Pressionada por processos pela compra da Warner, Paramount poderá sair de Hollywood

A Paramount Skydance poderá deixar Hollywood caso conclua a compra da Warner Bros. Discovery. Em meio à crescente pressão judicial contra a aquisição de US$ 111 bilhões, o estúdio confirmou ter recebido um convite formal do estado do Tennessee para transferir sua sede corporativa para lá e, segundo fontes ouvidas pelo The Hollywood Reporter, a mudança passou a ser uma possibilidade real. Uma fonte próxima ao CEO David Ellison afirmou que, diante do embate com a Califórnia, "tudo está sobre a mesa".
A discussão ganhou força depois que a empresa passou a enfrentar uma série de ações para tentar barrar a fusão. Além de uma coalizão de procuradores-gerais de diversos estados americanos, o Writers Guild of America (WGA), sindicato que representa roteiristas de cinema e televisão, também entrou na Justiça alegando que a operação reduzirá a concorrência, pressionará salários e diminuirá a produção de filmes e séries.
A transação, que já teve aprovação do Departamento de Justiça dos EUA, foi anunciada em fevereiro após uma disputa com a Netflix pela aquisição da Warner Bros. Discovery e prevê a criação de um dos maiores conglomerados de entretenimento do mundo.
A operação reunirá o portfólio da Paramount, que inclui CBS, CBS News, Paramount Pictures e Paramount+, com os ativos da Warner Bros. Discovery, como HBO, HBO Max, Warner Bros. Pictures, CNN, TNT, TBS e HGTV.
Estados e roteiristas ampliam ofensiva contra a fusão
Warner: compra da gigante midiática pela Paramount enfrenta resistência nos EUA e na Europa (Jacek_Sopotnicki/Getty Images)
Na segunda-feira, 13, uma coalizão de procuradores-gerais liderada pela Califórnia entrou na Justiça para impedir a aquisição. Apesar de já ter a aprovação do Departamento de Justiça dos EUA, a operação agora é contestada por estados que alegam violação das leis antitruste.
Na ação, os estados afirmam que a empresa combinada controlaria 27% do mercado de distribuição cinematográfica de amplo lançamento, 30% do segmento de grandes blockbusters e 27% do mercado de licenciamento para TV por assinatura. Segundo os procuradores, a concentração resultaria em preços mais altos, menor oferta de filmes e redução da qualidade e da diversidade de conteúdo.
Um dia depois, o Writers Guild of America protocolou uma ação própria na Justiça Federal da Califórnia para tentar barrar a fusão. O sindicato argumenta que a união entre Paramount e Warner criaria o maior comprador de produções audiovisuais dos Estados Unidos, reduzindo a concorrência por roteiros e enfraquecendo o poder de negociação dos profissionais.
Segundo o WGA, Paramount e Warner responderam juntas por 35% dos empregos de roteiristas de cinema entre 2021 e 2024, 36% dos projetos de televisão entre 2022 e 2025 e 38% dos acordos firmados no período de 2021 a 2024. O sindicato também sustenta que a empresa combinada ultrapassaria 30% de participação de mercado, percentual considerado presumivelmente anticoncorrencial pela jurisprudência da Suprema Corte americana.
Além de pressionar salários e condições de trabalho, o WGA afirma que a dívida estimada de US$ 79 bilhões da empresa resultante da fusão criaria incentivos para cortes de custos, demissões e redução do número de produções.
Em resposta, a Paramount reiterou que a fusão permitirá ampliar o número de filmes e séries produzidos e afirmou que a alternativa seria o contínuo enfraquecimento da indústria diante do avanço de gigantes da tecnologia.
Paramount avalia deixar a Califórnia
Enquanto enfrenta a ofensiva judicial, a Paramount também passou a avaliar mudanças estruturais. Segundo o The Hollywood Reporter, o estado do Tennessee convidou formalmente David Ellison a transferir a sede corporativa da empresa para lá.
Em carta enviada em 2 de julho, o vice-governador Stuart McWhorter destacou o ambiente de baixos impostos, previsibilidade regulatória e incentivos ao crescimento empresarial como argumentos para atrair o estúdio.
Uma fonte próxima a Ellison afirmou à publicação que, diante do conflito com a Califórnia, "tudo está sobre a mesa". A própria Paramount confirmou a autenticidade da carta, embora tenha se recusado a comentar a possibilidade de mudança.
Uma eventual saída representaria um duro golpe para Hollywood. Segundo o The Hollywood Reporter, a empresa movimenta cerca de US$ 30 bilhões em investimentos em produção, recursos que poderiam ser redirecionados para estados como Nova York e Nova Jersey ou para países como Reino Unido e Canadá.
David Ellison possui vínculos antigos com o Tennessee, onde viveu durante parte da última década, e seu pai, Larry Ellison, fundador da Oracle, desenvolve atualmente um grande campus da empresa em Nashville.
Aquisição aprovada pelo Departamento de Justiça
O Departamento de Justiça dos Estados Unidos aprovou a proposta de aquisição da Warner Bros. Discovery pela Paramount Skydance em junho. O CEO da companhia, David Ellison, afirmou anteriormente que pretende concluir a operação até setembro.
Apesar do aval federal, a fusão agora enfrenta ações simultâneas movidas por estados americanos, consumidores e pelo principal sindicato de roteiristas de Hollywood, ampliando a incerteza sobre o cronograma e aumentando a pressão política e jurídica sobre o negócio.
UE também impôs condições
Para tentar obter a aprovação da União Europeia, a Paramount Skydance se comprometeu a deixar a United International Pictures (UIP), sua joint venture de distribuição de filmes com a Universal Pictures.
A decisão foi apresentada como resposta às preocupações concorrenciais das autoridades europeias. Além da análise da Comissão Europeia, a operação também é acompanhada por reguladores britânicos, enquanto a secretária de Cultura do Reino Unido, Lisa Nandy, avalia uma possível intervenção por questões relacionadas à pluralidade da mídia.
