Primeiro funcionário do Nubank criou uma IA que caça crédito barato — e cresceu 26 vezes em 8 meses
Aro passou de 500 mil cadastros em oito meses e quer transformar seu agente de IA em uma espécie de assistente financeiro pessoal

Ter alguém para olhar as contas, entender quanto dinheiro entra, lembrar das dívidas e procurar um empréstimo mais barato ainda parece um serviço reservado a quem pode pagar por um especialista.
Com a inteligência artificial, uma nova leva de fintechs tenta colocar esse tipo de assistência dentro do celular.
Uma delas é a Aro, criada por Pedro Milanez, primeiro funcionário do Nubank, e Yuri Mannes.
A fintech desenvolveu um agente de inteligência artificial que analisa a vida financeira do usuário, busca opções de crédito e ajuda a renegociar dívidas. A plataforma já reúne mais de 40 parceiros, entre instituições e empresas do mercado financeiro.
O negócio entra agora em uma nova fase.
Em oito meses, a Aro multiplicou por 26 sua base de clientes e passou de 500 mil cadastros.
Nesta semana, a empresa lança uma nova versão de seu aplicativo, com mais informações sobre a vida financeira do usuário e uma integração maior entre o agente de IA e as ofertas de crédito. A operação começou a rodar em novembro de 2025 e hoje tem uma equipe de 20 pessoas.
O próximo passo é fazer com que a Aro cuide de mais partes da vida financeira.
A empresa prepara ferramentas para organizar despesas, pagar contas e acompanhar parcelas de empréstimos. Também quer colocar seu agente dentro de aplicativos de outras companhias.
E, apesar de ainda ter caixa para financiar a operação, Milanez afirma que uma nova rodada de investimento pode começar a ser discutida no início de 2027.
Qual é a história de Milanez
A relação de Milanez com mudanças de tecnologia começou antes do Nubank.
Formado em sistemas de informação, ele começou a empreender no mercado de aplicativos ainda nos primeiros anos do iPhone. Criou uma empresa especializada em mobile, desenvolveu centenas de aplicativos e vendeu o negócio para o Magazine Luiza em 2013.
Naquele mesmo período, conheceu os fundadores do Nubank. Milanez diz que estava próximo de se mudar para os Estados Unidos para trabalhar na Apple quando decidiu entrar na fintech, que ainda estava começando.
Ele se tornou o primeiro funcionário da empresa.
No primeiro ano, ficou responsável pelo produto mobile e pela experiência do usuário. Nos quatro seguintes, passou a cuidar da operação de cartão de crédito. Ao todo, permaneceu cinco anos no Nubank.
A experiência serve hoje como uma espécie de referência para a tese da Aro.
Na visão de Milanez, o celular mudou a forma como as pessoas se relacionavam com bancos na década passada. A inteligência artificial pode provocar uma nova mudança.
Ao acompanhar a evolução dos modelos de IA em 2024, ele voltou a enxergar uma quebra de tecnologia parecida.
“Para mim, foi um momento iPhone de novo”, diz Milanez.
A comparação passa menos pela tecnologia em si e mais pelo que ela pode mudar na experiência do consumidor.
O avanço dos bancos digitais colocou contas, cartões e empréstimos no celular. Também fez o consumidor distribuir sua vida financeira entre mais empresas. Uma pessoa pode receber o salário em um banco, ter cartão em outro, contratar crédito em uma terceira instituição e usar uma carteira digital para compras.
Para a Aro, isso criou outro problema: escolher entre todas essas opções.
Como funciona o agente de IA da Aro
A proposta da fintech é funcionar como uma camada entre o consumidor e as instituições financeiras.
Com autorização do usuário, a Aro reúne informações como saldo, gastos, faturas, score de crédito, empréstimos e dívidas — dados que circulam no ambiente do Open Finance.
A partir desses dados, o agente tenta identificar o que aquela pessoa precisa e buscar alternativas entre os parceiros conectados à plataforma.
O crédito foi escolhido como porta de entrada.
Na prática, alguém que precisa de dinheiro pode informar quanto busca e para qual finalidade. Em vez de preencher cadastros em diferentes sites, a Aro cruza o perfil daquele usuário com as opções disponíveis entre seus parceiros.
A empresa também trabalha com renegociação. Nesse caso, mostra dívidas existentes, condições de desconto e opções de parcelamento.
Para Yuri Mannes, cofundador da Aro, parte do problema está na fragmentação do mercado de crédito. Há instituições especializadas em trabalhadores com carteira assinada, motoristas de aplicativo, profissionais de determinados setores e outros públicos.
Encontrar sozinho qual delas atende determinado perfil pode exigir várias tentativas.
“A primeira coisa é conseguir achar crédito para você. A segunda é ajudar você a renegociar suas dívidas”, diz Mannes. “Não é só uma recomendação. Ela vai achar o crédito, trazer para a pessoa e conduzir até o final do processo.”
A ambição vai além de mostrar uma lista de ofertas.
A Aro quer que o agente consiga acompanhar o consumidor depois da contratação. Entre as funções em desenvolvimento está, por exemplo, alertar e ajudar no pagamento das parcelas de um empréstimo para evitar novos juros.
Também pretende reunir despesas de diferentes contas e, posteriormente, permitir pagamentos pelo próprio agente, sempre mediante autorização do usuário.
Quem paga a conta?
O consumidor não paga para usar a Aro.
A receita vem do outro lado da operação: as instituições financeiras e demais parceiros. A empresa recebe quando um usuário contrata determinados produtos ou renegocia uma dívida por meio da plataforma.
Esse modelo coloca a Aro em uma posição que exige equilíbrio.
A empresa se apresenta como uma ferramenta para encontrar a alternativa mais adequada ao consumidor, mas sua remuneração também depende das operações realizadas dentro de seu ecossistema.
Mannes diz que a companhia estruturou o negócio para não cobrar diretamente do usuário. “A gente sempre teve na cabeça que o usuário não pode pagar nada”, diz. “A gente só vai ganhar se o nosso cliente ganhar.”
Há ainda uma segunda fonte de receita.
Ao integrar instituições de crédito à plataforma, a Aro encontrou empresas que ainda mantinham partes da análise de clientes em processos manuais.
Em alguns casos, funcionários precisavam verificar documentos, holerites e extratos antes de decidir pela aprovação. A fintech passou a vender serviços tecnológicos para digitalizar parte dessas etapas, incluindo coleta de informações e biometria.
Qual é o tamanho da empresa
A operação enxuta é uma das apostas do negócio.
A Aro tem 20 funcionários. Segundo Milanez, apenas duas pessoas trabalham diretamente como retaguarda do atendimento ao consumidor.
Os agentes de inteligência artificial respondem primeiro e encaminham casos para humanos quando necessário. “A gente nasceu nativamente assim”, diz Milanez.
A empresa afirma ter passado de 500 mil cadastros depois de multiplicar sua base de clientes por 26 em oito meses.
O crescimento ocorre em um mercado com uma demanda evidente por soluções de crédito.
Em fevereiro de 2026, o Brasil tinha 81,7 milhões de pessoas inadimplentes, que acumulavam mais de 332 milhões de dívidas, segundo levantamento da Serasa citado pela empresa.
Esse tamanho também expõe o desafio da Aro.
Encontrar mais crédito não significa, por si só, melhorar a situação financeira de um consumidor. Uma oferta inadequada pode aumentar o custo da dívida e alimentar um novo ciclo de inadimplência.
Milanez afirma que a proposta é manter o usuário dentro da plataforma mesmo quando não existe uma oferta disponível naquele momento.
“Não existe um ‘não’ em que você vem, toma o não e vai embora”, diz. “A gente quer falar: você não consegue acessar por causa disso, mas aqui está o que vamos fazer junto com você.”
Uma nova captação em 2027
A expansão pode levar a Aro novamente ao mercado de venture capital, investimento em empresas de crescimento acelerado.
Milanez afirma que a companhia ainda tem runway, período durante o qual o caixa disponível consegue sustentar a operação, mas já avalia uma possível nova rodada para o começo de 2027.
O dinheiro seria usado principalmente para aumentar o número de funcionalidades e ampliar a atuação para além da busca por crédito.
Antes disso, a empresa quer aprofundar justamente a área que escolheu como ponto de partida: acompanhar contratação, pagamento e renegociação.
Depois podem entrar outros produtos financeiros, como seguros e investimentos.
A aposta é que a próxima disputa do setor financeiro ocorra menos pela quantidade de produtos que cada instituição consegue colocar dentro do aplicativo e mais por quem mantém a relação com o cliente.
Foi uma disputa parecida que Milanez acompanhou do outro lado, quando o Nubank tentava convencer brasileiros a trocar agência e papel pelo celular.
