decisões para os mercados locais.

O efeito financeiro completo das medidas deve aparecer até o fim de 2027. Com elas, a Volvo diz que terá reduzido seus gastos indiretos em quase 25% em relação a 2024. A empresa também prevê custos de reestruturação de cerca de 600 milhões de coroas, que serão registrados no quarto trimestre.

Próximos passos e troca no comando

Diante da piora nas perspectivas para os próximos trimestres, a montadora retirou suas projeções para o restante do ano.

A reestruturação também coincide com uma troca na liderança. Em setembro, o conselho nomeou Klaus Zellmer, que tinha como cargo mais recente o de CEO da Škoda Auto, para suceder Samuelsson. Ele assume até 1º de outubro de 2027.

A mudança representa uma guinada para uma companhia que agora precisa conciliar sua identidade global com mercados cada vez mais diferentes entre si — e, no caso da China, com concorrentes locais que avançaram rapidamente sobre um segmento que durante anos foi dominado por marcas estrangeiras.

AutorLetícia Furlan
FonteExame
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