Problema do produtor de soja muda de fase: agora a pressão é sobre o lucro

Depois de um período marcado pelo aumento do endividamento dos produtores rurais, a principal preocupação do produtor brasileiro de soja na safra 2026/27, iniciada em 1º de julho, deve ser uma só: margens apertadíssimas, as piores dos últimos 20 anos, segundo levantamento da Cogo Consultoria.
Segundo relatório do BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME), o desafio agora não está apenas no balanço financeiro das propriedades, mas também na capacidade de geração de lucro da atividade.
"O problema agora parece estar se estendendo dos balanços patrimoniais para a demonstração de resultados", afirmam os analistas Thiago Duarte e Guilherme Guttilla.
Uma combinação de fatores ao longo dos últimos cinco anos levou a esse cenário, como a queda dos preços das commodities e o aumento da produção, enquanto os produtores fizeram grandes investimentos.
Agora, porém, o principal fator de pressão é o aumento dos custos, especialmente dos fertilizantes. Como o Brasil importa cerca de 85% desses insumos, a valorização média do dólar nos últimos anos ampliou essa pressão.
Segundo o banco, os preços da soja não apresentaram recuperação significativa, enquanto a valorização do real continua limitando a receita obtida pelos produtores em moeda local.
Como consequência, a receita por saca nesta safra deve permanecer praticamente estável em relação ao ciclo anterior. Ao mesmo tempo, os custos seguem em trajetória de alta.
Um estudo da Universidade Purdue, nos Estados Unidos, com fazendas-modelo em Mato Grosso — principal estado produtor de soja do Brasil —, mostra que os custos totais cresceram 96%, passando de US$ 172 para US$ 337 por tonelada entre 2021 e 2025.
E isso não deve mudar na atual safra. Com base em estimativas da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o relatório do BTG mostra que o custo médio de produção por hectare no estado deve aumentar cerca de 4% na temporada 2026/27, impulsionado, entre outros fatores, por uma alta de aproximadamente 6% nas despesas com fertilizantes.
Segundo os analistas, medido em sacas de soja, ocusto dos fertilizantes deve se aproximar de 17 sacas por hectare, o maior nível da série histórica utilizada no estudo.

Cenário semelhante é observado nos Estados Unidos, segundo maior produtor global de soja, mas por motivos distintos.
Enquanto no Brasil pesam os custos dos fertilizantes, nos EUA a pressão vem da alta dos preços das terras.
No Meio-Oeste americano, em estados como Illinois e Iowa, cerca de 75% dos agricultores cultivam áreas arrendadas.
Por lá, os custos cresceram 13% nos últimos cinco anos, o que levou as margens para o campo negativo. Nem mesmo o pacote de US$ 12 bilhões, anunciado pelo presidente Donald Trump para o setor agrícola, deve aliviar essa pressão.
Lucro da soja
Mesmo considerando uma produtividade estável, o BTG estima que a receita por hectare ficará praticamente inalterada em relação ao ano anterior. Com custos maiores, a consequência é a deterioração da rentabilidade.
"Mesmo supondo que a produtividade média permaneça praticamente estável, a receita por hectare deve ficar praticamente inalterada em relação ao ano anterior", afirmam os analistas
O relatório ressalta ainda que uma eventual redução da produtividade provocada pelo El Niño pode agravar esse cenário.
"Além disso, se o El Niño afetar a produtividade em uma magnitude semelhante à observada no último evento, as margens brutas poderão até se tornar negativas", afirmam os analistas.
